Combate ao medo e ao isolamento de pacientes na linha de frente contra o novo coronavírus

Profissionais do hospital de campanha do Ibirapuera, em São Paulo, usam tecnologia para driblar os problemas de comunicação a distância e aproximar pacientes de suas famílias

Do El País

 

Comemoração de aniversário de 65 anos de Américo Cardoso Vieira, durante tratamento da covid-19 no hospital de campanha do Ibirapuera. Foto e vídeo: Seconci-SP/OSS e Arquivo familiar
Comemoração de aniversário de 65 anos de Américo Cardoso Vieira, durante tratamento da covid-19 no hospital de campanha do Ibirapuera. Foto e vídeo: Seconci-SP/OSS e Arquivo familiar

Por volta de 11h da manhã do dia 6 de maio, Raquel Fiuza Vieira, 26 anos, recebeu com alívio uma ligação do hospital de campanha do Complexo Ibirapuera, em São Paulo. Do outro lado da linha, uma assistente social e, em seguida, um médico, traziam notícias sobre seu pai, Américo Cardoso Vieira, 65. Morador do Grajaú, bairro da periferia da zona sul da capital paulista, o idoso havia dado entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Santo Amaro três dias antes, com sintomas da covid-19. Enquanto estava lá, sua família foi informada de que ele seria transferido para realizar uma tomografia, mas ninguém disse quando isso ocorreria, ou para onde o paciente iria. “Na UPA ficamos sem contato. Meu pai não pôde ficar com nada, nem celular, nem os óculos”, contou Raquel. “Meu irmão e eu passamos duas noites em claro à espera de notícias. Minha mãe só dormiu porque estava medicada.”

A jornada de Leomar Silva Santos, 29, até a unidade do Ibirapuera foi diferente da saga da família Vieira, mas o medo e a incerteza eram os mesmos. Morador da Saúde, área de classe média da zona sul da capital, logo ao sentir os primeiros sintomas ―uma falta de ar intensa após subir uma escada e uma noite sem dormir com problemas para respirar― ligou para o 156, telefone de informações da Prefeitura de São Paulo, e foi orientado a ir à unidade de atendimento mais próxima de sua casa. No caso, o Hospital São Paulo, onde fez uma tomografia e já no dia seguinte, segunda-feira, 5 de maio, foi encaminhado para a unidade do Ibirapuera. “Vi uma mulher sair para o hospital de campanha e ouvi um burburinho de que o próximo seria eu. Fiquei com medo, não sabia o que era. Pensei que estava piorando”, afirmou Leomar. Na ambulância, foi informado de que se tratava de um hospital dedicado para pacientes de baixo risco da covid-19 e se tranquilizou. No entanto, sua esposa, Beatriz Linhares Rodrigues, 20, precisou ir atrás da ambulância para descobrir o destino do marido. “Não sabia direito para onde ele estava indo”, conta. Só se acalmou quando, ao chegar, foi atendida pela equipe de comunicação.

Nas duas primeiras semanas de operação, os profissionais que estão na linha de frente do hospital de campanha do Ibirapuera estão descobrindo que, assim como o vírus, o medo e a dificuldade de comunicação também se tornaram inimigos a serem combatidos. “As pessoas chegam um pouco desesperadas. Sempre acham que o seu familiar vai morrer”, diz a médica Mônica Pinheiro, responsável técnica pelo hospital, que é uma iniciativa do Governo do Estado, mas é gerido pelo Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo (Seconci-SP).

Mônica Pinheiro, médica responsável técnica pelo hospital de campanha do Ibirapuera.
Mônica Pinheiro, médica responsável técnica pelo hospital de campanha do Ibirapuera.Divulgação Seconci-SP/OSS

A situação fica mais complicada por ninguém saber, afinal, o que é um hospital de campanha, um modelo herdado dos campos de batalha e que passou a ser utilizado em caso de grandes desastres, especialmente os humanitários. “Há muita fantasia. E quando vê que é barraca, então… Outro dia choveu e o pessoal pensou: ‘E agora’?”, conta Mônica, cujo principal desafio se tornou passar tranquilidade e confiança para as famílias e pacientes, num momento em que os casos de covid-19, e também as mortes, crescem exponencialmente em todo o Estado de São Paulo.

Desde que o hospital recebeu o primeiro paciente, em 3 de maio, o número de vítimas fatais no Estado dobrou, chegando a 5.147 óbitos nesta segunda, assim como o número de casos, que alcançou a marca de 65.995. A velocidade de contágio se reflete no número de pacientes da unidade do Ibirapuera. Até esta segunda, 320 pessoas foram atendidas. Desse total, 146 receberam alta. E 133 permanecem internados (124 em enfermaria), no hospital que tem um total de 240 vagas; nove pessoas estão em leitos de estabilização, um passo antes da UTI, onde há 28 lugares. Outras 41 pessoas foram transferidas para UTI de outros hospitais, por precisarem de cuidados ainda maiores, algo que, até este momento, foi feito sem a necessidade de se enfrentar uma fila de espera. Nenhuma morte foi registrada na unidade nessas pouco mais de duas semanas de operação.

