O corajoso trabalho das doulas com as gestantes durante pandemia do novo coronavírus

Assistentes de parto oferecem suporte emocional e encorajamento para mulheres

Do Estadão

A doula Paulina Riquelme, a obstetra Rahyssa Rodrigues e a obstetriz Paula Leal participam de parto em hospital de São Paulo durante pandemia
A doula Paulina Riquelme, a obstetra Rahyssa Rodrigues e a obstetriz Paula Leal participam de parto em hospital de São Paulo durante pandemia. Foto: Paulina Riquelme

Ajudar a trazer uma nova vida ao mundo de maneira tranquila e humanizada. Assim é o trabalho das doulas, assistentes de parto que oferecem suporte emocional e encorajamento para as mulheres. E, em tempos de pandemia do novo coronavírus, a coragem precisa ser multiplicada por dois.

“Está sendo um desafio enorme trabalhar de acordo com os novos conceitos de segurança e proteção, principalmente em ambientes hospitalares e mais ainda em ambiente domiciliar. Porque aí, por parte das gestantes, pode acontecer um afrouxamento de condutas de segurança, de utilização de EPI, higiene e distanciamento”, afirma Paulina Lorena Verde Riquelme, que é doula e já participou de dois partos desde o início da quarentena no Brasil. Ela diz que essa é uma situação em que a gestante fica muito ansiosa. “Por vários motivos. Em muitos lugares a doula está sendo impedida de entrar, para ter o mínimo de pessoas em contato umas com as outras. Então, além de todo cenário incerto de transmissão vertical mãe/bebê, ainda ter a incerteza se a equipe de escolha da mulher estaria presente”, diz.

A doula Paulina Riquelme acompanha o parto de Carolina e a chegada do pequeno Theo durante a pandemia de covid-19
A doula Paulina Riquelme acompanha o parto de Carolina e a chegada do pequeno Theo durante a pandemia de covid-19. Foto: arquivo pessoal

Janaina Lacerda é doula há seis anos na cidade de Jacareí, no interior de São Paulo, e também já acompanhou alguns partos durante a pandemia. “Foi uma experiência peculiar. É estranho para nós que transitamos no cenário do parto com certa naturalidade, ter equipamentos de proteção, preocupação com toques, proximidade. As acompanhei durante o trabalho de parto em casa dando o suporte necessário para que elas se sentissem seguras, confortáveis e fossem para o hospital em momento oportuno”, conta.

Na maternidade de Jacareí, a orientação é que a gestante tem garantia de um acompanhante de sua livre escolha, segundo a Lei Federal nº 11.108. “Antes da pandemia, elas podiam ter o acompanhante e a presença da doula durante todo o período do trabalho de parto. Porém, a pandemia nos trouxe essa limitação e, então, algumas gestantes optaram que eu entrasse para auxiliá-las. É uma decisão difícil, mas são escolhas necessárias nos dias atuais e que buscamos trabalhar com antecedência para não trazer ainda mais insegurança no momento do parto”, avalia Janaina.

Paulina também observa o sofrimento das gestantes por ter de abrir mão da doula na hora do nascimento do bebê. “Está sendo bem desafiador adaptar meu trabalho para essa nova realidade. Tem muito lugar no Brasil que proibiu a entrada das doulas. Aqui em São Paulo tem alguns lugares e isso está sendo um conflito para estas gestantes que estavam achando que a doula estaria com certeza no dia do parto”, desabafa.

A doula Janaina Lacerda, que atua na cidade de Jacareí, no interior paulista
A doula Janaina Lacerda, que atua na cidade de Jacareí, no interior paulista. Foto: Juliana Rosa

Na cidade de Jundiaí, também no interior paulista, Izabel Medeiros auxilia partos há pouco mais de dois anos. Em tempos de coronavírus, ela participou de alguns procedimentos, incluindo um domiciliar. “Todos tiveram em comum um pouco mais de tensão, mesmo com todos os cuidados e EPIs, parturiente, acompanhante e equipe estavam um pouco mais apreensivos”, relata.

A doula também teve de adaptar o trabalho pré-natal com as gestantes, que é feito presencialmente, para o universo virtual. “Os encontros pré-parto passaram a ser online, assim como os de pós-parto”, diz.

Para as gestantes, Izabel aconselha: “Viva o presente. Permita sentir suas emoções e sensações, sejam elas positivas ou negativas, trazendo à consciência o que está sentindo e buscando caminhos para que os dias passem com mais tranquilidade. Trazer o acompanhante para perto, incluí-lo no processo é de suma importância para um parto mais tranquilo. E também preparar-se para o pós-parto, já que nem sempre poderemos contar com ajuda extra”, conclui.

Parto domiciliar na quarentena: uma possibilidade que precisa de cuidado e planejamento

Aos 38 anos de idade e na terceira gestação, Giovanna Balogh já havia decidido realizar o parto domiciliar muito antes da pandemia do novo coronavírus. “Tive dois partos normais. Sou mãe do Bento, que tem 10 anos, e de Vicente, de oito. Os dois foram hospitalares. E eu sempre dizia que, se eu engravidasse de novo, queria que fosse em casa”, lembra.

Ela e a família vivem no município de Mogi das Cruzes, em São Paulo. Durante a gestação, todos tomaram os cuidados necessários e estão isolados em casa desde o dia 15 de março. O marido, que é fotógrafo freelancer, recusou diversos trabalhos para não colocar a família em risco.

Sem plano de saúde, a opção de hospital seria a Santa Casa da região. “Era nosso ‘plano b’, se tivesse alguma intercorrência. Tenho uma médica particular, que atende pela Santa Casa, que seria nossa médica backup. Se precisasse de uma analgesia ou se algo não transcorresse como planejado, a gente iria para lá. Só que diante da pandemia, queria menos ainda ir para o hospital. Também porque estavam restringindo acompanhante, as parteiras não poderiam entrar e era uma coisa que não queria passar de jeito nenhum”, afirma.

Giovanna contou com duas enfermeiras obstetras – todas equipadas com EPIs -, o marido e os dois filhos. “A gente conversou bastante com eles sobre a mamãe gritar, ficar fora de si durante o trabalho de parto. Eles entenderam, mas optaram em não ficar presentes na cena. Eles passavam na porta do quarto, davam uma espiada e só depois que ela nasceu que eles quiseram ver”, diz.

Equipadas com EPIs, equipe de saúde realiza parto de Giovanna Balogh em casa durante pandemia do coronavírus
Equipadas com EPIs, equipe de saúde realiza parto de Giovanna Balogh em casa durante pandemia do coronavírus. Foto: Diego Padgurschi / Arquivo Pessoal

A pequena Teresa nasceu no quarto dela, pesando 3,2 quilos e medindo 51 centímetros, em uma piscina levada pelas enfermeiras que deram assistência. “Foi a experiência mais incrível da minha vida! Nem parece que vivi tudo isso aqui. E, assim que ela nasceu, meu marido a pegou no colo. Ela ficou o tempo todo comigo, veio pra cama, olha, foi uma experiência muito gostosa. Só lamento as pessoas mais próximas não poderem vir visitar, as avós e os avôs”, desabafa.

Emocionada, Giovanna chora ao contar que havia planejado passar o puerpério ao lado da mãe, no momento mais frágil da mulher após o nascimento do bebê. “Eu idealizava muito a minha mãe estar comigo, ajudando a arrumar o enxoval. Eu idealizava ter um chá de benção com minhas amigas, receber o carinho na reta final e não rolou. Fazer o quartinho com a minha mãe. E deixamos tudo isso para depois. A gente deixa para depois porque você vê que é supérfluo e que dá para deixar para depois. Sofro muito de ver o tempo passar e minha mãe não poder pegar minha filha no colo. Eu choro, me emociono. Fico torcendo para o povo se conscientizar e essa fase passar logo, as pessoas ficarem em casa para a gente poder ter, enfim, uma vida mais normal”, conclui.

