Abrasco e demais entidades da Saúde lançam Plano Nacional de Enfrentamento à Covid-19

 

Via ABRASCO. Conheça o HOTSITE

O documento foi elaborado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), Associação Rede Unida e e Conselho Nacional de Saúde (CNS), entidades que compõem a coordenação da Frente Pela Vida, com contribuições da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), Rede de Médicas e Médicos Populares (RMMP), Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (ABMMD). Junto com outras organizações, elas realizaram a Marcha Virtual pela Vida em 9 de junho passado, quando obtiveram a adesão de mais de 600 organizações e movimentos e reforçaram a defesa do SUS, da ciência, da educação, do meio ambiente, da solidariedade e da democracia como elementos essenciais à vida e extremamente necessários diante da emergência sanitária que o país atravessa. 

Covid-19 e a ferida no útero

O confinamento imposto pela pandemia aumentou as barreiras de acesso das mulheres pobres ao aborto clandestino por medicamentos

Do El País

Ativista pró-escolha mostra medicamento considerado seguro às mulheres, mas que está sendo negado na Irlanda do Norte, onde o aborto é legal.
Ativista pró-escolha mostra medicamento considerado seguro às mulheres, mas que está sendo negado na Irlanda do Norte, onde o aborto é legal. Jason Cairnduff / Reuters

Ela foi descrita pela notícia como mulher anônima de 31 anos. O título dizia “o caso aconteceu em Bom Jesus do Norte”, uma geografia infeliz para quem morreu por planejar a vida. Ao que se sabe, ela foi a primeira mulher a morrer de aborto clandestino no Brasil durante a pandemia. A mulher sem nome “estava grávida de dois meses”, diz o marido. Foi duas vezes buscar socorro em espaços de morte, as casas inseguras para aborto. Usou sonda, permanganato de potássio, seringas. Morreu de parada cardíaca. Por que insistia? Não sabemos e não importa a intimidade de suas razões. Bastar saber que era uma mulher decidida a não ser forçada à maternidade durante a pandemia.

Ela foi morta pela pandemia. Causa e efeito podem ser disputados nesta narrativa, é verdade: sua morte não foi pelo vírus da covid-19, mas pelas políticas da vida que regem os corpos das mulheres como matéria a ser controlada pela lei penal. A mulher anônima morreu como se arriscavam milhares de mulheres nas práticas inseguras dos anos 1970 ou 1980 na América Latina, antes da circulação clandestina do misoprostol (cytotec) como pílula abortiva. O confinamento imposto pela pandemia aumentou as barreiras de acesso das mulheres pobres ao aborto clandestino por medicamentos. Não foi por acaso que a mulher anônima morreu sangrando — a ferida do útero não é alegórica. Os espaços de morte fazem alguns corpos sangrarem, enquanto outros se protegem da pandemia distantes da ameaça do vírus ou da lei penal.

Necropolítica se tornou a palavra obrigatória para descrever os efeitos da pandemia em uns corpos e não em outros. A palavra foi criada por um corpo-autor que sobrevive aos efeitos da necropolítica no racismo, o camaronês Achille Mbembe. A necropolítica provoca a destruição dos corpos, abandonando-os nos “espaços de morte”. Habitar os espaços de morte não é uma escolha dos indivíduos, mas uma tática espoliadora dos poderes que regulam as desigualdades. Assim é o encarceramento em massa de populações negras e latinas nos Estados Unidos. É assim que pensamos cada mulher que busca uma clínica clandestina e insegura de aborto durante a pandemia. A mulher anônima foi vítima da necropolítica patriarcal que faz uso da lei penal para perseguir, punir e matar mulheres.

O código da morte desta mulher no atestado de óbito deveria ser disputado. O Código Internacional de Doenças (CID) resume as razões de porque as populações morrem. Nem I46 de “parada cardíaca” ou O06 de “aborto não especificado” explicaram de que morreu a mulher anônima. Deveria ter os números mais complexos do manual de doenças que combinassem o “novo vírus covid” U07.1 com Z59.6, o que descreve a morte relacionada ao “baixo rendimento”. A mulher anônima morreu porque era pobre, porque sobrevivia à pandemia com o corpo marcado pelo patriarcado racista das Américas: seria o número das múltiplas interseccionalidades das desigualdades nos códigos das doenças. Morreu porque vive na região que mais criminaliza o aborto no mundo. Ela morreu da pandemia de covid-19, pois as regras de isolamento social tornaram ainda mais difíceis o acesso à clandestinidade segura para o aborto.

A necropolítica patriarcal não conhece fronteiras. Na Romênia, dos 280 hospitais públicos, somente 11 ofereciam aborto como cuidados essenciais em saúde durante a pandemia. A pandemia se tornou o acontecimento para restringir os direitos reprodutivos sem precisar nomeá-los como batalha política— basta o isolamento social, o risco de contágio nas ruas, a priorização do que seriam necessidades de saúde emergenciais. Tão trágica quanto a morte da mulher anônima no Brasil, foi a peregrinação da mulher polonesa que, após tentar o aborto com pílulas na clandestinidade, dirigiu até Alemanha para daí tomar um voo até à Inglaterra. No trajeto, dormia no carro. Exausta, sofreu um acidente de trânsito, foi hospitalizada. Quando pode fazer o aborto, estava dois dias além do limite autorizado pela lei da Inglaterra para o aborto. Está em intenso sofrimento mental por ser forçada a se manter grávida.

A anônima brasileira morreu pelo cruzamento da lei penal com a pandemia de covid-19. A anônima polonesa enlouquece pela mesma razão. Mas não por coincidência as duas sobrevivem a regimes políticos dos mais autoritários do planeta — são mulheres espoliadas pelo patriarcado que faz de seus corpos a matéria de perseguição moral para impor a necropolítica como tática de extermínio de mulheres vulneráveis. Não haveria morte, sangramento ou sofrimento se o aborto fosse reconhecido como deve ser: uma necessidade de saúde.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown

Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR

Covid-19: Prolonged and relapsing course of illness has implications for returning workers

Publicado originalmente nos blogs do BMJ. Leia o original (em inglês)

Covid-19 is a new illness on a scale not seen in living memory. Every article and webcast about covid-19 has the same message: “We are still learning; we don’t know enough yet.” However, out of this sea of information, protean patterns of illness are emerging. Doctors, governments, and countries have made huge efforts to treat patients and prevent disease spread, but given the novelty of this disease, we should consider what we can learn from the information we have so far, and what more can be done to help in the supportive management and prevention of new cases.

