Quatro razões pelas quais o passaporte sorológico não é justo nem eficaz

Sociedades médicas, a OMS e especialistas em bioética rejeitam propostas para a criação de qualquer espécie de cartão que identifique pessoas que tiveram a doença

Do El País

Viajantes com máscaras protetoras aguardam seu voo no aeroporto de Barcelona.
Viajantes com máscaras protetoras aguardam seu voo no aeroporto de Barcelona. ENRIC FONTCUBERTA / EFE

Quando começou o confinamento em massa no mundo devido ao novo coronavírus, alguns especialistas e determinados Governos especularam com a ideia de estabelecer um passaporte sorológico, um documento que permitisse saber quem estava imunizado contra a covid-19 para que não tivesse de continuar submetido à quarentena e ajudasse a reativar a economia. A ideia, no entanto, foi descartada quando, com o passar do tempo, persistiam as incógnitas sobre a resposta imunológica ao SARS-CoV-2: não está claro quanto dura, se os anticorpos são um sinal adequado de sua presença ou se é possível se reinfectar depois de ter se curado da doença.

Pouco a pouco foram sendo acrescentadas mais restrições a essa medida, jurídicas e éticas, e tanto os especialistas quanto várias sociedades científicas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e alguns países que consideraram a opção, como Alemanha e Reino Unido, a rejeitaram. A presidenta da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, desenterrou a ideia na terça-feira. Propôs um projeto-piloto de uma cartilha covid-19 para a criação de uma espécie de cartão de saúde, que identifique pessoas que já tiveram a doença. “Com este cartão será muito mais fácil ter acesso a academias, museus e espaços fechados”, argumentou. É difícil encontrar algum especialista em saúde pública, imunologia ou bioética que não rejeite completamente a medida.

A revista Nature publicou em maio um artigo com 10 razões para recusar o passaporte imunológico. Depois de consultar vários especialistas que concordam com esses argumentos, eles podem ser agrupados em quatro.

Desconhecimento da imunidade

“A respeito da imunidade gerada pelo coronavírus, tudo ainda está por saber”, reconheceu a este jornal Marcos López Hoyos, presidente da Sociedade Espanhola de Imunologia (SEI), no início de julho. Não está claro se todos os que passam pela doença geram anticorpos, se sua presença indica imunidade ou sua ausência indica a falta dela. Além disso, como lembra Ildefonso Hernández, porta-voz da Sociedade Espanhola de Saúde Pública (Sespas), na pesquisa sobre soroprevalência realizada pelo Instituto de Saúde Carlos III, 14% das pessoas que geraram defesas as perderam após dois meses. “É mais um argumento para não tomar medidas com base nos anticorpos que as pessoas tiverem”, diz. Também não se sabe se existe a possibilidade de reinfecção. Houve casos de pessoas que, depois de dar negativo em um teste de PCR, voltaram a dar positivo. Não está claro se isso foi uma reinfecção ou tem mais a ver com o fato de não terem eliminado o vírus e o teste ter falhado. Em resumo: atualmente é impossível saber se uma pessoa está protegida contra o coronavírus. Esse argumento é, por si só, suficiente para que os especialistas consultados rejeitem algo semelhante a uma cartilha covid-19. Mas há outros.

Testes com erros e insuficientes

Mesmo partindo da hipótese de que todo aquele que tem anticorpos contra o coronavírus está protegido (e quem não os tem, não), os testes para medi-los não são totalmente confiáveis. Dão tanto falsos negativos quanto, o que é mais perigoso, falsos positivos, que podem fazer uma pessoa acreditar que está imune quando na realidade continua sendo suscetível a contrair a doença. “As consequências podem ser bastante graves”, diz Pedro Gullón, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia. “E com que critérios seriam feitos? A cada 15 dias para todos os madrilenhos? Ou só para quem puder pagar por eles em um laboratório particular? Isso seria duplamente discriminatório”, reflete o epidemiologista.

Problemas legais e discriminação

Josefa Cantero Martínez, professora de Direito Administrativo e presidenta da Sespas em Castilla-La Mancha, acredita que um certificado desse tipo tem um encaixe legal complicado que pode até se chocar com os preceitos constitucionais. “Estabelecer regimes jurídicos diferentes em virtude de um dado de saúde tem problemas de discriminação, de proteção de dados, se choca com a liberdade de circulação e com o direito à privacidade, porque você teria de se identificar para ir ao cinema ou à academia, apresentar sua cartilha e dar a conhecer ao funcionário que você passou pela doença”, argumenta. Itziar de Lecuona, doutora em direito e especialista em bioética, concorda: “É uma medida estigmatizante e discriminatória que rotula as pessoas de acordo com seu estado de saúde; não respeita os direitos fundamentais à privacidade e é contra as leis europeias de proteção de dados”. A especialista vê o agravante que a digitalização desses dados poderia abrir a porta para combiná-los com outras informações da pessoa e que fossem levados em conta para outros fins que não os inicialmente propostos.