A rotina é de um hospital que não pode se permitir rotina. “A evolução da doença é muito rápida. Temos paciente que contamos que será entubado e minutos antes ele avisa a família por telefone. Não dá para esperar para ver a evolução do quadro”, conta Mônica. “Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muito paciente entrando, mas também saindo. Uma equipe que ainda está se entrosando com os fluxos do hospital. Famílias querendo informações. Mas não é como um hospital tradicional, onde podemos operar no automático. É um ambiente estressante e emocionante”, explica Mônica.

“Quando tem muita informação, em quem você confia?”

O acesso à informação é um ativo fundamental no combate à pandemia. Mas o excesso de notícias desencontradas, especialmente em época de polarização política, acaba por se chocar com quem está na linha de frente da batalha contra o novo coronavírus. E não raro, alimentam fake news. “Algumas pessoas acham que a gente está escondendo algo; outros que a situação política pode fazer com que seu familiar não receba o melhor tratamento como o dos hospitais particulares”, afirma Mônica. “Temos que explicar: uma coisa é política, outra coisa é a saúde.”

Não à toa, a insegurança das famílias é esperada. “Quando tem muita informação, em quem você confia?”, pergunta Mônica. A médica conta que familiares e pacientes chegam falando sobre pesquisas de drogas novas no exterior, querem discutir gasometria, sabem que há uma coalizão de hospitais privados ―Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento e Oswaldo Cruz― conduzindo estudos sobre tratamento para a covid-19; e se preocupam em saber se as inovações vão chegar ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Na situação de estresse, é muito importante uma boa interação com as pessoas. E deixar claro que ninguém vai deixar o paciente morrer porque não teve acesso a protocolo. Na área médica, temos acesso a tudo”, explica.

Por outro lado, a médica sabe que a falta ―e mesmo a confusão― de informações dentro da unidade pode criar crises desnecessárias. Por isso, o hospital de campanha foi pensado com um aparato de tecnologia ―que não está disponível em unidades tradicionais do SUS, como UPAs e hospitais― para tentar dar conta da nova demanda de comunicação a distância. “Os pacientes têm internet gratuita para falar com a família, e também testamos tudo: WhatsApp, ligação telefônica ou vídeo”, explicou. Mas é por tentativa e erro. “Se o boletim por mensagem de celular não funciona, ligamos. Se o paciente está mais grave, chamamos a família por vídeo. Às vezes, falamos com até mais de um membro da família para esclarecer o que está acontecendo”, diz.

A covid-19 é uma doença solitária, que depende de isolamento severo. Mas o cenário de não ter a família por perto é uma novidade para a maioria dos profissionais de saúde, especialmente os mais jovens. Mônica lamenta que a pandemia esteja forçando um distanciamento entre os médicos e familiares. Neonatologista, ela se lembra que uma das últimas fronteiras da família nos hospitais foi rompida exatamente na sala de parto, no final dos anos 90. “A presença de um acompanhante deixa o paciente mais calmo, mesmo em caso de intercorrências, porque ele vê o que estamos fazendo. Hoje retornamos a uma situação anterior, mas, com sorte, num momento onde a tecnologia de comunicação disponível é tremenda”.

Boletim médico enviado por mensagem de celular para a família de Leomar.
Boletim médico enviado por mensagem de celular para a família de Leomar.

As falhas de comunicação aumentaram o estresse da família Vieira durante sua jornada pelo SUS. Américo não foi o primeiro paciente de sua família a pegar o vírus. Sua filha, Raquel, já havia passado cinco dias internada com a doença em um hospital particular. “Tive uma forte dor abdominal e fui internada para investigar uma infecção intestinal”. O diagnóstico se confirmou, bem como a covid-19. Quando voltou para casa, tanto seu pai, quanto sua mãe, Maria Rosangela dos Reis, também apresentavam os sintomas da doença. “Ela estava vomitando e ele perdeu o apetite de uma hora para outra. A febre deles não baixava. E eu em casa sem poder sair para ajudá-los”, disse.

Os pais passaram pelo posto de saúde, onde conseguiram atestado para se afastar do trabalho ― Américo é porteiro e Maria, babá ―, mas sem melhora, foram para a UPA, acompanhados do filho, Rafael Vieira. Américo ficou internado, enquanto Rosângela foi liberada para casa, com a receita de antibióticos. Não havia teste disponível para avaliar se ambos estavam doentes. Com a internação de Américo, a família tentou obter informação por telefone, mas foi avisada de que teria que comparecer pessoalmente, durante o horário da visita — que, na prática, não existe. “As pessoas falam para evitar aglomeração, mas às 10h estão todos os familiares na porta da UPA. Meu irmão e minha mãe chegaram cedo e foram atendidos ao meio-dia”, lembra Raquel, que já está recuperada e voltou ao trabalho de secretária. “Até hoje não entendi por que deixaram meu pai sem nenhuma comunicação. Ele saiu da UPA para o hospital regional, onde fez a tomografia, e depois foi para o de campanha, sem que soubéssemos”, lamenta. A UPA de Santo Amaro é uma organização social de saúde, também administrada por uma entidade particular, a Associação Congregação de Santa Catarina. Porém, toda comunicação está centralizada na Prefeitura, que até a publicação desta reportagem não respondeu sobre o protocolo de informações nas UPA.