So far, there has been much emphasis on the treatment of acute life-threatening manifestation of covid-19. However, we are seeing increasing evidence of a “long-tail” of covid-19 related illness, and we need to consider how to support patients with prolonged illness from covid-19. As a group of authors, we have become interested in this area from a personal and professional perspective. CR and AUL have both experienced a long-tail of covid-19 symptoms and MM through her experience treating people with these symptoms in general practice.

Many individuals not admitted to hospital are reporting a prolonged and debilitating course of illness. Doctors have highlighted their experience of prolonged symptoms. [1] [2] [3] Patient led-research is already underway with the publication of data on protracted symptoms, such as the data from the Body Politic Covid-19 Slack support group. [4] After sharing our recent BMJ rapid response on social media, many other people shared their experience of symptoms that have lasting up to 13 weeks or more. [5] Among 61 reported symptoms, the most noted persistent symptoms were fatigue and shortness of breath, especially with exertion, chest tightness, cough, skin rash, elevated temperatures, and neurological disturbances. [4] The Covid-19 symptom tracking app developed at King’s College London, which has been downloaded by 3.9 million people globally to date, has reported that 10% people had symptoms at 25 days and 5% were still ill one month later. [6] The patterns within prolonged symptoms may not be noticed during acute hospital admissions, nor in the community if longitudinal patient symptom tracking and testing is not carried out. More formal evaluation is necessary and would be useful for clinicians and patients. Actively engaging patients and carers in research design and evaluation is crucial to ensure that people’s experiences are being adequately captured.

Some patients have observed a periodic “tertian” or “quartan” pattern, where symptoms recur every 3rd or 4th day. [4] As patients recover from covid-19, individuals say that they experience less intense recurrences of their original symptom “clusters,” predominantly at longer intervals. It is unclear if some of these recurrences represent re-activation viraemias or are a consequence of immune response. Current guidelines for self-isolation of “7 days after start of symptoms” in the UK may not be adequate in many individuals, [7] particularly with reports of prolonged faecal viral shedding up to 1 month for some patients. [8] [9] However, longitudinal assessments of serial PCR testing currently undertaken largely through oropharyngeal swabs, (or stool samples) are not routine community practice, apart from some selected settings such as care homes.

Despite covid-19 testing being widely available, concerns remain around current limited sensitivity and specificity of Covid-19 PCR swab tests due to the timing and technique in collecting the swab samples. [10] Highly specific IgG antibody tests have been developed, however uncertainty remains about the proportion of covid-19 patients that seroconvert and produce IgG antibodies after infection. Further uncertainty exists around level and duration of immunity and carrier risk after covid-19 recovery. [11]

UK prevalence studies suggest that 5% of the national population and 17% of London’s population have developed IgG antibodies. [12] [13] For individuals with confirmed covid-19 infections, high initial antibody conversion rates have been found in small numbers of hospital patients. [14]  WHO guidance currently recommends return to work after 2 weeks of absence of symptoms. [15] However, some staff who have returned to work during a quiescent phase are unable to continue work because of the resurgence of symptoms.

Prolonged covid-19 illness follows a distinct pattern, reflecting a cluster of symptoms of longer duration and of unknown cause. The presentation of this periodic pattern of symptoms could help improve understanding of the nature of the virus-host interaction in covid-19 pathogenesis, and guide future targeted assessment, management, and treatment interventions. It is now apparent that this is a multi-system disorder with a far wider range of symptoms than currently identified on the NHS website. [16] Rather than solely relying on diagnostic tests, clinical acumen is crucial to unravel the covid-19 puzzle. Those with less severe relapsing symptoms may not present to general practice or may present at varying timepoints.

The dual hallmarks of prolonged illness with relapsing and remitting pattern of recurrence have significant implications for the individual, who needs care and advice. Consequences may include a prolonged sickness absence and multidisciplinary health needs. A successful recovery requires a gradual rehabilitation and an individualised return to work plan. As our understanding develops on the length of time that symptoms persist, there may be further health implications relevant to immunity, infectivity, and return to work. Individuals will need monitoring and follow-up, with understanding and acceptance shown by managers and colleagues. [17]

Clare Rayner is a retired occupational health physician.

Amali U Lokugamage is a consultant in obstetrics and gynaecology at Whittington Health NHS Trust, London, UK, and honorary associate professor and deputy lead of clinical and professional practice at UCL Medical School, London.

Mariam Molokhia is a clinical reader in epidemiology and primary care at King’s College London and a GP in NW London.

Competing interests: CR is in the shielding group for covid-19 due to underlying conditions. AUL is on the Board of Directors of the International MotherBaby Childbirth organisation. She is a company director of a small publishing company called Docamali Ltd. MM none declared.

Acknowledgements: MM is supported by the National Institute for Health Research Biomedical Research Center at Guy’s and St Thomas’ National Health Service Foundation Trust and King’s College London. We are grateful to Mark Ashworth and Patrick White for their comments on an earlier draft of this article.

Study Raises Concerns for Pregnant Women With the Coronavirus

Pregnant women who are infected wind up in hospitals and I.C.U.’s at higher rates, a federal analysis suggests. But the data is far from conclusive.

Do New York Times (em inglês)
A paramedic in Stamford, Conn., with a woman who is eight months pregnant and sick with the coronavirus in April. She was put on a ventilator, her son was delivered by emergency C-section and she spent three weeks in the hospital.
A paramedic in Stamford, Conn., with a woman who is eight months pregnant and sick with the coronavirus in April. She was put on a ventilator, her son was delivered by emergency C-section and she spent three weeks in the hospital.Credit…John Moore/Getty Images

 

Pregnant women infected with the coronavirus are more likely to be hospitalized, admitted to an intensive care unit and put on a ventilator than are infected women who are not pregnant, according to a new government analysis.

Pregnant women are known to be particularly susceptible to other respiratory infections, but the Centers for Disease Control and Prevention has maintained from the start of the pandemic that the virus does not seem to “affect pregnant people differently than others.”

The increased risk for intensive care and mechanical ventilation worried experts. But the new study did not include one pivotal detail: whether pregnant women were hospitalized because of labor and delivery. That may have significantly inflated the numbers, so it is unclear whether the analysis reflects a true increase in risk of hospitalization.

Admissions for childbirth represent 25 percent of all hospitalizations in the United States, counting mother and baby, said Dr. Neel Shah, an assistant professor of obstetrics and gynecology at Harvard University. Even at earlier stages of pregnancy, doctors err on the side of being overly cautious when treating pregnant women — whether they have the coronavirus or not.

“There’s quite clearly a different threshold for hospitalizing pregnant people and nonpregnant people,” he said. “The question is whether it also reflects something about their illness, and that’s something we don’t really know.”

The results are to be published on Thursday by the C.D.C.; government researchers presented the data to a federal immunization committee on Wednesday. (The slides were posted online on Wednesday afternoon but taken down later in the day.)

