Especialistas falam como pais podem ajudar crianças a entender a pandemia

Privados da rotina e do contato com os amigos, crianças demandam atenção dos pais para ajudá-las a compreender o que se passa no mundo

Do Correio Braziliense

Adriana de Carvalho tem se desdobrado para entreter o filho, Arthur, mas o garoto sente muita falta da escola e dos amigos(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Adriana de Carvalho tem se desdobrado para entreter o filho, Arthur, mas o garoto sente muita falta da escola e dos amigos (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

As quatro paredes do lar representam a estimada segurança em tempos de caos. Entretanto, podem parecer uma prisão aos que não compreendem a razão de não ir além delas. A pandemia apresentou a todos um novo mundo, e as dinâmicas da sociedade passam por uma reestruturação. Algo difícil de engolir para os adultos, mas um verdadeiro castigo às crianças, que estão privadas de suas atividades.

Parte determinante para a construção de um emocional saudável, a interação social é indispensável aos pequenos, conforme explica o médico psiquiatra Luan Diego Marques. “O contato humano é uma das ferramentas importantes para aquisição de sensação de realização e prazer. Quando não é desenvolvida, o indivíduo, ao observar o mundo ao seu redor, vai sentir que não possui habilidade para participar dele. Isso será gatilho para desenvolver transtornos, como depressão e ansiedade.”

O cuidado com a saúde mental merece atenção ainda maior durante momentos de estresse generalizado, como o da quarentena. “A vivência em família gera situações que se retroalimentam, sobretudo, com pais que não sabem lidar com suas emoções e servem de espelho aos filhos. Assim, privadas da rotina com os amigos, as crianças se estressam e os pais também, virando um ciclo vicioso”, detalha Luan.

Para manter as crianças distraídas, muitos pais se aproveitam da tecnologia para também conseguirem dar conta de suas obrigações. O imediatismo nas respostas do mundo virtual, porém, pode formar crianças ansiosas. “As telas têm estímulos muito acelerados, isso ajuda na liberação de noradrenalina e dopamina. Toda criança deseja estar à distância de um clique, então, ela começa a exigir respostas muito rápidas do mundo e dos pais. O que pode parecer uma saída, a longo prazo, pode gerar distúrbios de ansiedade”, explica o psiquiatra.

Saudade

A quebra repentina na rotina da criançada deixou uma enorme sensação de vazio para os que entendem o que vem acontecendo no mundo e, também, aos muito pequenininhos, que só querem um amiguinho para dividir o tempo. “Eu gosto de ir para a escola com minha professora e meus amigos. Não gosto de ficar o dia todo em casa”, contou Louise Cordeiro, de apenas 3 anos.

Louise é a filha mais nova de Yohanna Cordeiro, 28 anos, professora de inglês e educadora perinatal. “Ela tem sentido muita falta, principalmente de encontrar os amigos, e não dispõe de meios para vê-los. No grupo de pais da escolinha, nós tentamos estabelecer videochamada entre os bebês, mas, como cada pai tem um horário, não deu certo. Nós gravamos vídeos e mandamos para que cada um mostre ao filho, mas não é a mesma coisa que a interação em tempo real”, conta a mãe.

Lamentando a situação, a pequenininha diz que “não tem como brincar agora” e garante que, quando tudo voltar à normalidade, vai “brincar de parquinho e depois lanchar” com os coleguinhas. A irmã de Louise, Michelle Cordeiro, 9 anos, tem mais sorte e consegue estabelecer contato com os amigos. “Nós jogamos on-line quase todos os dias para matar a saudade e conversamos bastante no grupo do WhatsApp”, conta.

Para a psiquiatria, o momento exige constante conversa com os filhos para situá-los nestas mudanças. “O adulto lê as notícias e racionaliza. Cognitivamente, ele alcança a mensagem. As crianças, não; elas não sabem a razão de ter de ficar em casa e longe das pessoas que gosta. Ela vai perceber que está privada da socialização com os amigos, mas precisa entender o porquê”, explica Luan.

