Saúde da População Negra, Doença Falciforme e a Pandemia: Fatores de Risco e Vulnerabilidades Sociorraciais

Do Jornal Roteiro de Notícias

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Originária da África, a doença falciforme é uma mutação genética, que se espalhou pelo mundo com o deslocamento forçado da população negra escravizada. Foto: Marcello Casal Jr/ Arquivo Agência Brasil

A pandemia da Covid-19, longe de ser “democrática”, trouxe como consequência imediata para cerca de 54% da população brasileira autodeclarada preta e parda um aumento dos fatores de risco ligados às suas condições de vida e ao racismo estrutural.

Um dos agravos mais severos que incide em grupos vulneráveis com ancestralidade africana em todo o país é a doença falciforme (Hb SS). A doença decorre de uma alteração da hemoglobina que resulta em inúmeras manifestações clínicas graves que podem ter consequências ao longo de toda a vida dos indivíduos.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, 3.500 crianças nascem com doença falciforme no Brasil anualmente. Segundo a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, estima-se que no Brasil haja 70.000 pessoas com anemia falciforme.

Devido à relação microevolutiva da doença estar associada à endemia de malária no continente Africano e Árabe-Indiano, com o advento da Diáspora Africana (tráfico de pessoas escravizadas) desde o século XVI, o fenótipo de indivíduos com a doença no Brasil é majoritariamente de grupos autodeclarados pretos ou pardos, acometendo pessoas brancas em menor número, dependendo da frequência filogenética de cada região (Naoum 2011).

No entanto, quem tem doença falciforme e as suas variantes como a Hb SF, a Hb SC e outras alterações genéticas combinadas é triplamente vulnerável quando exposto ao Coronavírus (Sars-CoV-2): primeiramente pela própria comorbidade da doença, que é crônico-degenerativa, acometendo os glóbulos vermelhos que, sem a oxigenação adequada, podem causar situações de crises falcêmicas, ocasionando diversos sintomas como: febre, infecções, dores generalizadas pelo corpo, imunossupressão, acidente vascular cerebral, icterícia, problemas pulmonares, síndrome torácica aguda etc., podendo evoluir à óbito, sendo que muitos dos sintomas e órgãos envolvidos também estão relacionados à Covid-19, potencializando o risco de morte para as pessoas afetadas.

Um segundo fator de preocupação é que a população majoritariamente afetada por esta hemoglobinopatia genética está entre os grupos mais vulneráveis economicamente e que enfrentam dificuldades no diagnóstico e complicações no acompanhamento e tratamento da doença, que apesar de gratuito pelo SUS, não é fácil nem barato, devido à necessidade de internações hospitalares e de busca por atendimento de urgência e emergência que a doença exige com frequência, efeitos que se conectam através dos Determinantes Sociais em Saúde (DSS) aos índices de emprego, renda, educação e acesso à saúde que são menores em relação aos brancos, chegando a 44% no que diz respeito à diferença salarial, usando apenas a categoria econômica em termos comparativos (IBGE, 2019).

Considerando que os leitos e vagas nos hospitais públicos e privados estão beirando a falência na maioria das capitais e outros municípios do país, dificultando ainda mais a acessibilidade e o acolhimento diferenciado, as pessoas com doença falciforme têm sido enquadradas como grupo de risco (Hemominas, 2020).

O terceiro aspecto está relacionado ao Quesito Raça/Cor. Embora esse seja um indicador oficial do IBGE (2017) em relação à diversidade sociorracial brasileira e haja provisão legal para sua utilização no âmbito dos serviços de saúde (Portaria 344 de 01/02/2017 do Ministério da Saúde), até fevereiro não constava nos registros oficiais da pandemia da Covid-19 esse campo ou a obrigatoriedade do seu preenchimento e ainda em abril os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde não eram desagregados segundo raça/cor.

Mesmo depois da obrigatoriedade, permanece a subnotificação, uma vez que para muitos profissionais de saúde este dado não é considerado relevante.

Coronavirus (getty Images)
Pessoas negras e pardas somam 54,8% das mortes por covid-19 registradas no Brasil de acordo com o site UOL. Foto: Reprodução/Getty Images

No entanto, o retrato da pandemia nos EUA deixou claro o impacto do racismo na saúde uma vez que, embora os negros componham a minoria da população norte-americana (cerca de 30%), são proporcionalmente a maioria dos mortos pela SARS-Cov-2 (cerca de 70%).