The analysis, the largest of its type so far, is based on data from women with confirmed infections of the coronavirus as reported to the C.D.C. by 50 states and Washington, from Jan. 22 to June 7.

The report includes information on 8,207 pregnant women between ages 15 to 44, who were compared to 83,205 women in the same age bracket who were not pregnant.

More than 31 percent of the pregnant women were hospitalized, compared with about 6 percent of women who were not pregnant. Pregnant women were more likely to be admitted to the I.C.U. (1.5 percent versus 0.9 percent) and to require mechanical ventilation (0.5 percent versus 0.3 percent).

These proportions are small, Dr. Shah noted, and the 10-fold difference in the number of pregnant and nonpregnant women in the analysis makes it difficult to compare their risks.

In a separate analysis by Covid-Net of women hospitalized with the coronavirus, C.D.C. researchers noted that “the risk of I.C.U. and mechanical ventilation was lower among pregnant compared to nonpregnant women.” Covid-Net analyzes data from hospitalizations in the network’s surveillance area in 14 states.

Despite the ambiguities, some experts said the new data suggests at the very least that pregnant women with the coronavirus should be carefully monitored.

If many of the pregnant women were hospitalized for labor and delivery, the proportion of women who were hospitalized for only coronavirus infection and became severely ill — those advancing to the I.C.U. or ventilation — would be even higher, said Dr. Denise Jamieson, a member of the Covid-19 task force at the American College of Obstetricians and Gynecologists.

“I think the bottom line is this: These findings suggest that compared to nonpregnant women, pregnant women are more likely to have severe Covid,” she said.

Pregnancy transforms the body’s biology, ramping up metabolism, blood flow, lung capacity and heart rate. It also suppresses a woman’s immune system to accommodate the fetus — a circumstance that can increase her susceptibility to respiratory illnesses like influenza.

Because of this heightened risk, scientists have been closely monitoring pregnancy outcomes in various coronavirus studies. So far, few studies have indicated a significant risk for pregnant women or for their children. Infections in newborns have been exceedingly rare.

Still, as the pandemic has progressed, prenatal care has been severely disrupted, Dr. Shah said, and women are being hospitalized for conditions that might have been caught and treated much earlier.

“Things that might have happened in an office setting are happening in a hospital triage setting,” he said.

Dr. Jamieson pointed to a recent study of pregnant women at New York City hospitals who were asymptomatic at admission. Of the 241 women who tested positive for the coronavirus in that study, 48 did not have symptoms at first but then became severely ill.

The study also found that women with more severe symptoms were more likely to give birth prematurely.

“All this information points to the importance of being vigilant when it comes to monitoring pregnant women,” Dr. Jamieson said. “They’re not at as great a risk as, for example, older people, or people with other underlying medical conditions. But they do seem to be at some increased risk.”

The data suggests that hospitals should aim to test all pregnant women for the coronavirus, regardless of symptoms, she added. The new analysis also has implications for a coronavirus vaccine, whenever one becomes available.

“How strongly are we going to counsel pregnant women about the benefits of vaccines?” Dr. Jamieson wondered.

Correction: 

An earlier version of this article described Dr. Denise Jamieson as the head of the Covid-19 task force at the American College of Obstetricians and Gynecologists. In fact, the task force has no head, and Dr. Jamieson is a member.

Apoorva Mandavilli is a reporter for The Times, focusing on science and global health. She is the 2019 winner of the Victor Cohn Prize for Excellence in Medical Science Reporting. @apoorva_nyc

A version of this article appears in print on , Section A, Page 11 of the New York edition with the headline: Infected Women Who Are Pregnant May Face Higher Risk for Intensive Care.

 

Grávidas têm direito ameaçado em maternidades durante pandemia de coronavírus

Após quase três meses com acesso de acompanhantes restrito, a Maternidade Odete Valadares, em Belo Horizonte, ouviu as pacientes e readequou. Desde 10 de junho, o acesso integral do acompanhante voltou a ser permitido na instituição

A maternidade Odete Valadares voltou a permitir acompanhantes às gravidas desde 10 de junho(foto: Fhemig/divulgação)
A maternidade Odete Valadares voltou a permitir acompanhantes às gravidas desde 10 de junho (foto: Fhemig/divulgação)

Foram 10 horas de internação e tentativa de um parto normal. A bolsa estourou e os batimentos cardíacos do bebê caíram. Marcela Reis, de 28 anos, mãe de primeira viagem, precisou fazer uma cesariana de emergência, em 12 de maio. Ela estava sozinha. O namorado foi impedido de acompanhá-la em um dos momentos mais importantes da vida dos dois. Por causa da pandemia do novo coronavírus, a Maternidade Odete Valadares, em Belo Horizonte, maior e mais antiga maternidade pública do estado, tinha suspendido a presença de acompanhantes. Um direito garantido à mulher por lei.

O pai só conseguiu acessar o bloco cirúrgico quando Marcela já estava anestesiada e sofrendo o corte para retirada do bebê. Mesmo assim, a permanência durou apenas o período de nascimento e primeiros atendimentos ao recém-nascido, cerca de duas horas. Quando a mãe foi levada para o quarto, onde ficaria por mais 48 horas, ela voltou a ficar sozinha com o filho. “Eu estava operada e não tinha ninguém para me ajudar. Precisava esperar uma enfermeira”, comenta a maquiadora.
Marcela com o pequeno Nick(foto: Arquivo pessoal/divulgação)
Marcela com o pequeno Nick (foto: Arquivo pessoal/divulgação)

“Quando você proíbe a mulher de ter o acompanhante, você não está tirando dela só o conforto de alguém para dar a mão, você está tirando de um pai ou companheira o direito de ver o filho nascer, e também está colocando ela em um risco iminente de violência obstétrica, que é endêmica neste país”, alerta Gabriella Sallit, advogada especializada em violência obstétrica e que notificou o hospital no caso de Marcela. A mesma situação foi vivida por outras centenas de mães. A maternidade realiza média de 300 partos por mês.