Michelle cursa o 4º ano do ensino fundamental e já compreende o afastamento social e de suas atividades. “Eu não estou gostando, mas sei que é importante ficar em casa agora. Sinto falta de pular corda, jogar bola e conversar pessoalmente. Nós estamos aguardando a pandemia acabar para fazer uma festa do pijama, ainda não sabemos na casa de quem, mas vai ter festa”, planeja, esperançosa, a menina.

Recursos

Para o psiquiatra Luan Marques, o contato entre a criançada deve ser mediado pelos pais, para que não cesse. “Adultos e crianças conversam em linguagens diferentes. Muitas vezes, somente uma criança entenderá o que a outra diz. Portanto, mesmo com a dedicação dos pais, eles não suprirão a necessidade de socializar do filho. Assim, mesmo que comedidamente, deve oferecer recursos para que eles conversem com os primos e amigos da mesma idade.”

Privado de contato com os amigos, Arthur Cassimiro, 7 anos, tem se chateado bastante em casa. “É ruim ter aula on-line, eu sinto falta de brincar com eles, sinto falta da aula, eu só quero voltar para a escola. Voltar para a natação, para o futebol e de fazer tudo isso com meus amigos.” A mãe de Arthur, Adriana de Carvalho, 28 anos, lamenta o pouco contato entre os pais da comunidade escolar. “A gente não conversa muito, então, acaba que cada criança fica para o seu lado”, diz.

Adriana faz o que pode, e dedica bastante atenção ao filho. “A rotina escolar foi mantida e eu acompanho todas as aulas para auxiliá-lo, pois ainda está em fase de alfabetização. Nós moramos em casa, então, também reservo uma parte do tempo para ficar com ele no quintal e na piscina. Apesar de estar sempre presente, ele reclama cotidianamente da falta dos amigos e da escola, pois a interação que eles têm é somente pelo chat da aula”, conta.

Esperando por dias melhores, o menino diz ter planos com os amigos para concretizar no período pós-pandemia. “ Quando acabar esse coronavírus, nós vamos convidar um para vir à casa do outro. Queremos fazer as festinhas de aniversário para comemorar e brincar juntos. Essas são as coisas que a gente gosta de fazer”, narra Arthur.

Eletrônico controlado

Seguindo o conselho de reduzir o acesso às mídias digitais pela garotada, Maurício Santos, 29 anos, tem aberto exceções à filha durante o isolamento. “Nós somos contra o uso abusivo de celular, tanto que nossa filha nem tem aparelho. Mas, como ela não pode se encontrar com os familiares e amigos, nós deixamos que ela faça videochamadas para os primos e para a melhor amiga”, diz o estudante de gastronomia.

A filha de Maurício, Manuela Gaspar, de 7 anos, uma menina que “gosta da bagunça”, segundo o pai, assiste às aulas pela internet, mesmo não gostando muito da distância da sala de aula. “A internet trava, e os slides ficam carregando. Não gosto. Eu sinto muita saudade dos meus amigos e da professora. Acaba que a gente só conversa no chat da aula, e a tia Cris (a professora) nem sempre deixa”, diz Manu.

Contrário ao excesso de tecnologia, Maurício Santos tem aberto exceções para Manuela conversar com parentes e amigos(foto: Arquivo Pessoal)
Contrário ao excesso de tecnologia, Maurício Santos tem aberto exceções para Manuela conversar com parentes e amigos (foto: Arquivo Pessoal)

No regresso à rotina, Manuela já planejou as brincadeiras. “Eu pretendo brincar muito de umas brincadeiras bem doidas. Quero ir ao pátio da escola, à sala de informática e à sala de artes, onde a gente pinta e desenha muito. Depois de brincar de tudo que a gente costumava, eu quero comprar um lanche e dividir com as minhas amigas. Sinto falta de me encontrar com elas e conversar”, conta.

O último conselho que Luan deixa aos pais é introduzir atividades de foco aos filhos, para acalmá-los durante a quarentena. “Há na internet uma série de meditações guiadas para a garotada, também aulas de ioga. Isso colocará a criança em contato com ela e com os pais, uma interação muito importante. Mas essa atividade nova deve ser apresentada em um momento prazeroso, assim ela associará a nova atividade a algo bom”, explica o psiquiatra.