Em isolamento social, Giovanna Balogh amamenta a pequena Teresa, que nasceu no quarto dela, durante pandemia
Em isolamento social, Giovanna Balogh amamenta a pequena Teresa, que nasceu no quarto dela, durante pandemia. Foto: Diego Padgurschi / Arquivo Pessoal

Dicas de segurança para gestantes no parto em tempos de pandemia

O governo federal não tem dados sobre o número de partos, planejados ou acidentais, em domicílio. Mas grupos de parteiras ouvidos pela reportagem relatam que a procura por esse tipo de procedimento têm aumentado durante a pandemia.

No entanto, o parto em casa só é elegível em casos de gestações em que o risco é habitual, em que a mulher ou o bebê não tenham doença prévia e o pré-natal ocorra sem complicações. “Em primeiro lugar, é preciso ter a certeza de que a escolha de parto domiciliar não deve ser pautada no medo do coronavírus, senão, não é o mais indicado. Caso não seja isso, procure uma equipe que tenha vasta experiência no atendimento a partos domiciliares”, aconselha a enfermeira obstetra da Unifesp Cinthia Calsinski.

O site do Ministério da Saúde tem um documento, de 2010, com normas e procedimentos relacionados ao parto domiciliar, com recomendações para as parteiras.

Em tempos de coronavírus e em ambiente hospitalar, Cinthia Calsinski lembra que as visitas estão proibidas. “A providência mais acertada é de conversar com o obstetra para que receba alta o mais precocemente possível. O alojamento conjunto é ainda mais indicado neste momento, para que se evite exposição desnecessária do recém-nascido aos profissionais de saúde para realizar cuidados que podem perfeitamente ser feito pelos pais”, ressalta a especialista da Unifesp.

De acordo com o Ministério da Saúde, em Nota Técnica, é necessário a “realização de uma triagem em toda parturiente e seu acompanhante para casos suspeitos ou confirmados da covid-19 antes da sua admissão no serviço obstétrico, como também apresenta as situações e condições necessárias para permissão da participação do acompanhante”. O documento ainda informa que todas as visitas devem ser, temporariamente, suspensas, visando a proteção de todos.

Saúde da População Negra, Doença Falciforme e a Pandemia: Fatores de Risco e Vulnerabilidades Sociorraciais

Do Jornal Roteiro de Notícias

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Originária da África, a doença falciforme é uma mutação genética, que se espalhou pelo mundo com o deslocamento forçado da população negra escravizada. Foto: Marcello Casal Jr/ Arquivo Agência Brasil

A pandemia da Covid-19, longe de ser “democrática”, trouxe como consequência imediata para cerca de 54% da população brasileira autodeclarada preta e parda um aumento dos fatores de risco ligados às suas condições de vida e ao racismo estrutural.

Um dos agravos mais severos que incide em grupos vulneráveis com ancestralidade africana em todo o país é a doença falciforme (Hb SS). A doença decorre de uma alteração da hemoglobina que resulta em inúmeras manifestações clínicas graves que podem ter consequências ao longo de toda a vida dos indivíduos.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, 3.500 crianças nascem com doença falciforme no Brasil anualmente. Segundo a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, estima-se que no Brasil haja 70.000 pessoas com anemia falciforme.

Devido à relação microevolutiva da doença estar associada à endemia de malária no continente Africano e Árabe-Indiano, com o advento da Diáspora Africana (tráfico de pessoas escravizadas) desde o século XVI, o fenótipo de indivíduos com a doença no Brasil é majoritariamente de grupos autodeclarados pretos ou pardos, acometendo pessoas brancas em menor número, dependendo da frequência filogenética de cada região (Naoum 2011).

No entanto, quem tem doença falciforme e as suas variantes como a Hb SF, a Hb SC e outras alterações genéticas combinadas é triplamente vulnerável quando exposto ao Coronavírus (Sars-CoV-2): primeiramente pela própria comorbidade da doença, que é crônico-degenerativa, acometendo os glóbulos vermelhos que, sem a oxigenação adequada, podem causar situações de crises falcêmicas, ocasionando diversos sintomas como: febre, infecções, dores generalizadas pelo corpo, imunossupressão, acidente vascular cerebral, icterícia, problemas pulmonares, síndrome torácica aguda etc., podendo evoluir à óbito, sendo que muitos dos sintomas e órgãos envolvidos também estão relacionados à Covid-19, potencializando o risco de morte para as pessoas afetadas.

Um segundo fator de preocupação é que a população majoritariamente afetada por esta hemoglobinopatia genética está entre os grupos mais vulneráveis economicamente e que enfrentam dificuldades no diagnóstico e complicações no acompanhamento e tratamento da doença, que apesar de gratuito pelo SUS, não é fácil nem barato, devido à necessidade de internações hospitalares e de busca por atendimento de urgência e emergência que a doença exige com frequência, efeitos que se conectam através dos Determinantes Sociais em Saúde (DSS) aos índices de emprego, renda, educação e acesso à saúde que são menores em relação aos brancos, chegando a 44% no que diz respeito à diferença salarial, usando apenas a categoria econômica em termos comparativos (IBGE, 2019).

Considerando que os leitos e vagas nos hospitais públicos e privados estão beirando a falência na maioria das capitais e outros municípios do país, dificultando ainda mais a acessibilidade e o acolhimento diferenciado, as pessoas com doença falciforme têm sido enquadradas como grupo de risco (Hemominas, 2020).

O terceiro aspecto está relacionado ao Quesito Raça/Cor. Embora esse seja um indicador oficial do IBGE (2017) em relação à diversidade sociorracial brasileira e haja provisão legal para sua utilização no âmbito dos serviços de saúde (Portaria 344 de 01/02/2017 do Ministério da Saúde), até fevereiro não constava nos registros oficiais da pandemia da Covid-19 esse campo ou a obrigatoriedade do seu preenchimento e ainda em abril os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde não eram desagregados segundo raça/cor.

Mesmo depois da obrigatoriedade, permanece a subnotificação, uma vez que para muitos profissionais de saúde este dado não é considerado relevante.

Coronavirus (getty Images)
Pessoas negras e pardas somam 54,8% das mortes por covid-19 registradas no Brasil de acordo com o site UOL. Foto: Reprodução/Getty Images

No entanto, o retrato da pandemia nos EUA deixou claro o impacto do racismo na saúde uma vez que, embora os negros componham a minoria da população norte-americana (cerca de 30%), são proporcionalmente a maioria dos mortos pela SARS-Cov-2 (cerca de 70%).

No Brasil, os impactos do racismo na saúde, embora reconhecidos, ainda tem recebido pouca atenção (Cunha, 2013). É fato que ser preto ou pardo aqui aumenta substancialmente seu risco de morte, em especial, no caso da população diagnosticada com doença falciforme e/ou demais doenças crônicas, como: hipertensão arterial, diabetes, enfermidades coronarianas e renais, que ocorrem com alta prevalência na população negra.

A quantidade de mortos pretos e pardos com Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) quintuplicou no Brasil somente no mês de abril, como indica o site da FIOCRUZ (RJ), um índice alarmante, sendo que as mortes por Covid-19 são subnotificadas em todos os estados e há enorme necessidade de testagem em toda a população brasileira, para que os índices epidemiológicos e de risco de contaminação sejam adequadamente regulados e notificados.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, criada em 2007 como Política de Ação Afirmativa da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, ainda é uma realidade distante na maioria dos estados e municípios, em especial, no estado do Pará, no qual nunca foi implantada, ainda que, segundo o censo de 2010, o Pará tenha 76,5% da população autodeclarada preta e parda.