A restrição a acompanhantes na Maternidade Odete Valadares durou quase três meses. Nesse período, a Defensoria Pública de Minas Gerais também notificou a instituição. Em 10 de junho,  segundo a direção, a maternidade voltou a cumprir a Lei Federal Nº 11.118, que diz: “Os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde – SUS, da rede própria ou conveniada, ficam obrigados a permitir a presença, junto à parturiente, de 1 (um) acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato”.
No caso de Marcela, Gabriella fez uma notificação à direção do hospital exigindo o cumprimento da lei e pedindo explicações. “Não existe nenhum decreto, nenhuma resolução, de nenhuma secretaria de saúde que autorize a revogação de uma lei”, afirma a advogada. À época, a maternidade alegou que cumpria orientação da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig).
Readequação da maternidade
Segundo a diretora da maternidade, Flávia Ribeiro de Oliveira, o caso de Marcela ajudou muito no processo de reabertura. “Ela entrou em contato com a diretoria, eu fui ao leito dela. Foi muito bacana nossa oportunidade de diálogo. Ela contribuiu muito  pela instituição”, destaca.
“Houve uma adaptação e reabrimos”, conta a diretora. Segundo ela, no início da pandemia, houve um momento de muita incerteza e, como a maternidade lida com pacientes do grupo de risco, tanto mães como bebês, a decisão de suspender a presença de acompanhante foi por segurança. “O primeiro lockdown, em 18 de março, foi muito tenso. Muita coisa a gente foi percebendo e conhecendo melhor o cenário aqui com o passar do tempo mesmo”, explica.
Segundo a obstetra, a orientação de distanciamento de dois metros, indicada pela Agência de Vigilância Sanitária às instituições de saúde, era impossível de ser atendida levando em conta o espaço físico da maternidade. Flávia acredita que houve uma falta de alinhamento entre os órgãos sanitários e epidemiológicos e os dirigentes da saúde pública relacionado aos direitos da mulher parturiente: “Cada instituição agiu com seu critério. Se tivesse vindo esse alinhamento em um processo mais maduro, de coordenação, provavelmente teria sido menos penoso”.
Versão contestada
Íris vai ter o bebê na maternidade e teme pelas informações desencontradas(foto: Raylson Martins/divulgação)
Íris vai ter o bebê na maternidade e teme pelas informações desencontradas (foto: Raylson Martins/divulgação)

Na manhã desta quarta-feira (24), o Estado de Minas recebeu uma nova denúncia de uma grávida que vai se internar na quinta-feira para o parto na maternidade. Segundo Iris Kátia Cordeiro da Silva, de 32 anos, a orientação que ela recebeu em sua última consulta de pré-natal, na manhã de hoje, foi que o acompanhante só poderia ficar as primeiras 12 horas após o parto.

Informação que contraria a versão passada pelo hospital de que os acompanhantes estavam liberados a ficar ao lado da mãe até o fim da internação. No protocolo padrão, a puérpera que teve um parto normal recebe alta 24h  após o nascimento do bebê, já aquela que passou por uma parto cesáreo precisa permanecer na maternidade por 48h.
Em 17 de junho, Íris conversou com a reportagem do Estado de Minas sobre o medo que sentia naquele momento de ter seu filho na maternidade. A assistente social é hipertensa, por isso foi encaminhada à Odete Valadares para fazer o pré-natal de risco, desde o início da gravidez.
“Eu nunca pensei na possibilidade de ter meu filho sozinha. Tanto que quando fiquei sabendo desta nova regra, eu chorei o dia todo”, recorda. Há uma semana do parto, ela tentava uma vaga para ter seu bebê no Sofia Feldman, maternidade filantrópica de Belo Horizonte, que permite a entrada de acompanhantes.

Ela não sabia da mudança de protocolo que havia ocorrido, segundo a direção, uma semana antes. Naquele dia, Iris foi informada pela reportagem de que poderia ter o namorado ao seu lado o tempo todo. “Nossa, estou muito feliz. Que alívio! Vou ter meu filho lá sim”, comemorou. A alegria foi abalada ao receber, na manhã desta quarta-feira, a notícia de que o acompanhante só poderia ficar por 12 horas após o parto.

Procurada novamente, a diretoria da maternidade, por meio da assessoria, disse que houve um erro por parte da médica que atendeu Íris. Garantiu que a nova orientação quanto à permanência do acompanhante durante toda a internação está valendo desde 10 de junho na instituição. Por fim, informou que vai reunir os profissionais de saúde da maternidade novamente para reforçar as orientações e evitar que falhas de comunicação voltem a ocorrer.
 
Novo protocolo
A reabertura para acompanhantes na maternidade mais antiga do estado exigiu adaptações e elaboração de novas regras, que, conforme garantiu a direção, estão valendo desde a segunda semana de junho. Veja o que muda e quais exigência ao acompanhante:
  • O acompanhante não pode ser do grupo de risco
  • Não pode apresentar sintoma gripal
  • Não pode ter apresentado a COVID-19 nos últimos 14 dias, período de quarentena da doença
  • O uso de máscara é obrigatório durante todo o período de permanência no hospital.
  • A saída e retorno do acompanhante, durante a internação da paciente, devem ser evitados
  • Não são permitidas visita
A diretora informou que a agenda de visita das grávidas para conhecer a maternidade antes do parto também está aberta. “Se elas estiverem com medo ou qualquer dúvida, a maternidade está à disposição para esclarecer”, comenta. A mulher interessada em visitar a instituição deve fazer a solicitação pelo telefone (31) 3298-6000 ou enviar e-mail para mov.ouvidoria@fhemig.mg.gov.br .

Especialistas falam como pais podem ajudar crianças a entender a pandemia

Privados da rotina e do contato com os amigos, crianças demandam atenção dos pais para ajudá-las a compreender o que se passa no mundo

Do Correio Braziliense

Adriana de Carvalho tem se desdobrado para entreter o filho, Arthur, mas o garoto sente muita falta da escola e dos amigos(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Adriana de Carvalho tem se desdobrado para entreter o filho, Arthur, mas o garoto sente muita falta da escola e dos amigos (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

As quatro paredes do lar representam a estimada segurança em tempos de caos. Entretanto, podem parecer uma prisão aos que não compreendem a razão de não ir além delas. A pandemia apresentou a todos um novo mundo, e as dinâmicas da sociedade passam por uma reestruturação. Algo difícil de engolir para os adultos, mas um verdadeiro castigo às crianças, que estão privadas de suas atividades.

Parte determinante para a construção de um emocional saudável, a interação social é indispensável aos pequenos, conforme explica o médico psiquiatra Luan Diego Marques. “O contato humano é uma das ferramentas importantes para aquisição de sensação de realização e prazer. Quando não é desenvolvida, o indivíduo, ao observar o mundo ao seu redor, vai sentir que não possui habilidade para participar dele. Isso será gatilho para desenvolver transtornos, como depressão e ansiedade.”

O cuidado com a saúde mental merece atenção ainda maior durante momentos de estresse generalizado, como o da quarentena. “A vivência em família gera situações que se retroalimentam, sobretudo, com pais que não sabem lidar com suas emoções e servem de espelho aos filhos. Assim, privadas da rotina com os amigos, as crianças se estressam e os pais também, virando um ciclo vicioso”, detalha Luan.