Incentivo para contrair a doença

“Se o acesso a certas liberdades sociais e econômicas for dado apenas às pessoas que se recuperaram da covid-19, os passaportes de imunidade poderiam incentivar as pessoas saudáveis e não imunes a procurar infecções intencionalmente, colocando-se a si mesmas e a outras pessoas em risco”, dizem as especialistas em bioética Natalie Kofler e Françoise Baylis em um artigo publicado pela Nature. “Estamos vendo que alguns jovens têm pouca percepção do risco representado pelo coronavírus. Se passar pela doença lhes permite, por exemplo, sair à noite, estaríamos incentivando as festas covid”, acrescenta Gullón. Hernández também acredita que é possível entrar em um terreno perigoso no âmbito trabalhista se as empresas começarem a solicitar esse passaporte para a contratação: “Um idoso certamente não se arriscaria, mas uma pessoa com idade entre 20 e 30 anos, tendo em vista os problemas que haverá para encontrar trabalho, é provável que procurasse passar pela doença”.

Uma rede para amparar os que batalham contra o coronavírus

Psicólogos atendem gratuitamente profissionais de saúde da linha de frente. “Atendi uma fonoaudióloga que viu o chefe morrer, ela sentia uma impotência muito grande”

Do El País

Profissional da saúde em uma unidade de pronto atendimento de Fortaleza.
Profissional da saúde em uma unidade de pronto atendimento de Fortaleza. MATEUS DANTAS

A psicóloga Ana Lúcia Castelo, de 62 anos, está surpresa com a rapidez com que profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus apresentaram sintomas de estresse pós-traumático. Já tem 12 anos que ela atua em programas de ajuda humanitária num contexto de grandes traumas ―os mais recentes deles foram o desastre de Brumadinho e o atentado de Suzano― e há meses ela atende voluntariamente a médicos, enfermeiros e técnicos que todos os dias enfrentam a face mais dura da pandemia enquanto se desdobram para salvar o máximo de vidas. Desde então, ouve relatos de crises de choro, dificuldade para dormir e sentimento de impotência quando equipamentos e vagas de terapia intensiva ficaram escassos. Até o som de respiradores e monitores ―um bip repetitivo dentro dos hospitais e na cabeça de quem vivencia a doença diariamente― viraram gatilho para esses profissionais que tiveram de tomar, durante a crise, difíceis escolhas sobre quem deveria receber antes o cuidado que precisa. “Não são pessoas que têm estruturas psicológicas frágeis, mas o teor da vivência foi muito forte”, ela diz.

Ana Lúcia faz parte de um programa que ajudou a desenhar após ela mesma ter seu lado psicológico abalado ao ter a covid-19. Levou a ideia ao grupo de psicólogos especializados em trauma do qual faz parte (a Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR) e, junto com seus colegas, desenvolveu um programa voluntário para atender gratuitamente profissionais que enfrentam situações tão difíceis enquanto a epidemia segue latente. “Naquele momento, eu já fiquei pensando que eles iriam em breve desenvolver sintomas psicológicos muito difíceis, mas não imaginava que passariam a desenvolver quadros de estresse pós-traumático tão rapidamente”, conta Ana Lúcia, que nos primeiros atendimentos, há meses, já identificava os sintomas.

Em maio, ela se viu acometida pela covid-19 e precisou passar um dia inteiro em um hospital de São Paulo para fazer exames. Naquele momento, o Brasil tinha cerca de 20.000 casos confirmados ―hoje, beira os 2,5 milhões de infectados―, mas já lhe chamava a atenção o cansaço aparente de médicos, enfermeiros e técnicos que lhe atenderam. “Fui muito bem tratada e senti a empatia de cada um deles, mas fiquei sinceramente sensibilizada porque pareciam angustiados. Atendiam um paciente atrás do outro, era uma coisa caótica”, conta. Ana Lúcia não precisou ficar internada, mas a experiência daquele dia e a angústia que sentiu durante sua própria experiência com a covid-19 a fizeram pensar muito em como poderia ajudá-los, especialmente por morar com três médicos: o marido, a filha e o sobrinho.

“Eu fui contaminada quando ainda estava no começo. Vi o quanto os médicos estavam desesperados por lidarem com uma doença tão nova, tão difícil e que ainda tem muitas interrogações”, diz. A impressão inicial se somou à sua própria experiência com a doença que lhe causou pneumonia e lhe fez acordar algumas vezes de madrugada com medo de morrer. “Acho que foi uma das doenças mais sérias que já tive. Fiz 25 anos de terapia e, quando tive a covid-19, voltei a fazer. A estrutura fica abalada. A pessoa tem medo de morrer, fica fragilizada”, conta. Ana Lúcia se recuperou e, assim que se sentiu forte, concentrou esforços para tentar ajudar quem está cuidando dos pacientes a se estabilizarem psicologicamente.