De olho na molecada
A Sociedade Brasileira de Pediatria elaborou um manual para mediar o uso de ferramentas tecnológicas para as crianças. Pais devem ficar atentos: 

» Crianças de até 2 anos
Não é indicado fazer uso de nenhum aparelho tecnológico.

» Crianças de 2 a 5 anos
Limitar o uso destes equipamentos para o máximo de uma hora diária.

» Crianças até 10 anos
Não fazer uso de televisão ou computador no próprio quarto.

» Adolescentes
Não devem ficar isolados em seus quartos nem ultrapassar as horas saudáveis de sono, de oito a nove horas por noite. Além de realizar uma hora de atividade física por dia.

» Crianças menores de 6 anos
Não devem ser expostas a conteúdos violentos, pois ainda não conseguem separar a fantasia da realidade. É importante monitorar a classificação indicativa do conteúdo que o filho consome na televisão, na internet e nos jogos on-line e videogame. Estimular a criança a participar de atividades em família, de lazer, educativas e de socialização familiar.

Números oficiais sobre grávidas com covid-19 estão longe da realidade, dizem pesquisadores

Pesquisa revela dobro de mortes contabilizadas pelo Ministério da Saúde; epidemia afeta mais gestantes pretas e pardas.

O único documento do ministério com números mais detalhados sobre grávidas na epidemia é um boletim epidemiológico divulgado em 29 de maio. O levantamento é feito a partir de dados do Sivep-Gripe coletados entre 16 de fevereiro e 23 de maio. Segundo o sistema de vigilância em saúde, nesse período, foram notificados 52.335 casos hospitalizados de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) confirmados para covid-19, sendo 521 (1%) em gestantes. Desse total, 36 evoluíram para óbito.

“Na mesma época correspondente aos 36 casos referidos pelo Ministério da Saúde, conseguimos por outras metodologias levantar 62 casos”, afirmou Melania Amorim ao HuffPost Brasil. A metodologia usada pelo Grupo Brasileiro de Estudos de Covid-19 e Gravidez inclui recuperar dados do ministério, buscar informações com as secretarias de Saúde e rastrear casos noticiados pela imprensa ou que chegam por um e-mail da equipe. Só entram na conta casos notificados por alguma autoridade sanitária.

O levantamento independente inclui duas mulheres que morreram em casa sem ter tido tempo de chegar ao serviço de saúde, mas que tiveram covid-19 comprovada, de acordo com Amorim. A diferença nos números se deve a falhas na atuação do governo federal, segundo a pesquisadora. “Está havendo um sub-registro de notificações por parte do ministério que não está conseguindo consolidar essas informações em tempo hábil”, afirmou.

No âmbito da pesquisa, a obstetra sustenta que o ideal para de fato investigar como a epidemia afeta as grávidas seria ter acesso aos prontuários. Com isso, seria possível, por exemplo, mapear de forma mais precisa a frequência de comorbidades, como diabetes e hipertensão arterial, nesse grupo. “A gente deixa de ter acesso aos dados individuais, que seria a metodologia mais adequada para ver os itinerários que essas mulheres percorreram, identificar em que momento da assistência ocorreu falha ou atraso e poder fazer recomendações mais adequadas”, explicou, sobre a atual contagem feita pelo governo.

Segundo a pesquisadora, quando o Brasil somava 62 mortes de grávidas por covid-19, dados publicados por outros países eram muito menores: 2 no México, 7 no Irã, 5 no Reino Unido e um nos Estados Unidos. “Existe um problema muito sério no Brasil que não é descrito na maioria dos países e neste momento a pandemia está revelando uma face perversa que é esse número desproporcionalmente alto de morte materna por covid-19”, afirmou Amorim.