Para manter as crianças distraídas, muitos pais se aproveitam da tecnologia para também conseguirem dar conta de suas obrigações. O imediatismo nas respostas do mundo virtual, porém, pode formar crianças ansiosas. “As telas têm estímulos muito acelerados, isso ajuda na liberação de noradrenalina e dopamina. Toda criança deseja estar à distância de um clique, então, ela começa a exigir respostas muito rápidas do mundo e dos pais. O que pode parecer uma saída, a longo prazo, pode gerar distúrbios de ansiedade”, explica o psiquiatra.

Saudade

A quebra repentina na rotina da criançada deixou uma enorme sensação de vazio para os que entendem o que vem acontecendo no mundo e, também, aos muito pequenininhos, que só querem um amiguinho para dividir o tempo. “Eu gosto de ir para a escola com minha professora e meus amigos. Não gosto de ficar o dia todo em casa”, contou Louise Cordeiro, de apenas 3 anos.

Louise é a filha mais nova de Yohanna Cordeiro, 28 anos, professora de inglês e educadora perinatal. “Ela tem sentido muita falta, principalmente de encontrar os amigos, e não dispõe de meios para vê-los. No grupo de pais da escolinha, nós tentamos estabelecer videochamada entre os bebês, mas, como cada pai tem um horário, não deu certo. Nós gravamos vídeos e mandamos para que cada um mostre ao filho, mas não é a mesma coisa que a interação em tempo real”, conta a mãe.

Lamentando a situação, a pequenininha diz que “não tem como brincar agora” e garante que, quando tudo voltar à normalidade, vai “brincar de parquinho e depois lanchar” com os coleguinhas. A irmã de Louise, Michelle Cordeiro, 9 anos, tem mais sorte e consegue estabelecer contato com os amigos. “Nós jogamos on-line quase todos os dias para matar a saudade e conversamos bastante no grupo do WhatsApp”, conta.

Para a psiquiatria, o momento exige constante conversa com os filhos para situá-los nestas mudanças. “O adulto lê as notícias e racionaliza. Cognitivamente, ele alcança a mensagem. As crianças, não; elas não sabem a razão de ter de ficar em casa e longe das pessoas que gosta. Ela vai perceber que está privada da socialização com os amigos, mas precisa entender o porquê”, explica Luan.

Michelle cursa o 4º ano do ensino fundamental e já compreende o afastamento social e de suas atividades. “Eu não estou gostando, mas sei que é importante ficar em casa agora. Sinto falta de pular corda, jogar bola e conversar pessoalmente. Nós estamos aguardando a pandemia acabar para fazer uma festa do pijama, ainda não sabemos na casa de quem, mas vai ter festa”, planeja, esperançosa, a menina.

Recursos

Para o psiquiatra Luan Marques, o contato entre a criançada deve ser mediado pelos pais, para que não cesse. “Adultos e crianças conversam em linguagens diferentes. Muitas vezes, somente uma criança entenderá o que a outra diz. Portanto, mesmo com a dedicação dos pais, eles não suprirão a necessidade de socializar do filho. Assim, mesmo que comedidamente, deve oferecer recursos para que eles conversem com os primos e amigos da mesma idade.”

Privado de contato com os amigos, Arthur Cassimiro, 7 anos, tem se chateado bastante em casa. “É ruim ter aula on-line, eu sinto falta de brincar com eles, sinto falta da aula, eu só quero voltar para a escola. Voltar para a natação, para o futebol e de fazer tudo isso com meus amigos.” A mãe de Arthur, Adriana de Carvalho, 28 anos, lamenta o pouco contato entre os pais da comunidade escolar. “A gente não conversa muito, então, acaba que cada criança fica para o seu lado”, diz.

Adriana faz o que pode, e dedica bastante atenção ao filho. “A rotina escolar foi mantida e eu acompanho todas as aulas para auxiliá-lo, pois ainda está em fase de alfabetização. Nós moramos em casa, então, também reservo uma parte do tempo para ficar com ele no quintal e na piscina. Apesar de estar sempre presente, ele reclama cotidianamente da falta dos amigos e da escola, pois a interação que eles têm é somente pelo chat da aula”, conta.

Esperando por dias melhores, o menino diz ter planos com os amigos para concretizar no período pós-pandemia. “ Quando acabar esse coronavírus, nós vamos convidar um para vir à casa do outro. Queremos fazer as festinhas de aniversário para comemorar e brincar juntos. Essas são as coisas que a gente gosta de fazer”, narra Arthur.

Eletrônico controlado

Seguindo o conselho de reduzir o acesso às mídias digitais pela garotada, Maurício Santos, 29 anos, tem aberto exceções à filha durante o isolamento. “Nós somos contra o uso abusivo de celular, tanto que nossa filha nem tem aparelho. Mas, como ela não pode se encontrar com os familiares e amigos, nós deixamos que ela faça videochamadas para os primos e para a melhor amiga”, diz o estudante de gastronomia.

A filha de Maurício, Manuela Gaspar, de 7 anos, uma menina que “gosta da bagunça”, segundo o pai, assiste às aulas pela internet, mesmo não gostando muito da distância da sala de aula. “A internet trava, e os slides ficam carregando. Não gosto. Eu sinto muita saudade dos meus amigos e da professora. Acaba que a gente só conversa no chat da aula, e a tia Cris (a professora) nem sempre deixa”, diz Manu.

Contrário ao excesso de tecnologia, Maurício Santos tem aberto exceções para Manuela conversar com parentes e amigos(foto: Arquivo Pessoal)
Contrário ao excesso de tecnologia, Maurício Santos tem aberto exceções para Manuela conversar com parentes e amigos (foto: Arquivo Pessoal)

No regresso à rotina, Manuela já planejou as brincadeiras. “Eu pretendo brincar muito de umas brincadeiras bem doidas. Quero ir ao pátio da escola, à sala de informática e à sala de artes, onde a gente pinta e desenha muito. Depois de brincar de tudo que a gente costumava, eu quero comprar um lanche e dividir com as minhas amigas. Sinto falta de me encontrar com elas e conversar”, conta.

O último conselho que Luan deixa aos pais é introduzir atividades de foco aos filhos, para acalmá-los durante a quarentena. “Há na internet uma série de meditações guiadas para a garotada, também aulas de ioga. Isso colocará a criança em contato com ela e com os pais, uma interação muito importante. Mas essa atividade nova deve ser apresentada em um momento prazeroso, assim ela associará a nova atividade a algo bom”, explica o psiquiatra.


De olho na molecada
A Sociedade Brasileira de Pediatria elaborou um manual para mediar o uso de ferramentas tecnológicas para as crianças. Pais devem ficar atentos: 

» Crianças de até 2 anos
Não é indicado fazer uso de nenhum aparelho tecnológico.