No Brasil, os impactos do racismo na saúde, embora reconhecidos, ainda tem recebido pouca atenção (Cunha, 2013). É fato que ser preto ou pardo aqui aumenta substancialmente seu risco de morte, em especial, no caso da população diagnosticada com doença falciforme e/ou demais doenças crônicas, como: hipertensão arterial, diabetes, enfermidades coronarianas e renais, que ocorrem com alta prevalência na população negra.

A quantidade de mortos pretos e pardos com Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) quintuplicou no Brasil somente no mês de abril, como indica o site da FIOCRUZ (RJ), um índice alarmante, sendo que as mortes por Covid-19 são subnotificadas em todos os estados e há enorme necessidade de testagem em toda a população brasileira, para que os índices epidemiológicos e de risco de contaminação sejam adequadamente regulados e notificados.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, criada em 2007 como Política de Ação Afirmativa da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, ainda é uma realidade distante na maioria dos estados e municípios, em especial, no estado do Pará, no qual nunca foi implantada, ainda que, segundo o censo de 2010, o Pará tenha 76,5% da população autodeclarada preta e parda.

Como há sub registro no estado, não se sabe exatamente como esta população se reflete no número de contágios pela Covid-19, nos índices de óbitos domiciliares, notificados como causas desconhecidas ou naturais, porque os testes de confirmação são praticamente inexistentes em todo o estado, sendo aplicados quase que exclusivamente em pacientes hospitalizados ou em profissionais de saúde sintomáticos.

A carência de exames em larga escala no estado gera outro agravante, pois não apenas os grupos citados precisam de controle epidemiológico, como também o restante da população, com ou sem sintomas, para que possamos ter noção da abrangência da pandemia no Pará, incluindo-se igualmente as populações mais vulneráveis, como: as comunidades quilombolas, ribeirinhas, rurais e os povos indígenas, que para as quais as ações governamentais ainda tem sido tímidas ou nulas.

O Atlas da Violência Urbana publicado em 2018, mostrou que 71,5% da população assassinada no Brasil é negra, principalmente nas Regiões Nordeste e Norte, contudo, o caso mais recente que ocorreu no Rio de Janeiro (RJ), do adolescente João Pedro (14 anos), que foi fuzilado dentro de casa pela polícia carioca ou os diversos episódios de chacinas ocorridas nos bairros considerados de linha vermelha da violência na capital paraense nos últimos anos, demonstram que a Covid-19 não é a única preocupação endêmica quando nos referimos à Saúde da População Negra, pois as diversas formas de racismo (pessoal, institucional, estatal e estrutural) também colaboram para o aumento desses índices diariamente, tornando a cor da pele um fator de profundo risco não apenas à saúde, mas ao que se refere à construção de uma cidadania plena, de fato e de direito, que ainda não chegou nas favelas, nas comunidades, nas baixadas e nas áreas periféricas da sociedade brasileira, condições de desumanização que precisam ser resolvidas urgentemente.

Prof. Dr. Hilton P. Silva/Co-autor

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA/UFPA; Docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Sociedade na Amazônia – PPGSAS; Coordenador do Laboratório de Estudos Bioantropológicos em Saúde e Ambiente – LEBIOS, Belém, Pará.

 

Como estão (todas) as crianças do Brasil durante a pandemia?

Do Lunetas

Crianças que vivem em situação de rua, que dependem da alimentação escolar ou que sofrem agressões em casa são as mais invisibilizadas pelo noticiário

Resumo

Viviana Santiago reflete como a mídia não retrata todas as crianças que estão vivendo a pandemia no Brasil. Crianças em situação de rua, que dependem da alimentação da escola ou aquelas que sofrem violência em casa são as mais afetadas pela pandemia.

Desde a chegada da pandemia da Covid-19 e o início das medidas de isolamento social adotadas para barrar o avanço do novo coronavírus, os noticiários têm se dedicado à essa cobertura. Em quase todos, uma reportagem já ficou comum: mostrar a vida das crianças na pandemia.

Essas reportagens me dão a sensação de que não vejo todas as crianças refletidas ali. Hoje, percebi o porquê. A maioria mostra crianças que partilham alguns marcadores sociais: são brancas, de classe média, trancadas em seus apartamentos com suas mães e seus pais que fazem home office e enfrentam dificuldade em conciliar trabalho, cuidados com a casa,  atenção e afeto, além de terem assumido a responsabilidade de liderar a escolarização. É um desafio enorme para os pais, mas também para as crianças que, de um momento para o outro, perderam tantos aspectos estruturantes de suas vidas.