“A pandemia está revelando uma face perversa que é esse número desproporcionalmente alto de morte materna por covid-19.”
Obstetra e ginecologista Melania Amorim, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)

Mortalidade materna no Brasil

Ainda não há explicações precisas para explicar a diferença desses números entre os países por enquanto, segundo pesquisadores. A alta taxa de mortalidade materna no Brasil já era uma preocupação antes da pandemia. O indicador representa o total de óbitos que ocorrem durante ou até 42 dias após o parto e com causa relacionada à gravidez divididos por 100 mil nascidos vivos no local. Em 2018, a taxa foi de 59,1.

A meta estabelecida em um pacto fixado pela ONU (Organização das Nações Unidas) era limitar o indicador a 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015. Cerca de 92% desses mortes são evitáveis e ocorrem principalmente por hipertensão, hemorragia, infecções e abortos provocados.

Em 2018, mulheres de raça/cor preta e parda totalizaram 65% dos óbitos maternos, segundo o Ministério da Saúde. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2015, os brasileiros que se declaram pretos ou pardos somavam 53,92%.

Também é possível observar que grávidas pretas e pardas estão mais vulneráveis ao novo coronavírus ao analisar o boletim do ministério, ainda que os dados estejam incompletos.

Em 2018, mortalidade materna foi de 59,1 a cada100 mil nascidos vivos no
Em 2018, mortalidade materna foi de 59,1 a cada100 mil nascidos vivos no Brasil. Callaghan O’Hare / Reute

Grávidas negras estão mais vulneráveis

Das 521 gestantes internadas com covid-19, foram excluídas 36 (6,9%) com idade maior ou igual a 50 anos e uma (0,2%) com faixa etária em branco, totalizando 484 gestantes analisadas. Para as análises sobre evolução de alta ou óbito apenas 288 foram considerados, pois 196 casos ainda apresentavam a variável “evolução” em branco (não preenchida) ou ignorada.

Desses 288 casos, 72 tiveram a informação sobre raça/cor ignorada ou em branco, de modo que só é possível fazer essa análise considerando 216 registros. Nesse grupo, das 141 gestantes negras (pretas ou pardas) hospitalizadas, 121 (85,8%) evoluíram para alta e 20 (14,2%) para óbito. Das 72 gestantes brancas, em 67 casos (93%) o desfecho foi a alta e 5 (7%) de óbito.

“Apesar da incompletude dos dados, observa-se que a proporção de gestantes brancas que evoluíram para cura é maior que aquela observada para mulheres pardas ou pretas”, afirmou ao HuffPost Brasil Fernanda Lopes, doutora em Saúde Pública pela USP (Universidade de São Paulo) e membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Estudos realizados no Reino Unido e nos Estados Unidos indicam maior proporção de mortes maternas relacionadas ao novo coronavírus em mulheres negras e outros grupos étnico-raciais minoritários, quando comparadas às mulheres brancas, “em especial em função de diagnóstico tardio e/ou assistência inadequada”, completou a pesquisadora.

No Brasil, as estatísticas oficiais do governo federal não permitem saber quem são essas mulheres que se recuperaram ou morreram. “Não sabemos se elas tinham comorbidades (obesidade, diabetes, hipertensão), não sabemos o trimestre de gestação. Não sabemos se o acesso ao serviço hospitalar foi tempestivo, se o serviço estava preparado para atendê-las adequadamente do ponto de vista de infraestrutura e preparo técnico, não sabemos também se elas foram vítimas de algum tipo de omissão ou negligência”, afirma Lopes.

A pesquisadora também lembra que diversos estudos realizados em um contexto sanitário pré-pandemia apontam dificuldades de acesso e falta de qualidade na atenção dedicada às mulheres negras, grávidas ou não. “No contexto da pandemia, as limitações impostas a todo o sistema podem agravar a operação do racismo nas instituições de saúde, tornando a qualidade da assistência prestada à população negra ainda pior”, completou Lopes.

Entre as pesquisas que apontam para o racismo institucional no contexto da epidemia, uma publicação do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde mostra que a chance de pretos e pardos sem educação formal morrerem devido ao novo coronavírus é 4 vezes maior do que de brancos com nível superior. O levantamento foi feito por pesquisadores da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), da USP (Universidade de São Paulo) e do IDOR.