A busca pela normalidade em meio ao caos mundial

Pela experiência anterior, a família acreditava que o contato seria escasso durante a internação na tenda de campanha, por isso, levou uma cartinha para tranquilizar Américo, no Ibirapuera, no dia 6 de maio. Mas foram surpreendidos. “Entregamos o celular no começo da tarde e às 17h ele nos ligou. Estava bem choroso, pensou que a gente não iria saber onde ele estava, que iríamos deixá-lo lá”, conta Raquel.

Américo, assim como Leomar, vivenciou uma experiência bastante incomum, ficar internado em uma tenda na região central e rica de São Paulo. Prerrogativa da pandemia, que fez com que uma solução sempre associada a situações de guerra ou epidemias em lugares distantes como a do Ebola, na África, de repente se espalhasse por várias cidades do mundo. Passada a tensão da transferência, foi ali que ambos puderam finalmente realizar o teste da covid-19, algo ainda escasso em todo o país, e confirmar seu diagnóstico.

Equipe de assistência social do hospital de campanha.
Equipe de assistência social do hospital de campanha.DIVULGAÇÃO SECONCI-SP/OSS

Após o trauma na entrada no SUS, foi com surpresa que os Vieiras receberam uma ligação da assistente social Adriana Pimenta, responsável pela equipe do serviço social do hospital, perguntando se poderiam fazer uma comemoração para Américo no dia 7 de maio, seu aniversário. A festa, com a participação da família pelo celular, o deixou emocionado. “Um dos nossos principais trabalhos é traçar o perfil de cada paciente, e essa atividade é feita à beira leito no hospital de campanha”, afirma Adriana. “Notamos que nossa presença no leito tem resultados positivos, pois os pacientes se sentem acolhidos e, muitas vezes, nos enxergam como uma extensão do mundo real, minimizando o motivo que os trouxe aqui”, explica a assistente social.

São essas tentativas de manter a normalidade em meio a um cenário mundial caótico, como as eventuais celebrações de aniversário, que ficam guardadas nas lembranças dos pacientes. Atitudes que trazem ânimo até para os vizinhos. Leomar se lembra do “parabéns” de Américo, que ficava numa “cabaninha” próxima a da dele. “Ele ganhou até bolo num copinho”, conta. Américo e Leomar já tiveram alta. Agora se recuperam da covid-19 em casa.

Despedida de Leomar Silva Santos do hospital de campanha.
Despedida de Leomar Silva Santos do hospital de campanha.Divulgação Seconci-SP/OSS

Mães na Quarentena

Crédito: Stephen Schildbach/Getty Images

Enquanto muitos cientistas aproveitam o isolamento social para escrever artigos e estreitar os laços de colaboração com outros pesquisadores (ver reportagem “O desafio de fazer ciência em casa), a bióloga Fernanda Staniscuaski, do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), precisa conciliar as demandas do home office com afazeres domésticos e o cuidado com os filhos – são três, com idades de 1, 4 e 7 anos. Mesmo dividindo as tarefas com o marido, boa parte de seu tempo é dedicada a auxiliar os mais velhos nas atividades escolares. “Com o fechamento temporário das escolas, as crianças estão trancadas dentro de casa 24 horas por dia e isso nos exige atenção o tempo todo. Passo as tardes com os mais crescidos, enquanto meu marido fica com o bebê.” Em situações normais, diz Staniscuaski, as crianças ficariam em escolas, creches e com as avós, enquanto os pais trabalhavam fora.

Como consequência, ela está há semanas tentando concluir um manuscrito para submetê-lo a uma revista científica. “O texto permanece intocado”, conta Staniscuaski. Mesmo assim, ela e outras pesquisadoras reservaram algum tempo para investigar como o isolamento provocado pela Covid-19 tem impactado a rotina de trabalho de cientistas que têm filhos. O estudo, em andamento, é realizado no âmbito do projeto “Parent in Science”, criado em 2017 com o propósito de discutir a maternidade no universo acadêmico brasileiro (ver Pesquisa FAPESP nº 269).

A partir de um questionário respondido, até o momento, por mais de 5 mil alunos de mestrado e doutorado, observou-se que o período de quarentena tem um peso adicional sobre a produção científica das mulheres que são mães. Do total de respondentes, 31% são homens e 69% mulheres. Dentre os que têm filhos, 26% são homens e 74% mulheres. Quando analisado o grupo de pesquisadores que disseram ter filhos, 17,4% dos homens informaram estar conseguindo trabalhar remotamente. No caso das mulheres na mesma situação, o percentual é menor: cerca de 10% declararam ter tempo para seguir desenvolvendo seus projetos de pesquisa em casa.

Quando observado o grupo dos que não têm filhos, a diferença entre mulheres e homens é menor, mas a porcentagem de homens que conseguem se dedicar à pesquisa em home office segue sendo maior (36%) do que a de mulheres (32%). “Esses dados podem ajudar a entender melhor de que maneira a nova rotina sobrecarrega as mulheres”, avalia Staniscuaski. De acordo com ela, os resultados parciais do estudo são fortes indicativos da persistente desigualdade de gênero na ciência, especificamente a dificuldade de conciliar maternidade e formação acadêmica.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Experiências das mães na quarentena serão reunidas em livro

Obra produzida pela editora Timo pretende publicar ebook com 40 depoimentos de mães sobre os primeiros 40 dias de isolamento social

Do Metro

As percepções das mães sobre a quarentena serão reunidas em livro que pretende trazer 40 relatos dos primeiros 40 dias de isolamento social. Ana Basaglia, publisher da editora Timo, que está produzindo a obra, divulgou a ideia em suas redes sociais e convidou mães em grupos de maternidade que frequenta para que escrevam sobre suas impressões, sentimentos e vivências neste período de confinamento.