Como há sub registro no estado, não se sabe exatamente como esta população se reflete no número de contágios pela Covid-19, nos índices de óbitos domiciliares, notificados como causas desconhecidas ou naturais, porque os testes de confirmação são praticamente inexistentes em todo o estado, sendo aplicados quase que exclusivamente em pacientes hospitalizados ou em profissionais de saúde sintomáticos.

A carência de exames em larga escala no estado gera outro agravante, pois não apenas os grupos citados precisam de controle epidemiológico, como também o restante da população, com ou sem sintomas, para que possamos ter noção da abrangência da pandemia no Pará, incluindo-se igualmente as populações mais vulneráveis, como: as comunidades quilombolas, ribeirinhas, rurais e os povos indígenas, que para as quais as ações governamentais ainda tem sido tímidas ou nulas.

O Atlas da Violência Urbana publicado em 2018, mostrou que 71,5% da população assassinada no Brasil é negra, principalmente nas Regiões Nordeste e Norte, contudo, o caso mais recente que ocorreu no Rio de Janeiro (RJ), do adolescente João Pedro (14 anos), que foi fuzilado dentro de casa pela polícia carioca ou os diversos episódios de chacinas ocorridas nos bairros considerados de linha vermelha da violência na capital paraense nos últimos anos, demonstram que a Covid-19 não é a única preocupação endêmica quando nos referimos à Saúde da População Negra, pois as diversas formas de racismo (pessoal, institucional, estatal e estrutural) também colaboram para o aumento desses índices diariamente, tornando a cor da pele um fator de profundo risco não apenas à saúde, mas ao que se refere à construção de uma cidadania plena, de fato e de direito, que ainda não chegou nas favelas, nas comunidades, nas baixadas e nas áreas periféricas da sociedade brasileira, condições de desumanização que precisam ser resolvidas urgentemente.

Prof. Dr. Hilton P. Silva/Co-autor

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA/UFPA; Docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Sociedade na Amazônia – PPGSAS; Coordenador do Laboratório de Estudos Bioantropológicos em Saúde e Ambiente – LEBIOS, Belém, Pará.

 

Como estão (todas) as crianças do Brasil durante a pandemia?

Do Lunetas

Crianças que vivem em situação de rua, que dependem da alimentação escolar ou que sofrem agressões em casa são as mais invisibilizadas pelo noticiário

Resumo

Viviana Santiago reflete como a mídia não retrata todas as crianças que estão vivendo a pandemia no Brasil. Crianças em situação de rua, que dependem da alimentação da escola ou aquelas que sofrem violência em casa são as mais afetadas pela pandemia.

Desde a chegada da pandemia da Covid-19 e o início das medidas de isolamento social adotadas para barrar o avanço do novo coronavírus, os noticiários têm se dedicado à essa cobertura. Em quase todos, uma reportagem já ficou comum: mostrar a vida das crianças na pandemia.

Essas reportagens me dão a sensação de que não vejo todas as crianças refletidas ali. Hoje, percebi o porquê. A maioria mostra crianças que partilham alguns marcadores sociais: são brancas, de classe média, trancadas em seus apartamentos com suas mães e seus pais que fazem home office e enfrentam dificuldade em conciliar trabalho, cuidados com a casa,  atenção e afeto, além de terem assumido a responsabilidade de liderar a escolarização. É um desafio enorme para os pais, mas também para as crianças que, de um momento para o outro, perderam tantos aspectos estruturantes de suas vidas.

Então, me pergunto: como vivem todas as crianças, aquelas outras sobre as quais não se produzem reportagens, mas sabemos que existem? Será que o maior desafio que estas crianças lidam é tentar jogar futebol na sala de um apartamento?

De acordo com pesquisa realizada pelo Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda), existem mais de cem mil brasileiros em situação de rua. Dessas, cerca de 23 mil são crianças e adolescentes, sendo que 23% dormem em calçadas, viadutos, praças e rodoviárias; 2,9% dormem temporariamente em instituições de acolhimento; e 14,8% circulam entre esses espaços.

Se as reportagens falam de ‘ter que ficar em casa’, existem crianças que não têm casa.

A mídia aponta os problemas das famílias em acompanhar tarefas escolares on-line, sendo que 38,9% das crianças entre seis e 11 anos que estão em situação de rua não frequentam a escola – este índice aumenta para 58,9%, na faixa etária de 12 a 17 anos. Por que não sabemos como essas meninas e meninos estão vivendo a pandemia?

Além de discutir o cotidiano de mães e pais em situação de home office e a maneira como isso impacta a relação familiar, devemos falar também das mais de 58 milhões de pessoas que perderam metade ou mais de suas rendas e dos 32 milhões de trabalhadores que podem ficar sem renda e sem o auxílio emergencial durante a pandemia. Com a suspensão das aulas e perda financeira das famílias, as crianças e adolescentes que dependiam quase que exclusivamente da alimentação escolar hoje passam fome.

Quem tem casa e comida ainda corre riscos. Nem sempre a casa é um lugar protetor.

A cada quatro horas uma menina com menos de 13 anos sofre violência sexual no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Todos os dias, são notificadas, em média, 233 agressões físicas, psicológicas e tortura contra crianças e adolescentes de até 19 anos – boa parte tem como autores pessoas do círculo familiar e de convivência das vítimas.

É preciso mudar a perspectiva: disputar essa narrativa homogênea que quer nos fazer acreditar que existe uma infância única. As enfermidades não são instituições democráticas, elas afetam de maneira diferenciada porque já existe um contexto de desigualdade implantado. Se analisarmos questões de raça, classe e gênero, sabemos que a população pobre, negra, mulheres e meninas são os grupos em situação de maior vulnerabilidade no Brasil. Crianças nas periferias e nas regiões mais pobres estão com fome e pedindo comida. Penso nas crianças imigrantes e refugiadas cujas famílias vivem em extrema pobreza e enfrentam a xenofobia de quem acredita que aqui não é seu lugar, com risco do trabalho infantil e da exploração sexual.

Cada criança conta. Toda criança conta. Não se trata de estabelecer uma competição para ver quem sofre mais, mas dizer que nenhuma criança deve sofrer. Todas as crianças merecem viver bem e têm o direito de viver livre de violências.

Mudar a narrativa sobre a situação dessas crianças é nomear as questões. O que não pode ser nomeado também não pode ser enfrentado. Nomear é o primeiro passo para gerar sensibilização social, impactar as respostas à pandemia e de fato fazer com que Estado, família e sociedade possam reposicionar as crianças num lugar onde muitas nunca estiveram, e do qual outras recentemente foram retiradas: o lugar deprioridade absoluta.

Viviana Santiago

Viviana Santiago

Viviana Santiago é educadora, nordestina, mãe de João Marcos e gerente de gênero e incidência política da Plan International Brasil.

Gravidez, nascimento e a pandemia de COVID-19 nos Estados Unidos

Acesse o original (em inglês)

Pregnancy, Birth and the COVID-19 Pandemic in the United States

Published online: 14 May 2020

How quickly and in what ways are US maternity care practices changing due to the COVID-19 pandemic? Our data indicate that partners and doulas are being excluded from birthing rooms leaving mothers unsupported, while providers face lack of protective equipment and unclear guidelines. We investigate rapidly shifting protocols for in- and out-of-hospital births and the decision making behind them. We ask, will COVID-19 cause women, families, and providers to look at birthing in a different light? And will this pandemic offer a testing ground for future policy changes to generate effective maternity care amidst pandemics and other types of disasters?