“No contexto da pandemia, as limitações impostas a todo o sistema podem agravar a operação do racismo nas instituições de saúde, tornando a qualidade da assistência prestada a população negra ainda pior.”
Fernanda Lopes, doutora em Saúde Pública pela USP e membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Abrasco

Falta de informações na saúde

Sobre a falta de dados raciais no boletim do ministério, se o paciente chega ao serviço de saúde em condições de responder às perguntas, ele deve declarar sua cor. Senão, o acompanhante o faz. No entanto, na maioria das vezes os profissionais não fazem essa pergunta e atribuem ao usuário a cor que acreditam que a pessoa tenha, de acordo com Lopes. “O pertencimento racial só pode ser definido pela própria pessoa pois a forma como ela se vê no mundo não necessariamente está refletida no modo como o mundo a vê”, afirmou.

As lacunas dificultam a análise do quadro sanitário e, por consequência, a resposta ao problema. O ginecologista e obstetra José Paulo Pereira Junior, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) critica a falta de transparência e organização do Ministério da Saúde na pandemia em geral. “O que a gente tem debatido muito é ter uma base de dados confiável que todos nós pudéssemos usar”, afirmou ao HuffPost.

“A gente está em meados de junho e ficou sem dados no meio do caminho. Essa confusão toda que a gente tem visto em relação a horário de divulgação [de boletins epidemiológicos], tipo de divulgação, mudança de boletim, confundem mais do que facilitam, e a gente não pode fazer programação de saúde pública se não tiver claramente com esses dados abertos e passíveis para serem discutidos por todos”, completou o médico.

O obstetra faz parte da equipe do IFF/Fiocruz que está fazendo um estudo para acompanhar gestantes e puérperas em meio à pandemia. A estimativa é que cerca de 300 pacientes participem da pesquisa que deve ter resultados em 3 meses. Todas as grávidas internadas no hospital fazem teste RT-PCR para saber se estão contaminadas, assim como os bebês, que seguem em acompanhamento para que seja observado se há algum problema a médio ou longo prazo.

A epidemia de zika, iniciada em 2015 no Brasil, por exemplo, levou à síndrome congênita do zika nos bebês de mães infectadas. Até o momento, não há evidências científicas de transmissão vertical do vírus. Por isso, a amamentação é recomendada, ainda que com cuidados, como lavar as mãos e o bico do seio, colocar máscara para amamentar e colocar pano entre bebê e paciente para evitar contaminação acidental no pós-parto.

As dúvidas sobre o efeito do novo coronavírus nas grávidas são parte das incertezas sobre o patógeno em geral. “A gente tem uma doença que tem 5 meses e, de uma maneira bastante honesta, a gente sabe muito pouco sobre ela na população geral”, afirma Pereira Junior.

“A gente tem uma doença que tem 5 meses e de uma maneira bastante honesta, a gente sabe muito pouco sobre ela na população geral”, afirma Pereira Junior, da Fiocruz. Luis Alvarenga via Getty Images

Gravidez como fator de risco para covid-19?

Desde abril, o Ministério da Saúde passou a considerar gestantes como parte do grupo de risco para covid-19. O mesmo passou a se aplicar às puérperas, nome dado às mulheres que estão passando pelo chamado “puerpério”, período que contempla cerca de 45 dias após o parto.

A orientação da pasta é que a assistência à saúde deve ser organizada de modo a garantir os atendimentos a mulheres e recém-nascidos enquanto durar a crise sanitária, considerando o manejo adequado nos casos suspeitos de covid-19 nas gestantes e puérperas.

A realidade, contudo, nem sempre é essa. Em algumas cidades, optou-se por diminuir o número de consultas de pré-natal no primeiro e segundo trimestre.

A gente tem uma doença que tem 5 meses e de uma maneira bastante honesta, a gente sabe muito pouco sobre ela na população geral.
Ginecologista e obstetra José Paulo Pereira Junior, do IFF/Fiocruz

O que as pesquisas identificaram até agora é que estar grávida não é um fator de risco por si só, porém a gravidez pode estar associada em alguns casos a comorbidades que são fatores de risco. É o caso de diabetes, hipertensão e obesidade, por exemplo.