Então, me pergunto: como vivem todas as crianças, aquelas outras sobre as quais não se produzem reportagens, mas sabemos que existem? Será que o maior desafio que estas crianças lidam é tentar jogar futebol na sala de um apartamento?

De acordo com pesquisa realizada pelo Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda), existem mais de cem mil brasileiros em situação de rua. Dessas, cerca de 23 mil são crianças e adolescentes, sendo que 23% dormem em calçadas, viadutos, praças e rodoviárias; 2,9% dormem temporariamente em instituições de acolhimento; e 14,8% circulam entre esses espaços.

Se as reportagens falam de ‘ter que ficar em casa’, existem crianças que não têm casa.

A mídia aponta os problemas das famílias em acompanhar tarefas escolares on-line, sendo que 38,9% das crianças entre seis e 11 anos que estão em situação de rua não frequentam a escola – este índice aumenta para 58,9%, na faixa etária de 12 a 17 anos. Por que não sabemos como essas meninas e meninos estão vivendo a pandemia?

Além de discutir o cotidiano de mães e pais em situação de home office e a maneira como isso impacta a relação familiar, devemos falar também das mais de 58 milhões de pessoas que perderam metade ou mais de suas rendas e dos 32 milhões de trabalhadores que podem ficar sem renda e sem o auxílio emergencial durante a pandemia. Com a suspensão das aulas e perda financeira das famílias, as crianças e adolescentes que dependiam quase que exclusivamente da alimentação escolar hoje passam fome.

Quem tem casa e comida ainda corre riscos. Nem sempre a casa é um lugar protetor.

A cada quatro horas uma menina com menos de 13 anos sofre violência sexual no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Todos os dias, são notificadas, em média, 233 agressões físicas, psicológicas e tortura contra crianças e adolescentes de até 19 anos – boa parte tem como autores pessoas do círculo familiar e de convivência das vítimas.

É preciso mudar a perspectiva: disputar essa narrativa homogênea que quer nos fazer acreditar que existe uma infância única. As enfermidades não são instituições democráticas, elas afetam de maneira diferenciada porque já existe um contexto de desigualdade implantado. Se analisarmos questões de raça, classe e gênero, sabemos que a população pobre, negra, mulheres e meninas são os grupos em situação de maior vulnerabilidade no Brasil. Crianças nas periferias e nas regiões mais pobres estão com fome e pedindo comida. Penso nas crianças imigrantes e refugiadas cujas famílias vivem em extrema pobreza e enfrentam a xenofobia de quem acredita que aqui não é seu lugar, com risco do trabalho infantil e da exploração sexual.

Cada criança conta. Toda criança conta. Não se trata de estabelecer uma competição para ver quem sofre mais, mas dizer que nenhuma criança deve sofrer. Todas as crianças merecem viver bem e têm o direito de viver livre de violências.

Mudar a narrativa sobre a situação dessas crianças é nomear as questões. O que não pode ser nomeado também não pode ser enfrentado. Nomear é o primeiro passo para gerar sensibilização social, impactar as respostas à pandemia e de fato fazer com que Estado, família e sociedade possam reposicionar as crianças num lugar onde muitas nunca estiveram, e do qual outras recentemente foram retiradas: o lugar deprioridade absoluta.

Viviana Santiago

Viviana Santiago

Viviana Santiago é educadora, nordestina, mãe de João Marcos e gerente de gênero e incidência política da Plan International Brasil.

Gravidez, nascimento e a pandemia de COVID-19 nos Estados Unidos

Acesse o original (em inglês)

Pregnancy, Birth and the COVID-19 Pandemic in the United States

Published online: 14 May 2020

How quickly and in what ways are US maternity care practices changing due to the COVID-19 pandemic? Our data indicate that partners and doulas are being excluded from birthing rooms leaving mothers unsupported, while providers face lack of protective equipment and unclear guidelines. We investigate rapidly shifting protocols for in- and out-of-hospital births and the decision making behind them. We ask, will COVID-19 cause women, families, and providers to look at birthing in a different light? And will this pandemic offer a testing ground for future policy changes to generate effective maternity care amidst pandemics and other types of disasters?