Choque hiperinflamatório em crianças durante a pandemia de COVID-19

O South Thames Retrieval Service, em Londres, Reino Unido, fornece apoio e recuperação em terapia intensiva pediátrica a 2 milhões de crianças no sudeste da Inglaterra. Durante um período de 10 dias, em meados de abril de 2020, foi observado um grupo sem precedentes de oito crianças com choque hiperinflamatório, mostrando características semelhantes à doença atípica de Kawasaki, síndrome de choque da doença de Kawasaki, ou síndrome do choque tóxico (o número típico é de uma ou duas crianças por semana). Esse cluster de casos formou a base de um alerta nacional.

Acesse o artigo original no The Lancet

Hyperinflammatory shock in children during COVID-19 pandemic

Published: May 07, 2020  DOI:https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31094-1

Com novas recomendações por causa da pandemia, a maternidade é vivida a vários tempos em Portugal

Partos programados antes do termo, ausência de companhia, bebés afastados das mães à nascença. A pandemia levou uma nova realidade às maternidades que tentam, agora, arrepiar caminho. Mas, apesar de já haver novas directivas, a maior mantém-se: cada instituição terá de adaptar as medidas à sua realidade.

Do Público

O que mudou na forma como se nasce em Portugal desde o início da pandemia? “Em qualquer situação obstétrica a primazia é sempre dada ao bem-estar da mãe e depois ao do bebé”, começa por responder João Bernardes, professor catedrático de Ginecologia e Obstetrícia. No entanto, desde Março, juntou-se a esta equação a necessidade de “salvaguardar a saúde pública”, o que acabaria por resultar numa ausência de uniformidade nas normas impostas por cada espaço.

Isto porque, contextualiza o clínico e investigador, em termos físicos e humanos as instituições em Portugal são muito diferentes. Essa é a razão pela qual, explica ao PÚBLICO, “cada equipa deve avaliar a situação local”. Certo é que, nas recomendações publicadas, esta terça-feira, pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) continua a ler-se que aquelas “podem ser adaptadas à realidade de cada instituição e à avaliação clínica de cada caso”.

Mas recuemos um pouco no tempo, até meados de Março, quando a atenção à saúde pública​ transformou as alas de maternidade em quase cenários de guerra, com as equipas a tentarem resguardar-se de possíveis infecções e, ao mesmo tempo, reduzir as probabilidades de contágio das utentes por outros. Por essa razão, qualquer mulher que chegasse a um hospital em trabalho de parto viria a ser tratada como se estivesse infectada — pelo menos, até chegar o resultado do teste à covid-19.

“A introdução do teste rápido veio alterar esses procedimentos”, confirmou a directora da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, ao PÚBLICO. Agora, a diferença, relatou Marina Mocho, é que a grávida sem teste, em vez de entrar pela zona de admissão, segue directamente para o quarto. “Vamo-nos adaptando à medida que a situação evolui”, explica, acrescentando que “já não há necessidade de indução”, algo optado para “evitar situações de sobrelotamento”, mas essencialmente para averiguar a situação viral da grávida: se infectada ou não pelo novo coronavírus. “Não podemos correr o risco de estarmos infectados”, reforça a médica.

Foi para minimizar esse risco que Eunice Rodrigues, diagnosticada com covid-19, passou quase três horas à espera até entrar no hospital. O parto até tinha sido marcado, dias antes, para ser induzido, mas o bebé acabaria por trocar as voltas à programação do mundo cá fora e decidiu nascer mais cedo. “Foi um parto delicioso: rápido e sem epidural”, relata a mulher, que já tinha três filhas, descrevendo as equipas médicas do São João como “profissionais e rigorosas”. Porém, apesar de terem colocado o bebé em cima da sua barriga e de até terem perguntado se desejava cortar o cordão, o recém-nascido foi logo levado para longe de si, para os cuidados de neonatologia, tendo sido submetido a análises que regressaram negativas.

Nem todos os casos se resolveram por si e a indução acabou por ser necessária — mesmo depois da introdução do teste rápido. Foi o caso de Catarina Soares, cujo trabalho de parto demorou 16 horas. “Tenho noção que o parto poderia ser mais fácil ou menos longo, mas decidi confiar”, descreve com serenidade, apesar de todo o processo ter sido vivido de máscara ou de só ter podido contar com a presença do pai na fase da expulsão.

Direito a acompanhante

A ausência de acompanhante ao longo do processo do trabalho de parto tem sido um dos factores alvo de mais reclamações por parte de mulheres e homens. E as novas recomendações são omissas sobre esta questão. Questionada pelo PÚBLICO, a DGS informou que “para os acompanhantes mantém-se em vigor a orientação” anterior, ou seja, “a presença poderá ser permitida apenas se a instituição considerar que tem asseguradas todas as condições de segurança para evitar o contágio”.

Porém, muitas grávidas e respectivos acompanhantes denunciam “um enorme retrocesso nas conquistas dos últimos anos” e, depois de os relatos se terem acumulado, decidiram criar um movimento cívico e activista pela restituição dos direitos suspensos em contexto de pandemia — “das mulheres grávidas, puérperas, mães e pais, recém-nascidos e, acima de tudo, famílias, durante toda a gestação, parto e pós-parto”.

Reclama-se os direitos “a acompanhante, à liberdade de movimentos e métodos alternativos de dor, ao contacto pele a pele entre mãe e recém-nascido, a amamentação imediata e ao alojamento conjunto de mãe e bebé”, em linha com as directivas da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere cinco maneiras para os serviços de saúde melhorarem o atendimento às mulheres no parto, a começar pela presença de acompanhante.

Além disso, a OMS aconselha que se aceite a posição de nascimento que as mulheres preferem, a treinar os profissionais para cuidados específicos relacionados com a dignidade materna e neonatal, a fortalecer a supervisão e a oferecer estratégias de alívio da dor.

Carla Sousa, uma das grávidas na génese daquele movimento, considera que não chega a existência de recomendações, quando cada hospital tem liberdade para adaptar as mesmas. Segundo a também psicóloga, a ausência de uma directiva comum origina “níveis de ansiedade brutais” nas grávidas, além de considerar incompreensível ter unidades em que o acompanhante nunca deixou de estar presente e outras em que aquele, ainda hoje, se mantém longe do nascimento — algo que a faz considerar vir a ter o seu segundo filho no privado.

Neste ponto, o investigador João Bernardes explica que a ausência de uma linha uniforme está relacionada com as condições materiais de cada maternidade: “Se se tiver mais do que uma mulher na mesma sala e todas estiverem acompanhadas, as distâncias deixam de ser cumpridas, além de, em muitos casos, as casas de banho serem de utilização comum.”

Apesar de compreender as contingências, Catarina, de 27 anos, sublinha as contradições vividas no início de Maio, na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. “Não podia haver acompanhante por precaução, mas eu apenas recebia uma máscara [cirúrgica] por dia”, quando as recomendações ditam que esta não deve ser usada por mais do que quatro horas.

Parto programado?

Dos casos que o PÚBLICO teve conhecimento de partos no privado, todos tiveram acompanhante presente. “Fizemos a análise e, com o resultado negativo, foi marcada cesariana”, conta Miguel, 48 anos, que explica que, além do contexto, foram-lhes explicadas razões clínicas para optar pelo procedimento cirúrgico. Durante o período que passou em ambiente hospitalar, nunca saiu do quarto, onde estavam a companheira e a filha de ambos. Essa era a condição para que pudesse permanecer no local.

Também João, de 41 anos, relata experiência semelhante, em que a cesariana, programada às 39 semanas, no Hospital Lusíadas, fez parte de uma decisão que, em parte, já estava tomada pela mãe. Ambos os progenitores salientam o facto de o procedimento ter sido garantia de menos stress e também têm uma percepção semelhante do pós-parto: o contexto de pandemia, com a ausência de visitas de amigos e familiares, assim como o facto de haver menos gente na rua na altura de levar os recém-nascidos às consultas de pediatria resultaram numa vivência da paternidade com menos preocupações e mais serenidade.