Por esse motivo, o terceiro trimestre de gestação costuma ser mais crítico para a covid-19. Das 288 gestantes internadas com a doença, 168 (66,7%) das que evoluíram para alta estavam no terceiro trimestre. E 22 (61,1%) dos óbitos também estavam nessa etapa da gravidez. Vale destacar que o registro de 13 pacientes com alta não tinha essa informação, assim como o de duas mortes, segundo o boletim do Ministério da Saúde. Dos 36 óbitos contabilizados no boletim, 29 tinham alguma comorbidade.

“As pacientes no terceiro trimestre têm algumas características. O próprio volume abdominal, por exemplo, dificulta que a pessoa respire normalmente. As pernas já incham. É também nessa época que a gente vê a piora de algumas doenças. Se você olhar as comorbidades [das gestantes que morreram por covid-19], cardiopatia, diabetes, hipertensão e obesidade, são fatores de risco para grávidas, mas também para o novo coronavírus”, explica Pereira Junior.

O obstetra também lembra que a gravidez pode ser um desafio para a doença porque alguns medicamentos não podem ser usados em função do bebê.

Na semana passada, o Ministério da Saúde ampliou a recomendação do uso da cloroquina e hidroxicloroquina para incluir grávidas com sintomas de covid-19. Não há comprovação científica do uso da droga para tratar o novo coronavírus.

Antes da recomendação, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) havia afirmado que não existem estudos demonstrando efetividade ou segurança no uso da hidroxicloroquina ou cloroquina para o gestantes e que o tratamento deve “considerar a gravidade do quadro clínico materno e a terapêutica deve ficar a critério do médico assistente, em decisão compartilhada com a gestante”. A organização não se pronunciou após o anúncio do governo federal.

Na avaliação de Melania Amorim, há condições em que a cloroquina pode ser prescrita para grávidas, como no caso de malária, porém não se aplica à covid-19 por não haver comprovação científica para esse uso.

Postnatal depression has almost tripled during coronavirus pandemic, study finds

‘The social and physical isolation measures are taking a toll on the mental health of many of us,’ says researcher

Do Independent (em inglês)

Depression among expectant and new mothers has almost tripled during the coronavirus pandemic, new research has found.

The study, which was conducted by the University of Alberta in Canada, showed that the number of women reporting symptoms of maternal depression has increased to 41 per cent compared to 15 per cent before the outbreak began.

In addition, the number of women expediting moderate to high anxiety symptoms has risen from 29 per cent to 72 per cent.

The survey included 900 women, 520 of whom were pregnant and 380 of whom had given birth in the past 12 months, and each participant was asked about their depression and anxiety symptoms before and during the pandemic.

Pregnant women and those who have recently given birth are already at a greater risk of depression and anxiety, with around one in seven struggling with symptoms just after having a baby.

However, the researchers found that the global health crisis has exacerbated those struggles, with the likelihood of maternal depression and anxiety having “substantially increased”.

“The social and physical isolation measures that are critically needed to reduce the spread of the virus are taking a toll on the physical and mental health of many of us,” explains Dr Margie Davenport, co-author of the study.

“We know that experiencing depression and anxiety during pregnancy and the postpartum period can have detrimental effects on the mental and physical health of both mother and baby that can persist for years.”

Dr Davenport added that effects of maternal depression can include premature delivery, reduced mother-baby bonding, and developmental delays in infants.

Annie Belasco, head of charity at the PANDAS Foundation – an organisation that gives support to people coping with pre and postnatal mental illnesses – added that while Covid-19 and lockdown do not “cause” postnatal depression, the circumstances and additional stress resulting from them could certainly contribute.

“We know that parents who have a diagnosis are particularly vulnerable during this time as their ‘normal coping mechanisms’ day to day are not able to take place,” she told Yahoo.

“Disturbance of routine, anxiety around the political and economical state have also contributed to parents with or without a diagnosis of perinatal mental illness that can create heightened anxiety and stress which can also magnify depression and low mood.”