» Crianças de 2 a 5 anos
Limitar o uso destes equipamentos para o máximo de uma hora diária.

» Crianças até 10 anos
Não fazer uso de televisão ou computador no próprio quarto.

» Adolescentes
Não devem ficar isolados em seus quartos nem ultrapassar as horas saudáveis de sono, de oito a nove horas por noite. Além de realizar uma hora de atividade física por dia.

» Crianças menores de 6 anos
Não devem ser expostas a conteúdos violentos, pois ainda não conseguem separar a fantasia da realidade. É importante monitorar a classificação indicativa do conteúdo que o filho consome na televisão, na internet e nos jogos on-line e videogame. Estimular a criança a participar de atividades em família, de lazer, educativas e de socialização familiar.

Números oficiais sobre grávidas com covid-19 estão longe da realidade, dizem pesquisadores

Pesquisa revela dobro de mortes contabilizadas pelo Ministério da Saúde; epidemia afeta mais gestantes pretas e pardas.

O único documento do ministério com números mais detalhados sobre grávidas na epidemia é um boletim epidemiológico divulgado em 29 de maio. O levantamento é feito a partir de dados do Sivep-Gripe coletados entre 16 de fevereiro e 23 de maio. Segundo o sistema de vigilância em saúde, nesse período, foram notificados 52.335 casos hospitalizados de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) confirmados para covid-19, sendo 521 (1%) em gestantes. Desse total, 36 evoluíram para óbito.

“Na mesma época correspondente aos 36 casos referidos pelo Ministério da Saúde, conseguimos por outras metodologias levantar 62 casos”, afirmou Melania Amorim ao HuffPost Brasil. A metodologia usada pelo Grupo Brasileiro de Estudos de Covid-19 e Gravidez inclui recuperar dados do ministério, buscar informações com as secretarias de Saúde e rastrear casos noticiados pela imprensa ou que chegam por um e-mail da equipe. Só entram na conta casos notificados por alguma autoridade sanitária.

O levantamento independente inclui duas mulheres que morreram em casa sem ter tido tempo de chegar ao serviço de saúde, mas que tiveram covid-19 comprovada, de acordo com Amorim. A diferença nos números se deve a falhas na atuação do governo federal, segundo a pesquisadora. “Está havendo um sub-registro de notificações por parte do ministério que não está conseguindo consolidar essas informações em tempo hábil”, afirmou.

No âmbito da pesquisa, a obstetra sustenta que o ideal para de fato investigar como a epidemia afeta as grávidas seria ter acesso aos prontuários. Com isso, seria possível, por exemplo, mapear de forma mais precisa a frequência de comorbidades, como diabetes e hipertensão arterial, nesse grupo. “A gente deixa de ter acesso aos dados individuais, que seria a metodologia mais adequada para ver os itinerários que essas mulheres percorreram, identificar em que momento da assistência ocorreu falha ou atraso e poder fazer recomendações mais adequadas”, explicou, sobre a atual contagem feita pelo governo.

Segundo a pesquisadora, quando o Brasil somava 62 mortes de grávidas por covid-19, dados publicados por outros países eram muito menores: 2 no México, 7 no Irã, 5 no Reino Unido e um nos Estados Unidos. “Existe um problema muito sério no Brasil que não é descrito na maioria dos países e neste momento a pandemia está revelando uma face perversa que é esse número desproporcionalmente alto de morte materna por covid-19”, afirmou Amorim.

“A pandemia está revelando uma face perversa que é esse número desproporcionalmente alto de morte materna por covid-19.”
Obstetra e ginecologista Melania Amorim, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Mortalidade materna no Brasil

Ainda não há explicações precisas para explicar a diferença desses números entre os países por enquanto, segundo pesquisadores. A alta taxa de mortalidade materna no Brasil já era uma preocupação antes da pandemia. O indicador representa o total de óbitos que ocorrem durante ou até 42 dias após o parto e com causa relacionada à gravidez divididos por 100 mil nascidos vivos no local. Em 2018, a taxa foi de 59,1.

A meta estabelecida em um pacto fixado pela ONU (Organização das Nações Unidas) era limitar o indicador a 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015. Cerca de 92% desses mortes são evitáveis e ocorrem principalmente por hipertensão, hemorragia, infecções e abortos provocados.

Em 2018, mulheres de raça/cor preta e parda totalizaram 65% dos óbitos maternos, segundo o Ministério da Saúde. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2015, os brasileiros que se declaram pretos ou pardos somavam 53,92%.

Também é possível observar que grávidas pretas e pardas estão mais vulneráveis ao novo coronavírus ao analisar o boletim do ministério, ainda que os dados estejam incompletos.

Em 2018, mortalidade materna foi de 59,1 a cada100 mil nascidos vivos no
Em 2018, mortalidade materna foi de 59,1 a cada100 mil nascidos vivos no Brasil. Callaghan O’Hare / Reute

Grávidas negras estão mais vulneráveis

Das 521 gestantes internadas com covid-19, foram excluídas 36 (6,9%) com idade maior ou igual a 50 anos e uma (0,2%) com faixa etária em branco, totalizando 484 gestantes analisadas. Para as análises sobre evolução de alta ou óbito apenas 288 foram considerados, pois 196 casos ainda apresentavam a variável “evolução” em branco (não preenchida) ou ignorada.

Desses 288 casos, 72 tiveram a informação sobre raça/cor ignorada ou em branco, de modo que só é possível fazer essa análise considerando 216 registros. Nesse grupo, das 141 gestantes negras (pretas ou pardas) hospitalizadas, 121 (85,8%) evoluíram para alta e 20 (14,2%) para óbito. Das 72 gestantes brancas, em 67 casos (93%) o desfecho foi a alta e 5 (7%) de óbito.

“Apesar da incompletude dos dados, observa-se que a proporção de gestantes brancas que evoluíram para cura é maior que aquela observada para mulheres pardas ou pretas”, afirmou ao HuffPost Brasil Fernanda Lopes, doutora em Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo) e membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Estudos realizados no Reino Unido e nos Estados Unidos indicam maior proporção de mortes maternas relacionadas ao novo coronavírus em mulheres negras e outros grupos étnico-raciais minoritários, quando comparadas às mulheres brancas, “em especial em função de diagnóstico tardio e/ou assistência inadequada”, completou a pesquisadora.

No Brasil, as estatísticas oficiais do governo federal não permitem saber quem são essas mulheres que se recuperaram ou morreram. “Não sabemos se elas tinham comorbidades (obesidade, diabetes, hipertensão), não sabemos o trimestre de gestação. Não sabemos se o acesso ao serviço hospitalar foi tempestivo, se o serviço estava preparado para atendê-las adequadamente do ponto de vista de infraestrutura e preparo técnico, não sabemos também se elas foram vítimas de algum tipo de omissão ou negligência”, afirma Lopes.