Para já, sem dados estatísticos, não há qualquer prova do aumento de cesarianas, testemunha João Bernardes. Porém, admite que este é um assunto a que se tem de prestar atenção, sobretudo quando a cesariana é reconhecida como uma intervenção de risco, estando, segundo a DGS, “associada a riscos de saúde superiores aos do parto vaginal (…): de lesão uretral e vesical, de histerectomia, de tromboembolismo, de complicações infecciosas, de reinternamentos hospitalares”.

Também Alexandrina Mendes, obstetra no Centro Hospitalar Póvoa de Varzim-Vila do Conde, admite que, na sua unidade, os “partos programados terão aumentado”, mas ressalva que “a taxa de cesarianas não aumentou”. Para esta médica, a lidar com partos num centro onde os testes rápidos já existem, mas em quantidades insuficientes e sem laboratório próprio (o que faz com que o resultado demore mais tempo), é necessário que se aumente o número deste tipo de exame de forma a facilitar todo o processo de nascimento.

Todavia, uma preocupação persiste: as directivas contrárias de distintas sociedades. “Enquanto a Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal (SPOMMF) aconselha a separar o bebé da mãe que tem um resultado positivo para a covid-19, a [Sociedade] de Medicina Interna diz o contrário.” Nas recomendações da SPOMMF lê-se que “para reduzir o risco de transmissão do vírus da mãe para o recém-nascido, deve considerar-se a separação temporária (após o parto) da mãe” infectada.

Mães e bebés separados

A recomendação da SPOMMF foi levada à letra em algumas unidades que se depararam com parturientes com covid-19, como no caso de Eunice. Após o parto, a mulher ficou internada, enquanto o recém-nascido seguiu para a neonatologia. No documento publicado esta terça-feira, considera-se que “o contacto pele a pele e o alojamento após o parto (separação temporária ou alojamento conjunto) deve ser feita caso a caso, numa decisão partilhada entre a mãe e a equipa dos profissionais de saúde”. Para esta decisão, indica a DGS deverá pesar “a condição clínica da mãe e do recém-nascido, o desejo de amamentar, os recursos existentes para separar o recém-nascido e as condições existentes para um alojamento conjunto em segurança”.

Para Eunice, o risco de contágio horizontal, por menor que fosse, justificou a separação. E, na altura da alta, em que o marido também viria a ter o resultado do teste positivo, o casal regressou a casa sem a criança. “Ficámos os dois doentes e com três meninas (todas com resultado negativo) em casa; não tínhamos condições para cuidar do bebé”, recorda, frisando a dedicação de todos no hospital, com videochamadas e muitas fotografias.

Quando o pai foi declarado recuperado, o hospital considerou que era altura para ir buscar o bebé — algo feito quase contra a vontade da mãe. “Tinha medo”, confessa. O bebé chegou a casa 17 dias após o nascimento, mas quase sete semanas depois da data em que chegou ao mundo os cuidados ainda não foram atenuados, com os resultados da infecção da mãe a manterem-se positivos e os telefonemas diários da pediatria. “Há um cansaço emocional”, concluiu, fruto de um permanente “estado de alerta”.

Para Patrícia Oliveira, de 38 anos e grávida de 32 semanas, este cenário de ter o bebé afastado de si é o mais difícil de imaginar. Apanhada no epicentro do surto em Portugal, já que trabalha como psicóloga em ambiente escolar em Ovar, concelho que esteve sob um cordão sanitário, a grávida combateu a ansiedade recorrendo à racionalidade – ainda que admita que o facto de não ter tido consultas adiadas pela CUF, onde é seguida, ajudou. No entanto, fala de um “reajustamento contínuo — sexta é uma coisa, segunda-feira já é outra”.

Já Joana Rocha, de 33 anos e grávida da segunda filha, está “pronta para o que tiver de ser”. “A miúda está sentada”, conta, explicando que a manobra manual de tentar inverter a posição foi passada das 37 para as 39 semanas. “Em vez de fazer a análise à covid-19, a manobra e voltar para casa, ficando à espera, optou-se por tentar mudar a posição da bebé mais tarde, às 39 semanas, seguindo depois para indução ou cesariana, dependendo do resultado.”

Já a presença do companheiro também dependerá da evolução do parto. Para já, a indicação que tem, no São João, é a de que o pai só poderá entrar no momento da expulsão. Questionada sobre os motivos apresentados, esta grávida acaba por desabafar: “Deixei de pensar nos porquês a bem da minha sanidade mental.” A única certeza que tem é que o hospital parece querer reduzir “o tempo que se está em ambiente hospitalar ao mínimo”.

A viver a 31.ª semana de gravidez e a lutar pelo direito a ter acompanhante, a psicóloga Carla Sousa refere que, ainda que não haja dados de momento, é vital estar atento à relação entre a vivência da maternidade e a pandemia, criando mecanismos de apoio. “A violência obstétrica não é uma questão nova, mas a pandemia trouxe alguns retrocessos.” Porém, sublinha a importância da forma de olhar para o cenário apresentado de modo a salvaguardar situações de depressão pós-parto. “Mais do que a experiência, é relevante a percepção que se tem dela.”

Uma ideia que Catarina, após ter tido uma indução às 41 semanas e uma reacção nefasta à anestesia (“Primeiro, não pegava; depois, não conseguia levantar-me, com fortes enxaquecas”), cultiva: “Não é a coisa que recorde como a mais bonita, mas tenho esperança de, com o tempo, a conseguir mudar.”

Síndrome inflamatória multissistêmica em crianças e adolescentes associada à COVID-19 (MS)

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis. Coordenação-Geral do Programa Nacional de Imunizações. SEI/MS – 0014893980 – Anexo. Nota de Alerta: Síndrome inflamatória multissistêmica em crianças e adolescentes associada à COVID-19. 22 Mai.2020.

O Ministério da Saúde, por intermédio do Programa Nacional de Imunizações e da Coordenação de Saúde da Criança e Aleitamento Materno, assim como a Sociedade Brasileira de Pediatria, representada neste documento pelos Departamentos Científicos de Infectologia e Reumatologia, e a Sociedade Brasileira de Reumatologia, bem como a Organização Pan Americana de Saúde, reconhecem a necessidade deste alerta à comunidade pediátrica, reforçando a importância do diagnóstico e tratamento precoces.

Publicado originalmente no Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente do IFF-Fiocruz, acesse o original.

Estas 3 mães contam como é driblar o medo e dar à luz no meio de uma pandemia

No parto, a comunicação é pelo olhar. Em casa, as visitas são substituídas por videochamadas. “Minha irmã conheceu a bebê pela janela do carro na saída da maternidade.”

Debora Settani, de 32 anos, apresentou a pequena Graziella aos amigos e familiares pela tela do celular....
Arquivo Pessoal Debora Settani, de 32 anos, apresentou a pequena Graziella aos amigos e familiares pela tela do celular. “Minha irmã, que trabalha na área da saúde, conheceu ela pelo vidro do carro, na saída da maternidade.”

Luciana Fernandes, de 22 anos, descobriu a gravidez em agosto de 2019 e, logo depois, precisou interromper temporariamente um de seus maiores sonhos: trabalhar como atriz em uma grande emissora de TV. “Foi um choque pra mim mas, no final, sempre quis ser mãe e lidei bem com a mudança”, diz a jovem, que mora em São Paulo, mas nasceu em Potiraguá, na Bahia. Com uma gravidez que chegou ao fim, de forma inesperada, com o início da pandemia do novo coronavírus, uma segunda vontade de Luciana foi suprimida: usuária do SUS (Sistema Único de Saúde), ela fez o pré-natal em um hospital público e planejou dar a luz na Casa Angela, um centro de parto humanizado na periferia da Zona Sul da capital.