“Em muitas casas, a mulher continua sobrecarregada com as demandas domésticas, os filhos e o trabalho, enquanto o marido se dedica ao home office, e ela tem pouca voz e espaço para falar sobre isso”, explica Ana. A ideia , portanto, é que o livro sirva de canal de expressão dessas mulheres, trazendo depoimentos de mães conhecidas e anônimas. “A gente entende que toda voz é importante e busca uma diversidade de perfis”, diz a publisher, conhecida pela defesa dos valores da criação com apego e pela publicação de títulos alinhados com essa proposta (como os best sellers do pediatra espanhol Carlos González).

Entre os depoimentos colhidos, há o da mãe que acabou de parir, de quem tem filhos pequenos, filhos mais velhos, de avós e de mães brasileiras que moram no exterior. “Muitas delas, ao me mandar o texto, disseram que o simples fato de parar para escrever e poder minimamente refletir sobre o que está acontecendo já foi algo maravilhoso. Veja a relevância que é perguntar a uma mãe como ela se sente e como tudo isso está reverberando nela”, ressalta a idealizadora do livro.

Leia também: Saberes em época de Pandemia: o que o seu filho realmente precisa aprender agora?

A obra colaborativa trará relatos como o da chef de cozinha Bela Gil; da jornalista Rita Lisauskas, autora do blog do Estadão “Ser mãe é padecer na internet”; das médicas de família e comunidade Denize Ornelas e Júlia Rocha; de Lígia Moreiras, editora do blog “Cientista que Virou Mãe”; de Raquel Marques, codeputada estadual (mandato coletivo da Bancada Ativista); e de Manuela d’Ávila, jornalista e política brasileira.

Ana conta que tem recebido depoimentos de mães emocionantes. “Estou muito orgulhosa e confiante que as mães vão se reconhecer, ora num momento mais disposto, ora em um processo mais reflexivo – e esse é objetivo do livro, mostrar que a gente está junto, os sentimentos são próximos e a maternidade é muito potente”, diz ela.

O livro será publicado em um e-book, ainda no mês de maio. Depois deve ganhar versão impressa e, ainda um blog que inclua todos os depoimentos de mães recebidos – e não só os 40 principais. Quem quiser mandar a sua história, pode escrever para maesnaquarentena@gmail.com .

Saiba mais no Instagram da editora Timo.

UNA-SUS tem conteúdo dedicado a COVID-19

O Sistema Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) coordenado pelo Ministério da Saúde, por meio da atuação conjunta da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES/MS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), conta com uma rede colaborativa formada atualmente por 35 instituições de ensino superior que oferecem cursos a distância gratuitamente.

Atualmente o portal reúne artigos dedicados ao coronavírus e a COVID-19.

Veja abaixo parte do conteúdo disponibilizado:

 

Acesse o site da UNA-SUS para consultar todos os artigos.

Precisão da taxa de mortalidade materna e a metodologia atualizada do NCHS: a importância de dados de qualidade

Publicado originalmente no site MATERNAL HEALTH TASK FORCE. Harvard Chan School Center of Excellence in Maternal and Child Health (em inglês)

https://web.whatsapp.com/By: Alison Dingwall, Principal Social Behavioral Scientist, MITRE; Rachel Mayer, Senior Health Systems Analyst, MITRE; Samuel Volkin, Healthcare Policy Analyst, MITRE

Alison Dingwall
Rachel Mayer
Samuel Volkin

Maternal mortality is a growing concern for women in the United States. The upward trend of pregnancy-related causes of death is alarming and requires attention to data surveillance and analysis. This commentary discusses the history of maternal mortality data quality issues and considers whether the new methodology from the National Center for Health Statistics (NCHS) within the Centers for Disease Control and Prevention (CDC) sufficiently addresses these issues and what work still needs to be done.

Acknowledging flaws in how maternal mortality data is collected and analyzed, The NCHS’ National Vital Statistics System (NVSS) suspended its publication of maternal mortality data in 2007. Since then, substantial literature emerged detailing common errors in state-level maternal mortality data collection and reporting. Based on these findings, the NCHS released an updated methodology for coding maternal deaths and applied it to 2018 maternal mortality data, which was released in January 2020.

Errors in maternal mortality data begin with inaccurate information on death certificates. The cause-of-death section of the death certificate is used to assign International Classification of Disease (ICD) codes, which contain a list of codes specific to pregnancy. According to the former NCHS 2003–2017 method for coding maternal deaths, an ICD maternal code is assigned if there is indication of pregnancy on the death certificate through any one of the three occurrences:

  1. when causes specific to pregnancy, delivery, or the puerperium are reported in the cause-of-death section of the death certificate;
  2. when pregnancy is mentioned among the medical conditions reported on the death certificate;
  3. when there is a response in the checkbox item that indicates the woman had been pregnant at the time of death or in the preceding year.