A pesquisadora também lembra que diversos estudos realizados em um contexto sanitário pré-pandemia apontam dificuldades de acesso e falta de qualidade na atenção dedicada às mulheres negras, grávidas ou não. “No contexto da pandemia, as limitações impostas a todo o sistema podem agravar a operação do racismo nas instituições de saúde, tornando a qualidade da assistência prestada à população negra ainda pior”, completou Lopes.

Entre as pesquisas que apontam para o racismo institucional no contexto da epidemia, uma publicação do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde mostra que a chance de pretos e pardos sem educação formal morrerem devido ao novo coronavírus é 4 vezes maior do que de brancos com nível superior. O levantamento foi feito por pesquisadores da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), da USP (Universidade de São Paulo) e do IDOR.

“No contexto da pandemia, as limitações impostas a todo o sistema podem agravar a operação do racismo nas instituições de saúde, tornando a qualidade da assistência prestada a população negra ainda pior.”
Fernanda Lopes, doutora em Saúde Pública pela USP e membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Abrasco

Falta de informações na saúde

Sobre a falta de dados raciais no boletim do ministério, se o paciente chega ao serviço de saúde em condições de responder às perguntas, ele deve declarar sua cor. Senão, o acompanhante o faz. No entanto, na maioria das vezes os profissionais não fazem essa pergunta e atribuem ao usuário a cor que acreditam que a pessoa tenha, de acordo com Lopes. “O pertencimento racial só pode ser definido pela própria pessoa pois a forma como ela se vê no mundo não necessariamente está refletida no modo como o mundo a vê”, afirmou.

As lacunas dificultam a análise do quadro sanitário e, por consequência, a resposta ao problema. O ginecologista e obstetra José Paulo Pereira Junior, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) critica a falta de transparência e organização do Ministério da Saúde na pandemia em geral. “O que a gente tem debatido muito é ter uma base de dados confiável que todos nós pudéssemos usar”, afirmou ao HuffPost.

“A gente está em meados de junho e ficou sem dados no meio do caminho. Essa confusão toda que a gente tem visto em relação a horário de divulgação [de boletins epidemiológicos], tipo de divulgação, mudança de boletim, confundem mais do que facilitam, e a gente não pode fazer programação de saúde pública se não tiver claramente com esses dados abertos e passíveis para serem discutidos por todos”, completou o médico.

O obstetra faz parte da equipe do IFF/Fiocruz que está fazendo um estudo para acompanhar gestantes e puérperas em meio à pandemia. A estimativa é que cerca de 300 pacientes participem da pesquisa que deve ter resultados em 3 meses. Todas as grávidas internadas no hospital fazem teste RT-PCR para saber se estão contaminadas, assim como os bebês, que seguem em acompanhamento para que seja observado se há algum problema a médio ou longo prazo.

A epidemia de zika, iniciada em 2015 no Brasil, por exemplo, levou à síndrome congênita do zika nos bebês de mães infectadas. Até o momento, não há evidências científicas de transmissão vertical do vírus. Por isso, a amamentação é recomendada, ainda que com cuidados, como lavar as mãos e o bico do seio, colocar máscara para amamentar e colocar pano entre bebê e paciente para evitar contaminação acidental no pós-parto.

As dúvidas sobre o efeito do novo coronavírus nas grávidas são parte das incertezas sobre o patógeno em geral. “A gente tem uma doença que tem 5 meses e, de uma maneira bastante honesta, a gente sabe muito pouco sobre ela na população geral”, afirma Pereira Junior.

“A gente tem uma doença que tem 5 meses e de uma maneira bastante honesta, a gente sabe muito pouco sobre ela na população geral”, afirma Pereira Junior, da Fiocruz. Luis Alvarenga via Getty Images

Gravidez como fator de risco para covid-19?

Desde abril, o Ministério da Saúde passou a considerar gestantes como parte do grupo de risco para covid-19. O mesmo passou a se aplicar às puérperas, nome dado às mulheres que estão passando pelo chamado “puerpério”, período que contempla cerca de 45 dias após o parto.

A orientação da pasta é que a assistência à saúde deve ser organizada de modo a garantir os atendimentos a mulheres e recém-nascidos enquanto durar a crise sanitária, considerando o manejo adequado nos casos suspeitos de covid-19 nas gestantes e puérperas.

A realidade, contudo, nem sempre é essa. Em algumas cidades, optou-se por diminuir o número de consultas de pré-natal no primeiro e segundo trimestre.

A gente tem uma doença que tem 5 meses e de uma maneira bastante honesta, a gente sabe muito pouco sobre ela na população geral.
Ginecologista e obstetra José Paulo Pereira Junior, do IFF/Fiocruz

O que as pesquisas identificaram até agora é que estar grávida não é um fator de risco por si só, porém a gravidez pode estar associada em alguns casos a comorbidades que são fatores de risco. É o caso de diabetes, hipertensão e obesidade, por exemplo.

Por esse motivo, o terceiro trimestre de gestação costuma ser mais crítico para a covid-19. Das 288 gestantes internadas com a doença, 168 (66,7%) das que evoluíram para alta estavam no terceiro trimestre. E 22 (61,1%) dos óbitos também estavam nessa etapa da gravidez. Vale destacar que o registro de 13 pacientes com alta não tinha essa informação, assim como o de duas mortes, segundo o boletim do Ministério da Saúde. Dos 36 óbitos contabilizados no boletim, 29 tinham alguma comorbidade.

“As pacientes no terceiro trimestre têm algumas características. O próprio volume abdominal, por exemplo, dificulta que a pessoa respire normalmente. As pernas já incham. É também nessa época que a gente vê a piora de algumas doenças. Se você olhar as comorbidades [das gestantes que morreram por covid-19], cardiopatia, diabetes, hipertensão e obesidade, são fatores de risco para grávidas, mas também para o novo coronavírus”, explica Pereira Junior.

O obstetra também lembra que a gravidez pode ser um desafio para a doença porque alguns medicamentos não podem ser usados em função do bebê.

Na semana passada, o Ministério da Saúde ampliou a recomendação do uso da cloroquina e hidroxicloroquina para incluir grávidas com sintomas de covid-19. Não há comprovação científica do uso da droga para tratar o novo coronavírus.

Antes da recomendação, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) havia afirmado que não existem estudos demonstrando efetividade ou segurança no uso da hidroxicloroquina ou cloroquina para o gestantes e que o tratamento deve “considerar a gravidade do quadro clínico materno e a terapêutica deve ficar a critério do médico assistente, em decisão compartilhada com a gestante”. A organização não se pronunciou após o anúncio do governo federal.