Ana Lúcia Castelo, da Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR.
Ana Lúcia Castelo, da Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR. ARQUIVO PESSOAL

“Foi a única forma que eu encontrei para reduzir a carga. Atendi uma médica e uma enfermeira com o quadro de estresse pós-traumático pelas vivência que tiveram diante da morte, das incertezas. São pessoas que precisaram escolher quem iriam colocar no respirador porque não havia instrumentos necessários para todas as pessoas. Eles estavam num sofrimento muito grande”, conta. O grupo de Ana Lúcia usa um método chamado EMDR, criado a partir da experiência com soldados de guerra e que consiste em processar experiências traumáticas em ao menos oito sessões. E é por isso que ela desfia narrativas que tem escutado diariamente de quem está na linha de frente, sempre respeitando a ética e sem identificar ninguém nem dar detalhes ou mesmo citar as cidades dos profissionais. Ao longo das semanas de trabalho voluntário, a sobrecarga do sistema de saúde em alguns locais amenizou, mas as histórias vividas ainda marcam os profissionais da linha de frente.

A que mais chamou a atenção da psicóloga foi a de um médico de 42 anos, que trabalha em uma Unidade de Terapia Intensiva (onde são tratados os casos mais graves da doença) e começou a apresentar sintomas de trauma nos dez primeiros dias atuando no combate à covid-19, bem no início da crise sanitária. Ana Lúcia explica que, em geral, pacientes começam a apresentá-los entre 30 e 40 dias após o trauma. “Lá pelo oitavo dia, ele começou a ter sintomas de estresse pós-traumático. Ele ouvia o bip do monitor, o som do respirador, e ficava nervoso, angustiado. Saía, ia paro o repouso, voltava. Até que procurou ajuda”, conta a psicóloga.

O médico não conseguia dormir mesmo após exaustivos plantões e não conseguia se desconectar mesmo quando estava em casa. “Isso causa um impacto maior porque a pessoa não descansa nunca. Ele tinha pesadelos com pessoas morrendo e também flashbacks de situações difíceis”, narra Ana Lúcia. O médico contou três situações em que precisou decidir quem ele colocaria no respirador. Em uma delas, escolheu uma senhora e foi para o repouso chorar. Uma pessoa mais jovem que havia ficado na lista de espera acabou falecendo.

A psicóloga conta que é comum ouvir dos profissionais de saúde que estão inseguros, angustiados e já não têm vontade de ir trabalhar porque estão deprimidos e impactados. “As pessoas precisam ir trabalhar. Alguns apresentam uma visão negativa de si próprio, como se não fossem conseguir realizar seu trabalho. Gera uma dúvida sobre o que eu sei, como se estivesse desaprendendo tudo”, diz Ana Lúcia. Ela conta que principalmente médicos e enfermeiros que estão trabalhando em UTIs têm relatado medo de que os pacientes morram em suas mãos, medo de contraírem a doença e uma profunda empatia com as famílias que perdem seus entes queridos. Mais de 90.000 pessoas já faleceram por conta da covid-19 no Brasil.

“Atendi uma fonoaudióloga que viu o chefe morrer, então ela sentia uma impotência muito grande porque não tinha conseguido salvar o chefe. Isso foi muito comum no dia a dia dos médicos. Tudo isso com uma doença desconhecida no início. Isso gerou uma aflição muito grande”, acrescenta. Ana Lúcia afirma que a Rede Solidária da Associação Brasileira dispõe de 164 psicólogos que se prontificaram a atuar e que atende cerca de 40 profissionais da saúde, de maneira que há como receber mais pacientes. “Temos 180 profissionais que se cadastraram, disponíveis para atendimento. Cerca de 60 pessoas pediram ajuda, mas muitos deles interrompem por várias razões: adoeceram por covid-19 antes ou durante o tratamento, estão tão depressivos que desistem antes de começar, alguns marcam com o psicólogo, mas não comparecem na sessão”, explica Sueli Costa, que também participa do projeto. “Precisamos divulgar isso para ajudar mais gente”, reforça Ana Lúcia. O profissional interessado deve fazer um cadastro e responder a um questionário inicial de avaliação. A partir daí, faz gratuitamente oito sessões online, que podem ser prorrogadas em caso de necessidade. Se houver indicação, os psicólogos também orientam os pacientes a procurarem um psiquiatra.

A saúde mental dos profissionais de saúde é um problema levantado durante a pandemia em vários países. O Brasil faz parte de uma pesquisa com mais 25 países para avaliar os impactos da covid-19 na saúde mental da população em geral e, em especial, dos profissionais de saúde. Questionários estão sendo aplicados online para medir esses impactos.