Despite the NCHS’ need for accurate death certificate data, errors in cause of death certification occur in one out of every three death certificates. Of particular concern are the lack of and inconsistencies in formal death certificate training and in the reporting of cases of maternal mortality.

The NCHS’ New Approach

The NCHS 2018 method for coding maternal deaths introduced two changes to the 2003–2017 method. In response to the common occurrence of false-positive of maternal deaths amongst women ages 45 and older, the new NCHS method limits the use of the  pregnancy checkbox to women between the ages of 10–44.

The second NCHS change intended to capture additional details related to a pregnant woman’s cause-of-death.  In the 2003–2017 method, if a pregnancy checkbox was marked, all the medical conditions reported on the death certificate would automatically be assigned maternal ICD codes. This made it difficult for NCHS scientists to discern whether the cause of death written on the death certificate was related to maternity or not, which is important information to have in order to confirm whether the pregnancy checkbox was marked correctly. With this change, the 2018 method better reflects what was recorded on the death certificate and allows NCHS scientists to flag files more easily that may have been incorrectly labeled as maternal.

Looking Forward

The changes introduced by the NCHS revised 2018 method may result in an underreporting of maternal deaths in women ages 45 and older. Incremental changes made by NCHS are important and leave the maternal health community with many outstanding opportunities to improve pregnancy-related death statistics.

The onus of improving the quality of maternal mortality data does not rest on the shoulders of the NCHS alone. The NCHS is the federal entity responsible for national mortality data. However, since local jurisdictions including states, territories, and cities own the data and have purview over both collection and reporting of vital statistics, the federal government cannot unilaterally impose a solution. Instead, federal-, state-, territory-, and city-level stakeholders could collaborate to review and improve systems used by each jurisdiction.

Local jurisdictions need to implement more rigorous and standardized death certification training to ensure accurate and reliable documentation. There must also be alignment of data reporting to NCHS and existing state-level maternal mortality review committees that review each case of maternal death. An alignment would increase the quality of data that NCHS receives. With accurate data, maternal health professionals and policy makers can be certain that they are focusing resources where needed to reduce maternal mortality rates in the United States.

Reprinted with consent from the MITRE Corporation

Saúde reprodutiva e a covid-19: o escândalo da morte materna

Não há dados oficiais sobre a morte de mulheres na gravidez causada pela covid-19. A ambiguidade da recomendação da OMS para grávidas leva a protocolos de saúde variados

Publicado originalmente no El País
Opinião de Debora Diniz, antropóloga, professora universitária, pesquisadora, ensaísta, e documentarista brasileira; e Giselle Carino é argentina, cientista política e diretora da IPPF/WHR.

Uma mulher grávida caminha em Paris.
Uma mulher grávida caminha em Paris.JOEL SAGET / AFP

Não há dados oficiais sobre a morte de mulheres na gravidez causada por covid-19. Há também incerteza científica sobre os efeitos de covid-19 nas mulheres grávidas. Melania Amorim é uma médica brasileira de beira do leito e uma pesquisadora conhecida por denunciar o horror que é a morte materna: para ela, “não há como dizer letalidade zero quando se fala de morte materna e covid-19”. Recentemente, a equipe de Amorim levantou vinte mortes de mulheres grávidas pela covid-19 no Brasil: em 45 dias ocorreram mais mortes de grávidas que todas de 2019 pelo vírus H1N1. As fontes dos pesquisadores não são estatísticas oficiais do Ministério da Saúde, mas resquícios da tragédia: trabalham com notícias de jornal que publicam a morte de mulheres que morreram de covid-19 durante a gravidez ou logo após o parto.

Rafaela da Silva de Jesus morreu 5 dias após o parto da primeira filha. Seu caso é descrito como o primeiro de morte materna no Brasil. Rafaela era professora de crianças, morava em uma cidade do interior da Bahia, onde o vírus demoraria a chegar não fosse o turismo de gente rica com trânsito internacional. Ela morreu sem ter acesso à unidade de terapia de intensiva no dia 2 de abril, quando os casos de covid-19 ainda não haviam alcançado a cifra das milhares de mortes, tornando, hoje, o Brasil um dos epicentros globais. Depois de Rafaela, já morreram Viviane Albuquerque, de 33 anos; Priscila dos Santos, de 36 anos; Aline de Oliveira, 35 anos.

A lista aumenta à medida que as notícias rompem o atacado das estatísticas que se preocupam em classificar os corpos como velhos ou pelas doenças prévias. Na multidão dos números, as histórias trágicas dessas mulheres desaparecem como um detalhe do horror da pandemia. Mas o que tornaria a morte dessas mulheres mais surpreendente que a morte de milhares de pessoas que todos os dias morrem de covid-19? O fato de que toda morte materna pode ser uma morte evitável se o acesso aos serviços de saúde ― especialmente os serviços de saúde reprodutiva ― for assegurado.

Não há estudos científicos que comprovem a relação entre gravidez e maior risco de morte materna por covid-19, e a equipe de Amorim é cautelosa em levantar os números e analisá-los à luz da frágil literatura médica internacional. As séries chinesas começam a ser revisadas em busca da correlação. Um recente estudo da Agência de Saúde Pública da Suécia calculou o risco de internação em UTI por covid-19 entre mulheres de 20 a 45 anos, grávidas e não grávidas, e os resultados sugerem que formas mais graves da doença podem ser mais frequentes entre as grávidas e puérperas. Isso significa que mulheres grávidas com covid-19 teriam maiores chances de chegarem a precisar de ventilação mecânica ou UTI. Como foi o caso de Rafaela.