Na madrugada do dia 29 de março, quando entrou em trabalho de parto veio o revés: a pressão de Luciana subiu e ela precisou ser transferida para uma maternidade. “Minha pressão não estabilizou e eu não consegui dilatar o suficiente. Eu sentia muita dor e fiquei com o coração na mão, pensando: ‘meu Deus, tudo o que a gente programou não está acontecendo’”, lembra.

“O que me deixa muito triste, e que eu ainda não sei lidar muito bem, é não ter muito contato com as pessoas, né? Já é um isolamento social ser mãe.” Luciana Fernandes, 22 anos, atriz e mãe de Amora, de um mês

Devido aos altos índices de contaminação pela covid-19 no País e à crise no sistema de saúde, a experiência do parto hospitalar durante a pandemia para muitas mulheres têm sido acompanhada de frustrações e medo. “Eu fiquei com medo de sofrer violência obstétrica em um lugar que não era o que eu tinha planejado”, diz Luciana. “Quando cheguei à maternidade, me senti em risco. Era um hospital muito maior, com muito mais gente e todos estavam usando máscara e sendo muito cuidadosos com tudo por conta do coronavírus.” Transfe

Luciana Fernandes, de 22 anos, comemora o primeiro mês de Amora ao lado de Thiago, seu
Arquivo Pessoal Luciana Fernandes, de 22 anos, comemora o primeiro mês de Amora ao lado de Thiago, seu companheiro.

Para ela, assim como para muitas outras mulheres no País, o primeiro Dia das Mães vai ser bem diferente do esperado. “Eu tinha imaginado outra coisa. Queria comemorar esse momento junto com a minha mãe, mas sei que assim é o melhor agora. Depois a gente pode aproveitar muito outros momentos.”

“Tenho pavor de colocar o pé fora de casa. A Teresa nem sentiu o calorzinho do sol ainda”. Com o isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus, a fotógrafa brasiliense Tatiana Reis, de 35 anos, tem convivido com o que classificou de “puerpério dentro do puerpério”, nome dado ao período de resguardo da mulher por pelo menos 45 dias após o momento do parto. Em uma experiência semelhante à de Luciana, ela deu a luz à Teresa, sua segunda filha, no dia 24 de março – apenas 19 dias após o primeiro caso de covid-19 ser confirmado na capital federal e dez dias depois do primeiro decreto que oficializou a quarentena no estado.

“Eu queria muito ter mais gente por perto depois do nascimento da Teresa por vários motivos. Mas não está sendo possível”, lamenta. Do meio para o final da gravidez, Tatiana foi diagnosticada com diabetes gestacional, o que a colocou em um quadro de risco e fez com que ela redobrasse os cuidados com a saúde. “Me senti paralisada. Talvez eu tenha escolhido a cesariana justamente por conta dessa minha situação de alto risco na gravidez, pensando também no medo de ser contaminada pelo coronavírus”. Dias depois do nascimento de Teresa, o Ministério da Saúde incluiu, em 13 de abril, gestantes de alto risco, como Tatiana, e puérperas no grupo de risco de complicações da covid-19.

“Eu quero muito contar pra ela ‘menina, te pari no meio de uma pandemia!’ [risos]. Eu tenho mantido um diário e experimentado tirar fotos com o celular. A gente nunca viveu tão junto.” Tatiana Reis, 35 anos, mãe de Teresa, de um 28 dias e Helena, de 3 anos e meio

Na foto acima, Teresa e Helena, filhas da fotógrafa Tatiana Reis - a foto foi tirada por ela em...
Tatiana Reis/Arquivo Pessoal Na foto acima, Teresa e Helena, filhas da fotógrafa Tatiana Reis – a foto foi tirada por ela em um dos momentos de afeto dentro do isolamento social.

Segundo boletim epidemiológico mais recente da pasta, 121 gestantes e puérperas entre 10 e 59 anos foram contaminadas no País – documento não aponta o número de possíveis mortes neste grupo de vulnerabilidade. Todas as mulheres entrevistadas pelo HuffPost Brasil disseram não apresentar nenhum sintoma da covid-19. Nesta semana, o número de mortes causadas pela doença no Brasil passou de 10 mil, segundo dados divulgados pelo MS, o que representa mais que o dobro do total registrado na China (4.637). Estes dados reforçam o agravamento da crise sanitária no País.

Mesmo antes do agravamento da crise, dentro da clínica em que Tatiana fazia as consultas com seu médico, foi feito um esquema para que as gestantes não se encontrassem nos corredores e todos os funcionários, segundo ela, já usavam máscaras para evitar contaminação. “Ao mesmo tempo que havia cuidado, naquele momento já havia muita tensão no ar”, lembra.

Ao chegar na maternidade, foi realizada uma triagem incomum. “Eles mediram a minha temperatura, e perguntaram se eu tive sintomas ou contato com alguém que teve. Eu não pude trocar de acompanhante e também não pude receber visitas”, conta. De volta para casa, a única rede de apoio de Tatiana, para cuidar da recém-nascida e de Helena, de 3 anos, tem sido parcialmente seu companheiro – que está trabalhando de casa -, sua irmã e algumas amigas que, eventualmente, ajudam levando compras do dia a dia para evitar exposição.

“Eu moro em um apartamento muito pequeno. E só saí de casa uma vez depois do parto para levar a Teresa ao médico com a minha irmã. Eu levei ela no sling ‘escondidinha’, com muitas camadas de tecido”, lembra. “Essa coisa que é a celebração de um nascimento de uma criança, que demanda dessa aproximação da família e dos amigos, está me fazendo muita falta. As avós não conhecem a Teresa, o abraço, o calor faz muita falta”, diz.

Isolada e sem rede de apoio como o planejado, Tatiana têm tentado contornar a rotina de cuidados no distanciamento devido à pandemia e construir uma lembrança para as filhas. Teresa, ela conta, nasceu no dia do aniversário de seu pai, que morreu há poucos meses. “Ela ter nascido foi um marco pra mim nesse sentido. Eu quero muito contar pra ela ‘menina, te pari no meio de uma pandemia! [risos] E você nasceu em um dia cheio de significado’. Eu tenho mantido um diário e experimentado tirar fotos com o celular. A gente nunca viveu tão junto. Eu falo muito do medo porque o confinamento está mexendo muito comigo. Mas a gente vai tentando sobreviver nos encontros de delicadeza, de doçura. Acho que encontrei uma força nesse registro doméstico”. E, claro, na primeira oportunidade, levará Teresa para conhecer e sentir na pele a luz do sol.

Tatiana Reis/Arquivo Pessoal “Ela ter nascido foi um marco pra mim nesse sentido. Eu quero muito contar pra ela ‘menina, te pari no meio de uma pandemia!”, diz Tatiana Reis.

 

Para a produtora Debora Settani, de 32 anos, moradora da cidade de Itu, no interior de São Paulo, as videochamadas com parentes e amigos substituíram quase que de imediato as tradicionais visitas às mães e aos recém-nascidos tanto em casa, quanto na maternidade. “A gente tem fotos que são prints da tela do celular que são eu com a minha bebê e os familiares”, conta.

Debora havia planejado o nascimento em uma maternidade particular de São Paulo e conseguiu que todo o seu plano de parto fosse mantido. Graziela nasceu há duas semanas, no dia 25 de abril, em um momento em que o aumento de casos da covid-19 exigiu mais rigidez na quarentena. Porém, ela foi acompanhada tanto pela doula, quanto por seu marido – que conseguiu autorização não só para participar, mas para tirar fotos e filmar o nascimento da filha. Por causa da pandemia, essa orientação varia de acordo com a instituição de saúde, sendo ela particular ou pública.

“Todos os profissionais e os acompanhantes estavam de máscara e super paramentados. Pude escolher se eu queria ficar com a máscara ou não e, por ter optado pelo parto normal, decidi que ficaria sem. Eu me senti segura e confortável”, diz.