Na avaliação de Melania Amorim, há condições em que a cloroquina pode ser prescrita para grávidas, como no caso de malária, porém não se aplica à covid-19 por não haver comprovação científica para esse uso.

Postnatal depression has almost tripled during coronavirus pandemic, study finds

‘The social and physical isolation measures are taking a toll on the mental health of many of us,’ says researcher

Do Independent (em inglês)

Depression among expectant and new mothers has almost tripled during the coronavirus pandemic, new research has found.

The study, which was conducted by the University of Alberta in Canada, showed that the number of women reporting symptoms of maternal depression has increased to 41 per cent compared to 15 per cent before the outbreak began.

In addition, the number of women expediting moderate to high anxiety symptoms has risen from 29 per cent to 72 per cent.

The survey included 900 women, 520 of whom were pregnant and 380 of whom had given birth in the past 12 months, and each participant was asked about their depression and anxiety symptoms before and during the pandemic.

Pregnant women and those who have recently given birth are already at a greater risk of depression and anxiety, with around one in seven struggling with symptoms just after having a baby.

However, the researchers found that the global health crisis has exacerbated those struggles, with the likelihood of maternal depression and anxiety having “substantially increased”.

“The social and physical isolation measures that are critically needed to reduce the spread of the virus are taking a toll on the physical and mental health of many of us,” explains Dr Margie Davenport, co-author of the study.

“We know that experiencing depression and anxiety during pregnancy and the postpartum period can have detrimental effects on the mental and physical health of both mother and baby that can persist for years.”

Dr Davenport added that effects of maternal depression can include premature delivery, reduced mother-baby bonding, and developmental delays in infants.

Annie Belasco, head of charity at the PANDAS Foundation – an organisation that gives support to people coping with pre and postnatal mental illnesses – added that while Covid-19 and lockdown do not “cause” postnatal depression, the circumstances and additional stress resulting from them could certainly contribute.

“We know that parents who have a diagnosis are particularly vulnerable during this time as their ‘normal coping mechanisms’ day to day are not able to take place,” she told Yahoo.

“Disturbance of routine, anxiety around the political and economical state have also contributed to parents with or without a diagnosis of perinatal mental illness that can create heightened anxiety and stress which can also magnify depression and low mood.”

According to the NHS, postnatal depression can affect women in different ways. It can start at any point in the first year after giving birth and may develop suddenly or gradually.

Some common symptoms include a persistent feeling of sadness and low mood, loss of interest in the world around you, lack of energy, trouble sleeping and feeling that you’re unable to look after your baby.

If you have been affected by this article, you can contact the following organisations for support: mind.org.uk, pandasfoundation.org.uk, nhs.uk/livewell/mentalhealth, mentalhealth.org.uk, samaritans.org.

Homerton Hospital leads the country with release of post-Covid recovery pack

Do Hackney Citizen (em inglês)

The information pack, collated by physiotherapist Nikki Anderton, is understood to have been widely sought after by other hospital trusts, with twelve asking if they can use it.

According to a spokesperson, the Homerton is “slowly, surely, gradually” reopening some of its wards and services, while remaining constrained by national protocols around infection control due to its size.

Surgical facilities, for example, are not yet fully operational because of their proximity to Covid wards.

Laura Graham, a specialist respiratory physiotherapist who worked on the information pack, said: “We wanted something that brings together all the symptoms that we’ve been finding patients report post-Covid in one place.

“There has been stuff produced, but it has been on breathlessness, or fatigue, or managing diet, so we wanted to put everything into one resource pack.

“It was initially in use for City of London & Hackney, but now it’s taken off and others want to use it, which is fantastic.

“There are going to be patients that have slow-stream rehab needs because of the severity of their symptoms, patients who have been in intensive care or had respiratory support.

“We’re seeing patients come out with neuromuscular issues, neurological issues, breathlessness, fatigue, there’s many different groups.

“There are patients who come out with a potentially underlying respiratory problem or complications, or patients who have chronic fatigue.

“We’re still learning, and we have been auditing the different rehab needs of patients as they are discharged.

“We understand there are patients who will be symptomatic for months before they are back to their baseline, so we wanted to give them a resource pack to say, ‘These are things you can try’.

“These are probably patients who are independent and caring for themselves, but need symptom control and advice on how to manage their symptoms while they recover up to a three-month stage.”

The booklet includes advice on how to manage respiratory problems, strategies for conserving energy, relaxation techniques, the emotional and psychological impact of having had Covid, and what to do if symptoms do not improve.

Graham’s team has been treating both patients who had to be hospitalised with the virus and those in the community who were never admitted who need information on their recovery.

Those with post-Covid symptoms are advised to seek further medical guidance after three months to see if they have longer-term impairments that need to be treated in a different way.

There have been no new diagnoses of Covid at the Homerton in the last 48 hours, with seven patients in the hospital’s Amber ward still waiting for the outcomes of tests.

As of today, there are six patients in total who are Covid-positive, with two in the intensive care unit, which is now operating normally and hosting between eight and 10 patients at any one time.

The hospital’s last death from the virus was on 24 May.

A Homerton Hospital spokesperson said: “This is significant, and a trend throughout this part of London. We’ve had no new diagnoses for 48 hours, and no deaths for nearly a month.

“The very positive news that has come nationally for treatment options going forward is with dexamethasone. As a medical leap forward, this has been found to be very effective.

“The use of this drug is another chink of light for effective treatments for those who have to go onto a ventilator. If there is a second spike, this could be quite reassuring news.

“Over the last week, we’ve started routine surgeries, which is very important, for people who have been on the waiting list for a while.

“Our acute care unit is now fully operational again, and part of our elderly care unit is slowly coming back to some sort of normality for our older patients with chronic care issues.”

The hospital is also slowly bringing patients back into wards covered by gastro, haeomotology, surgical inpatient, diabetes, endocrinology and respiratory teams.

People have to wear face masks as they move about the hospital, with any visitors either given a mask or required to have adequate face coverings of their own.

An easing of visitor restrictions is expected to take place over the next couple of weeks, as the Homerton works out protocols for designating ward staff to give visitor names to hospital security.

Wards are now slowly reopening as green ‘covid-clear’ or ‘covid-protected’ wards, with the hospital hopeful that “in due course” it will be able to welcome bookings from visitors to acute wards in a strict afternoon period.

Also expected is a further relaxation around maternity visits, with a single birth partner to be allowed to join mothers in labour, not just at delivery but at the maternity ward afterwards, as well as a relaxation for partners accompanying patients who need to receive scans.

You can find the Homerton’s post-Covid recovery pack here