Outro estudo de base populacional no Reino Unido com 427 mulheres grávidas hospitalizadas por covid-19, entre os meses de março e abril, mostrou que a maioria das mulheres grávidas hospitalizadas estava no final do segundo ou terceiro trimestre da gestação. Os resultados do estudo indicam a importância das regras de distanciamento social, inclusive no final da gravidez, além da chance reduzida de transmissão vertical do vírus da mulher para a feto. Tão importante quanto os aspectos médicos do estudo, foi a identificação de maiores riscos de adoecimento grave por covid-19 entre as mulheres grávidas negras, isto é, mulheres em maior vulnerabilidade social. Novamente, essa foi a história de Rafaela: uma mulher negra de uma região vulnerável do Brasil.

A Organização Mundial de Saúde sustenta ambiguamente que “os dados são limitados, mas atualmente não há evidência de que as mulheres grávidas estejam em maior risco de doença grave que a população em geral”. E em seguida o documento continua: “no entanto, devido a alterações em seus corpos e sistemas imunológicos, sabemos que as mulheres grávidas podem ser seriamente afetadas por algumas infecções respiratórias”. A ambiguidade da recomendação leva a protocolos de saúde variados sobre como associar a resposta ao covid-19 e necessidades permanentes de saúde reprodutiva das mulheres. A verdade é que muitos países não incorporaram saúde reprodutiva no pacote emergencial de saúde a ser oferecido em resposta à pandemia. O resultado é que descobrimos os efeitos do silêncio sobre saúde reprodutiva da maneira mais escandalosa e irreversível ― pela morte de mulheres no parto ou no puerpério.

Coronavírus: hospitais do NHS são acusados de usar a crise como motivo para negar cesáreas às mulheres

Exclusive: ‘We are concerned that in some places coronavirus is being used as an excuse to dictate to women how they should give birth,’ says human rights charity

Do Independent (em inglês)

 

Official guidance from the National Institute for Health and Care Excellence says women should be offered a caesarean section where they insist it is what they want
Official guidance from the National Institute for Health and Care Excellence says women should be offered a caesarean section where they insist it is what they want ( AFP via Getty Images )

Hospitals have been refusing requests for caesarean sections during the Covid-19 outbreak despite official guidance and NHS England advice that they should go ahead.

Multiple NHS trusts have told women preparing to give birth since March that requests for a caesarean section will not be granted due to the viral pandemic.

It has led to accusations from the charity Birthrights that the coronavirus outbreak is being used as an excuse to promote an ideology that more women should have a natural birth.

During the coronavirus crisis some women have been forced to give birth alone due to bans on partners attending hospital. Hospitals changed their policy after new visiting rules were released.

Maria Booker, from Birthrights, told The Independent: “We continue to be contacted by women being told they cannot have a maternal request caesarean and we are concerned that in some places coronavirus is being used as an excuse to dictate to women how they should give birth, which contravenes Nice [the National Institute for Health and Care Excellence] guidance.

“Women don’t choose caesarean births lightly. In the last few weeks we have been contacted by women who have heart conditions, pelvic issues, mental health conditions, and who have previously lost a baby who have all been denied caesareans.”

Official guidance from Nice says women should be offered a caesarean section where they insist it is what they want.

NHS England has warned hospitals they need to “make every effort” to avoid cancelling caesarean sections and work with neighbouring trusts to transfer women if necessary.

It said surgery should only be suspended in “extreme circumstances” where there is a shortage of obstetricians or anaesthetists.

In the UK, around one in four of all births are caesareans, including both emergency and pre-planned operations.

At Milton Keynes University Hospital a policy document seen by The Independent said requests for caesarean sections would be refused.

The standard operating procedure document, dated April, said: “Women should be advised that during the Covid period, the directorate has taken the decision not to offer elective caesarean sections for maternal request.”

It added: “It has also been agreed that when the surgeon confirms the consent for caesarean sections pre-op, they will specifically advise the women of the risks of caesarean section and women will be encouraged not to have a caesarean section for maternal request.”

In a letter to mothers at the start of the outbreak The Princess Alexandra Hospital, in Essex, warned all cases, including those already booked for a caesarean section, would be reviewed.

It added: “Unless there is a medical reason for the caesarean, please be aware that the caesarean will not be able to go ahead.”

Sharon McNally, director of nursing at the trust, said that since this letter was issued the demands on the NHS had been less than expected, adding: “We are pleased that we have subsequently not needed to cancel any elective c-sections ⁠– all C-sections have and continue to go ahead as planned.”

At Oxford University Hospitals Trust, women have routinely been referred to other hospitals when requesting C-sections, but during the coronavirus outbreak this has not been possible. The trust refused to say whether it had denied C-sections to women in recent weeks.

Pauline Hull, editor of the website Caesarean Birth, said she was contacted by a woman who had been denied a C-section by the Milton Keynes hospital.

She said: “There is no evidence that the risk for women or babies having a planned caesarean during Covid-19 is increased compared with other birth plans.