“Eu pensava: ‘será que eu espero? Será que isso vai ser bom, ou será que eu estou arriscando pegar a doença e não ter saúde para ter o parto? Será que tudo o que eu planejei vai acontecer?’.” Debora Settani, 32 anos, mãe de Graziella, com 16 dias de idade.

Debora lembra que o mais estranho do momento foi não poder ver o sorriso das pessoas, em especial, de seu companheiro, quando Graziella nasceu, justamente pelo uso dos equipamentos de proteção individual (EPIs). “Mas, ao mesmo tempo, a comunicação ficou mais forte pelo olhar. O olhar é muito potente, né? Foi muito intensa a forma como a gente encontrou de se comunicar não só pela fala dentro da sala de parto.”

A bebê foi direto para o colo da mãe assim que nasceu e ficou o tempo todo no quarto com ela. Enfermeiras apenas vinham para dar banho ou levá-la para fazer exames e dar as vacinas necessárias, por exemplo. O distanciamento também no berçário foi uma medida de precaução que tem sido adotada por maternidades em todo o País.

No momento do parto, Debora escolheu ficar sem a máscara de proteção.
Arquivo Pessoal No momento do parto, Debora escolheu ficar sem a máscara de proteção. “Mas, ao mesmo tempo, a comunicação ficou mais forte pelo olhar. O olhar é muito potente, né?”

“Ela ficou direto no quarto comigo e eu nem pude caminhar no corredor do hospital, como costumava ser recomendado. Eu andava ao redor da minha cama. De lá, apresentei ela pra amigos e família pelo celular. Eu combinei com a minha irmã, que é profissional da saúde e não pode deixar de trabalhar, de conhecer a sobrinha pelo vidro do carro na saída da maternidade. E foi assim, agora ela está esperando pra pegar a Graziela no colo quando for possível.”

Também hora de ir embora para casa, as lembrancinhas que seriam para as visitas – que foram feitas virtualmente e à distância -, ganharam novos donos. “Eu dei as lembrancinhas para as enfermeiras, que ficaram felizes, mas um pouco espantadas. E eu disse ‘é claro, vocês são a única visita que eu tenho!’ [risos]”. Chegando em Itu, não pode dar um abraço em sua mãe. Apenas deixou Graziela com o pai e correu para o banho. A mãe, nesse momento, junto com seu companheiro – que está trabalhando de casa – tem sido sua rede de apoio. “Eu jamais imaginaria que ela ia nascer praticamente no meio do pico da pandemia, e eu espero poder contar pra ela que foi difícil, mas que passou e que foi menos pior do que a gente achou que poderia ser”, diz.

Como eu vivi a quarentena no último mês de gestação, parece que eu já fiz um estágio para o puerpério.”

A produtora reconhece que, no contexto atual, foi privilegiada – mas que não deixou de sentir algo comum às gestantes diante da covid-19: medo e insegurança. “Eu tive medo, sim, chegando perto da hora do parto, pensando na pandemia, principalmente. Como a minha intenção era ter o parto normal, de 38 a 41 semanas, eu fiquei com muita dúvida. Eu pensava: ‘será que eu espero? Será que isso vai ser bom, ou será que eu estou arriscando pegar a doença e não ter saúde para ter o parto? Será que tudo o que eu planejei vai acontecer?’ Eu antecipei apenas alguns dias e correu tudo como o planejado.”

No dia em que conversou com o HuffPost, Debora estava se preparando para sair de casa pela primeira vez em duas semanas. O motivo? A ida ao médico com a bebê, em São Paulo. “Como eu vivi a quarentena no último mês de gestação, parece que eu já fiz um estágio para o puerpério. É angustiante, sim, você não poder sair, não ter rede de apoio e não poder fazer tudo o que imaginou. Mas se eu puder falar algo para outras mulheres no mesmo contexto que o meu, é que podemos tentar usar esse momento para criar conexão. É o que tenho tentado fazer.”

Estudo identifica lesões na placenta de grávidas diagnosticadas com Covid-19

Nascimentos não foram afetados, mas descoberta dos pesquisadores sugerem alterações no fluxo sanguíneo entre as mães e feto.

Do G1

Imagem de arquivo mostra mulher grávida: pesquisa dos EUA mostra relação entre Covid-19 e lesões na placenta — Foto: Pixabay
Imagem de arquivo mostra mulher grávida: pesquisa dos EUA mostra relação entre Covid-19 e lesões na placenta — Foto: Pixabay

Pesquisadores norte-americanos identificaram lesões na placenta de 16 grávidas diagnosticadas com Covid-19. Um artigo publicado nesta sexta-feira (22) pela revista “American Journal of Clinical Pathology” não apontou riscos para o feto, mas alertou para alterações na função do órgão.

A placenta é o primeiro órgão a se formar no desenvolvimento fetal e tem funções análogas às dos pulmões, intestinos, rins e fígado. É a partir dela que o feto absorve oxigênio e nutrientes da corrente sanguínea da mãe.

“A maioria dos bebês nasceram sem nenhuma complicação, após gestações normais”, disse em nota Jeffrey Goldstein, professor da Northwestern University e um dos autores do estudo. “[a lesão] Não pareceu induzir resultados negativos nos nascimentos, com base em nossos dados que são limitados.”

O tipo de lesão observada mostrou um fluxo anormal no sangue entre as mães e fetos, o que sugere, segundo os especialistas, uma nova complicação da Covid-19. Os cientistas defenderam que a descoberta serve de alerta para que grávidas sejam monitoradas clinicamente durante a pandemia.

Acompanhar de perto

Para a professora de obstetrícia Emily Miller, co-autora do estudo, o monitoramento das grávidas tem que ser reforçado para garantir que os fetos se desenvolvam de maneira saudável.

“Não quero desenhar um cenário assustador, mas essas descobertas me preocupam”, disse Miller em um comunicado. “Saber que a Covid-19 pode causar alterações na placenta traz algumas implicações bastante significativas para a saúde de uma gravidez.”

Ela defende que o monitoramento seja feito a partir de testes “não-estressantes”, que consigam examinar a oxigenação da placenta e acompanhar o crescimento dos bebês em “uma taxa saudável”.

Sem transmissão vertical

Até o momento não há registro de transmissão da Covid-19 entre mães grávidas e seus bebês. Um artigo publicado na revista “Frontiers in Pediatrics”, trouxe a análise de quatro mães que estavam infectadas pelo vírus e que deram à luz em um hospital de Wuhan, cidade chinesa que foi o primeiro epicentro da doença.

De acordo com o artigo dos pesquisadores, nenhum dos bebês desenvolveu os sintomas da Covid-19, como febre ou tosse, embora eles tenham sido isolados em unidades de terapia intensiva e tenham sido alimentados com fórmula. Três dos quatro recém-nascidos fizeram o teste para o coronavírus e o resultado foi negativo. Uma das mães não autorizou que o exame fosse feito.

Oedipus and the Coronavirus Pandemic

Oedipus and the Coronavirus Pandemic (acesse o original)

JAMA. Published online May 21, 2020. doi:10.1001/jama.2020.8594

Last week I faced the task of telling brand-new parents that their 2-lb premature son needed emergency surgery. The conversation was all the more difficult because, surgery or no surgery, odds were he would die. They agreed to the procedure with one request: that we allow his grandparents and uncles the chance to meet him first. They didn’t want their son to die alone.

Ordinarily, I could facilitate such a reasonable request. Even in normal times, the hospital isolates patients from home, family, and community, so this seemed like a small sliver of grace. Yet even this was now precluded; in response to the ongoing pandemic, our hospital has instituted a necessarily stringent visitor policy.