“I am aware of other women who are being told their maternal request caesarean will not be supported, at other trusts, and so I suspect there may be other policies in England like the one at Milton Keynes.”

Maria Booker added the Milton Keynes University Hospital NHS Trust had told Birthrights all the hospitals in its local maternity system, including Luton and Bedfordshire, had stopped maternal request C-sections due to perceived higher risks.

She said: “If there are increased risks, it is the duty of the trust to explain these to the pregnant woman so they can make an informed choice. Caesareans should only be withdrawn in the dire circumstances of the trust, and wider region, having insufficient capacity to provide them.”

A spokesperson for the Milton Keynes hospital said: “We carefully reviewed and adapted our procedures around maternal requests for caesarean section as a result of Covid-19, and the increased risks associated with operative delivery during the pandemic.

“We have continued to honour all maternal requests for caesareans made prior to this change in policy, where medically possible, and continue to consider requests where there is either a medical or psychological reason to have a caesarean section.”

The statement added restrictions may be lifted as the trust emerged from the coronavirus crisis.

Catherine Greenwood, clinical director of maternity at Oxford University Hospitals, said requests were considered on an individual basis and “in usual times, if no clinical indication is found, then a woman would be referred to an obstetrician at a neighbouring trust who is happy to support these requests. This is in line with Nice guidance.

“However, at the present time, all hospitals are under considerable pressure. For this reason, the referrals for caesarean section for women who have no pregnancy complications are not always accepted by our partner organisations in the way that they usually are. We very much hope to be able to reinstate the usual pathway as soon as possible.”

 

“Uso precoce” é gambiarra para salvar mito da hidroxicloroquina

Publicado originalmente no site Questão de Ciência

vírus em tela azul

À medida que a evidência científica de que o uso de hidroxicloroquina (HCQ), com ou sem o antibiótico azitromicina (AZ), no combate à COVID-19 em pacientes hospitalizados é, na melhor das hipóteses, inútil – quando não perigoso –, os apóstolos fervorosos da cura mágica abraçam, com gosto, uma manobra clássica do repertório das pseudociências: mudam de alegação, adotando uma que confunde com mais facilidade. No caso, a de que a combinação HCQ+AZ funciona sim, mas requer uso precoce, “bem no início dos sintomas”, antes que se faça qualquer exame diagnóstico.

O recuo é maroto por uma série de motivos, alguns dos quais estão entre os que tornam inválido o suposto “estudo” conduzido pelo grupo Prevent Senior sobre o assunto. Vamos citar apenas dois, para não esticar muito a conversa.

Primeiro, se você não tem diagnóstico fechado, você não sabe o que está tratando – ainda mais no caso de uma doença como COVID-19, cujos sintomas iniciais confundem-se facilmente com gripes, resfriados, infecções de garganta ou alergias. Logo, não é correto afirmar, caso os sintomas desapareçam após o uso do medicamento, que foi o “uso precoce de HCQ” que curou a COVID-19. Ninguém sabe nem se era mesmo COVID-19!

Segundo, sintomas de gripes, resfriados, alergias, e da própria COVID-19, tendem a desaparecer por conta própria na maioria das vezes. Atribuir o alívio à HCQ tem tanta lógica quanto atribuí-lo ao café da manhã ou à música que tocou no rádio meia hora antes do último espirro. Sem estudos observacionais bem conduzidos, é impossível determinar quais medidas ou comportamentos poderiam, de fato, ter afetado o resultado; sem estudos clínicos bem controlados, é impossível determinar, entre os candidatos, qual (ou quais) realmente foram importantes.

Resumindo: o uso precoce, logo aos primeiros sintomas e na ausência de diagnóstico, é a receita ótima para dar a impressão de que o remédio funciona, mesmo que ele não sirva para nada. Não apenas cidadãos comuns, mas também médicos dedicados podem cair nessa.

A promoção do uso “precoce” vem circulando de diversas formas nas redes sociais. Consta, por exemplo, de uma lista de recomendações de automedicação (que, como de costume, vem acompanhada de um alerta cínico sobre os perigos da automedicação) que circula no Facebook sob o nome de “Protocolo de Marselha”.

Pelo menos uma das postagens a que tivemos acesso já havia sido compartilhada, entre 5 e dez de maio, mais de uma centena de vezes. “Marselha”, claro, é o nome da cidade francesa em que atua o pesquisador francês Didier Raoult, de péssima reputação, que numa série de artigos científicos de qualidade abissal teria demonstrado a eficácia da combinação HCQ+AZ contra o novo coronavírus.

 

Células

Tenta-se encontrar uma justificativa teórica para o uso precoce da HCQ com base nas supostas atividades antivirais desse fármaco. A tese é de que, usando o medicamento logo após o aparecimento dos primeiros sintomas, ou de forma profilática, seria possível impedir a replicação do vírus, levando a uma resolução rápida da doença.

Ainda não existe um estudo completo, bem conduzido, sobre os efeitos da HCQ, ou HCQ+AZ, em pacientes de COVID-19 cujos sintomas ainda são recentes. Mas já há diversas linhas de pesquisa bem desenvolvidas que sugerem, fortemente, que assim como no caso dos pacientes hospitalizados, o tratamento é inútil, se não perigoso.

O caminho normal de um medicamento começa na bancada do laboratório, com cultura de células, o que chamamos de etapa “in vitro”. Antivirais começam a ser testados aqui, geralmente em células comuns e fáceis de cultivar, chamadas VERO, originárias de rins de macacos. Há estudos que mostram a HCQ funcionando bem nesta fase para uma série de viroses, incluindo COVID-19. O problema é que ela fracassou em todas as etapas seguintes.

Um grupo de cientistas franceses, incluindo membros da Inserm, um órgão público de fomento à pesquisa biomédica e de saúde pública, publicou recentemente um estudo que testou a HCQ contra COVID-19 em células específicas do sistema respiratório, aquelas que o vírus SARS-CoV-2 realmente ataca, e não mais células genéricas. Nas células específicas, o efeito antiviral desapareceu.

Para quem acompanha a literatura, isso não é surpresa. Sabemos que o mecanismo de entrada do vírus em células VERO é diferente do usado para penetrar as células-alvo, do trato respiratório. Nas células VERO, o único caminho para o vírus é uma via dependente da acidez do meio, chamada via de endossomo. Aqui, a HCQ, ao alterar o nível de acidez, bloqueia o vírus. Já nas células do sistema respiratório existe uma entrada que é independente desse fator. Essa segunda via, inclusive, é descrita como a responsável pela maior severidade da doença.

Mesmo falhando na cultura de células, seguiu-se para testes em macacos. Os animais foram inoculados com o vírus SARS-CoV-2 e desenvolveram sintomas da doença. Os autores testaram a HCQ, em combinação ou não com azitromicina (o tal “Protocolo de Marselha”), e compararam seu efeito ao de um placebo. Utilizaram regimes de doses diferentes, fizeram a intervenção de forma profilática, e também no início do pico viral; logo após o pico viral; e ainda, após o aparecimento de sintomas graves. Ou seja, cobriram todas as fases da doença.

O resultado, infelizmente, foi desfavorável para a HCQ. Não foram observados redução de sintomas ou da quantidade de vírus no corpo dos animais em nenhum momento, nem com uso profilático, nem com uso precoce. Os autores concluem que a HCQ não deve ser usada como um antiviral para COVID-19.

 

Lúpus e artrite

Outra alegação feita pelos proponentes do “Protocolo de Marselha” – e que seria, assim como o efeito antiviral em células VERO, parte da lógica por trás do uso da HCQ contra a COVID-19 – é de que pacientes com lúpus ou artrite reumatoide, que usam HCQ rotineiramente para controlar essas doenças autoimunes, estariam protegidos da COVID-19, ou não evoluem para casos graves da doença. Mas essa afirmação é falsa.

A Aliança Global de Reumatismo reuniu dados sobre pacientes em tratamento com HCQ que foram acometidos por COVID-19. O estudo identificou cerca de 200 pacientes com lúpus e artrite reumatoide nessas condições, alguns dos quais se tratavam normalmente com HCQ, e outros que não.

A taxa de hospitalização foi a mesma entre os que usavam e não usavam HCQ. O uso de ventilação e necessidade de intubação também foram equivalentes nos dois grupos, mostrando que o uso constante de HCQ não protegeu esses pacientes, nem impediu que evoluíssem para forma grave da doença.

Um argumento possível é de que a dose habitual, usada por pacientes de doenças autoimunes, não seria suficiente para atingir o efeito antiviral observado “in vitro” (e, vamos lembrar, só em células genéricas, não no tipo de célula que o vírus realmente ataca). Mas nem no trabalho feito em animais, onde foram testadas concentrações crescentes, houve algum efeito. O que se viu nos macacos foi danos nos rins e no fígado.

Frente a novas evidências, o bom cientista altera suas convicções e atitude. O pseudocientista, no entanto, cria distrações e inventa desculpas. Quando saíram os primeiros trabalhos com resultado negativo, culparam a falta de azitromicina; depois, o erro estava na dosagem. Agora, o crucial mesmo é o momento de usar. Qual será a próxima?

 

Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro “Ciência no Cotidiano” (Editora Contexto)

Carlos Orsi é jornalista e editor-chefe da Revista Questão de Ciência e e coautor do livro “Ciência no Cotidiano” (Editora Contexto)

UNFPA lança Podcast 2 – Gravidez e direitos reprodutivos em tempos de pandemia

O Fundo de População da ONU disponibilizou nas principais plataformas de streaming o segundo episódio do podcast “Fala, UNFPA”: Gravidez e direitos reprodutivos em tempos de pandemia.

Nesse episódio, são discutidos os direitos reprodutivos e como garanti-los em momentos de emergência, como a pandemia da COVID-19. Uma das convidadas do episódio é a oficial em Saúde Sexual e Reprodutiva do Fundo de População da ONU, Anna Cunha, que explica o que são os direitos reprodutivos e como serviços de saúde, governos e sociedades precisam estar preparados para garantir a saúde reprodutiva, materna e neonatal durante a pandemia.

A doula Gabriela Falcão, de Brasília, relata como está sendo sua experiência ao enfrentar a terceira gravidez durante a COVID-19. Também participa do episódio, a obstetriz Glauce Soares do colegiado da ReHuNa, que trabalha em uma maternidade pública de Osasco, na grande São Paulo, e tira dúvidas relacionadas a gravidez e parto nesse período.

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