The most inflexible policies are reserved for the COVID-19 unit, which only allows one parent, clothed in gown, gloves, mask, and goggles, to stay per sick child. This parent cannot leave the hospital room until the child is discharged. Knowing they too will likely get infected, parents choose to enter in so their child does not suffer alone.

The isolation we have experienced during the current pandemic has refocused our attention on the tendency of modern medicine to isolate individual patients. There lies a strict barrier, for example, between my operating room and the world outside. Only a select few are permitted to enter. And patients are often left alone in our ICUs, lulled by the rumbling of machines while in a semiconscious state. Pandemic-era policies have simply intensified the isolation that has already established itself as routine in medicine: we isolate the sick to make them well.

To be sure, in our current moment, the isolation and physical distancing so many endure are an acute necessity. But these severe measures should impassion us to lessen the isolation of those we care for once the pandemic is behind us. As we look forward, can we reimagine communal health, the practice of medicine, and the more subtle ways our systems and procedures might change?

Before the current pandemic, poet-farmer and cultural critic Wendell Berry reflected on the isolating effects of medicine in the wake of his brother’s massive heart attack. John, Berry’s brother, required emergency surgery and lengthy intensive care, which necessarily removed him from his daily life and community. During his hospitalization, Berry recalls, “the world of specialization, machinery, and abstract procedure” seemed incompatible with the world John came from—the world of love—embodied in the family, friends, and neighbors who gathered at his bedside. This community attempted to preserve John’s connection to the outside world and more importantly, to his humanity. Despite medicine’s seemingly necessary focus on the individual patient, Berry claims that community is “the smallest unit of health and that to speak of the health of an isolated individual is a contradiction in terms.”1

Our current scenario and the isolation it requires contains haunting echoes of Oedipus’ Thebes when it was ravaged by plague. In the opening scene of the classic Greek tragedy Oedipus Rex, the contagion’s effects are evident as the streets lie empty, children are ripped from their parents, and citizens from their polis. A priest laments:

A blight is on the fruitful plants of the earth,
a blight is on the cattle in the fields,
a blight is on our women that no children
are born to them; a god that carries fire,
a deadly pestilence, is on our town,
strikes us and spares not, and the house of Cadmus
is emptied of its people while black Death
grows rich in groaning and in lamentation.”2
Eugene-Ernest Hillemacher (1818-1887), Oedipus and Antigone Exiled From Thebes, circa 1843, French. Oil on canvas.
Eugene-Ernest Hillemacher (1818-1887), Oedipus and Antigone Exiled From Thebes, circa 1843, French. Oil on canvas. Musée des Beaux-Arts, Orleans, France. Bridgeman Images.

As the play continues, we learn that the pestilence is divine retribution for the murder of the late King Laius and that only by finding and banishing the one guilty of his murder will Thebes be saved from calamity. So the city turns to its new king Oedipus, a wise leader beloved by all who was crowned after his wit and intelligence earlier saved Thebes from the deadly Sphinx by solving her riddle.

It is to Oedipus’ (and our) shock and horror that he discovers he killed his father. Apollo’s oracle had prophesied Laius’ murder at Oedipus’ birth. Attempting to defy the prophecy, Laius leaves Oedipus to die on a hillside. The child is rescued and raised in Corinth and, learning of the prophecy when he comes of age, flees. During this flight Oedipus meets Laius at a crossroad and is forced off the path. Enraged, he kills the old man not knowing him to be both his father and king. Oedipus also unknowingly takes his mother Jocasta as his wife—a reward for freeing Thebes from the Sphinx. The climax of the tragedy is Oedipus’ recognition of these transgressions, and that his greatest strength—his proverbial sight, his wit and wisdom—are the source of plague on the entire city of Thebes. So humbled, he pierces his eyes that he might not ever deceive himself or harm others again and leaves the city in order to redeem it, sightless and never to return.

The story in Oedipus Rex sheds light on our current reality, accentuating some of the moral problems of modern medicine beyond the question of ventilator rationing.

What the polis finally relies on for its salvation—Oedipus himself, seemingly the greatest of its mortal hopes—is found to be the cause of its own demise. Likewise, medicine, at the same time that it brings much healing, becomes the means of patients’ isolation and intensifies the antimembership of our procedures, inadvertently in normal times, by design during this pandemic.

The plague of Thebes also speaks to the communal nature of suffering. Despite the modern fixation on “individualized medicine,” the current pandemic reveals radical individualism as a facade. We are social animals. A physician in New York recently told me, “The worst part about COVID-19 is that patients die alone, without their families by their sides.” Experts recognize that the isolation experienced by mandated physical distancing is having serious mental health consequences.3

As a genre, tragedy aims to teach citizens how to bear and respond to suffering, how and when it is proper to feel pity and fear. The original Athenian audience watching the play would have recognized that if this could happen to Oedipus, “whom all men call the Great,” the same could happen to them.2 Tragedy instructs us to accept the limits of our existence. The coronavirus is a reminder of our vulnerability and our finitude. Oedipus, despite his wit and intelligence, could not save his family or city from suffering and death. Similarly, medicine, despite its remarkable technological advances, ultimately cannot save us from the same.

Yet even in suffering there is hope. Although Oedipus leaves Thebes, he does not leave alone. Neither does he suffer alone. In Sophocles’ late play Oedipus at Colonus, he is attended by his daughters. No easy task, Antigone and Ismene suffer alongside the old blind man. Because he has not been completely isolated, his suffering can be shared and informed by love. A messenger recounts the deathbed encounter between Oedipus and his daughters:

Then the earth groaned with thunder from the god below;
and as they heard the sound, the girls shuddered
and dropped to their father’s knee, and began wailing,
beating their breasts and weeping, as if heartbroken.
And hearing them cry out so bitterly
he put his arms around them, and said to them:
“Children, this day your father is gone from you.
All that was mine is gone. You shall no longer
bear the burden of taking care of me—
I know it was hard, my children. And yet one word
frees us of all the weight and pain of life:
that word is love.”4

In my job, I feel defeated by death almost daily amidst the seemingly endless buzz of machines and procedures. Yet, as Berry reminds us, “the world of love includes death, suffers it, and triumphs over it…the world of love continues, and of this grief is the proof.”1 Perhaps one way to prevent medicine from becoming the enemy of its own kindred, as Oedipus inadvertently was to Thebes, is to ensure that love, which wills the good of the other, is present—even in a pandemic, even when supplies are short. Medicine is at its finest when it restores individual patients to the world of love. Seen from this perspective, the work of medicine itself can be an act of love.

 

And so I bring my patient back from the operating room to his expectant parents, grandparents, and uncles, back from the world of isolation, machines, and abstraction, into the world of love.

Article Information

Corresponding Author: Ryan M. Antiel, MD, MSME, Division of Pediatric Surgery, Department of Surgery, Washington University School of Medicine, One Children’s Place, St Louis, MO 63110 (ryan.antiel@wustl.edu).

Published Online: May 21, 2020. doi:10.1001/jama.2020.8594

Conflict of Interest Disclosures: None reported.

References

1.

Berry  W.  Another Turn of the Crank: Essays. Counterpoint; 1995.

2.

Sophocles. Oedipus the King. In: Grene  D, Lattimore  R, Griffith  M, Most  GW, trans, eds.  Sophocles I. 3rd ed. University of Chicago Press; 1991:73-142.

3.

Galea  S, Merchant  RM, Lurie  N.  The mental health consequences of COVID-19 and physical distancing: the need for prevention and early intervention.   JAMA Intern Med. Published online April 10, 2020. doi:10.1001/jamainternmed.2020.1562
ArticlePubMedGoogle Scholar

4.

Sophocles. Oedipus at Colonus. In: Grene  D, Lattimore  R, Griffith  M, Most  GW, trans, eds.  Sophocles I. 3rd ed. University of Chicago Press; 1991:145-224.