According to the NHS, postnatal depression can affect women in different ways. It can start at any point in the first year after giving birth and may develop suddenly or gradually.

Some common symptoms include a persistent feeling of sadness and low mood, loss of interest in the world around you, lack of energy, trouble sleeping and feeling that you’re unable to look after your baby.

If you have been affected by this article, you can contact the following organisations for support: mind.org.uk, pandasfoundation.org.uk, nhs.uk/livewell/mentalhealth, mentalhealth.org.uk, samaritans.org.

Homerton Hospital leads the country with release of post-Covid recovery pack

Do Hackney Citizen (em inglês)

The information pack, collated by physiotherapist Nikki Anderton, is understood to have been widely sought after by other hospital trusts, with twelve asking if they can use it.

According to a spokesperson, the Homerton is “slowly, surely, gradually” reopening some of its wards and services, while remaining constrained by national protocols around infection control due to its size.

Surgical facilities, for example, are not yet fully operational because of their proximity to Covid wards.

Laura Graham, a specialist respiratory physiotherapist who worked on the information pack, said: “We wanted something that brings together all the symptoms that we’ve been finding patients report post-Covid in one place.

“There has been stuff produced, but it has been on breathlessness, or fatigue, or managing diet, so we wanted to put everything into one resource pack.

“It was initially in use for City of London & Hackney, but now it’s taken off and others want to use it, which is fantastic.

“There are going to be patients that have slow-stream rehab needs because of the severity of their symptoms, patients who have been in intensive care or had respiratory support.

“We’re seeing patients come out with neuromuscular issues, neurological issues, breathlessness, fatigue, there’s many different groups.

“There are patients who come out with a potentially underlying respiratory problem or complications, or patients who have chronic fatigue.

“We’re still learning, and we have been auditing the different rehab needs of patients as they are discharged.

“We understand there are patients who will be symptomatic for months before they are back to their baseline, so we wanted to give them a resource pack to say, ‘These are things you can try’.

“These are probably patients who are independent and caring for themselves, but need symptom control and advice on how to manage their symptoms while they recover up to a three-month stage.”

The booklet includes advice on how to manage respiratory problems, strategies for conserving energy, relaxation techniques, the emotional and psychological impact of having had Covid, and what to do if symptoms do not improve.

Graham’s team has been treating both patients who had to be hospitalised with the virus and those in the community who were never admitted who need information on their recovery.

Those with post-Covid symptoms are advised to seek further medical guidance after three months to see if they have longer-term impairments that need to be treated in a different way.

There have been no new diagnoses of Covid at the Homerton in the last 48 hours, with seven patients in the hospital’s Amber ward still waiting for the outcomes of tests.

As of today, there are six patients in total who are Covid-positive, with two in the intensive care unit, which is now operating normally and hosting between eight and 10 patients at any one time.

The hospital’s last death from the virus was on 24 May.

A Homerton Hospital spokesperson said: “This is significant, and a trend throughout this part of London. We’ve had no new diagnoses for 48 hours, and no deaths for nearly a month.

“The very positive news that has come nationally for treatment options going forward is with dexamethasone. As a medical leap forward, this has been found to be very effective.

“The use of this drug is another chink of light for effective treatments for those who have to go onto a ventilator. If there is a second spike, this could be quite reassuring news.

“Over the last week, we’ve started routine surgeries, which is very important, for people who have been on the waiting list for a while.

“Our acute care unit is now fully operational again, and part of our elderly care unit is slowly coming back to some sort of normality for our older patients with chronic care issues.”

The hospital is also slowly bringing patients back into wards covered by gastro, haeomotology, surgical inpatient, diabetes, endocrinology and respiratory teams.

People have to wear face masks as they move about the hospital, with any visitors either given a mask or required to have adequate face coverings of their own.

An easing of visitor restrictions is expected to take place over the next couple of weeks, as the Homerton works out protocols for designating ward staff to give visitor names to hospital security.

Wards are now slowly reopening as green ‘covid-clear’ or ‘covid-protected’ wards, with the hospital hopeful that “in due course” it will be able to welcome bookings from visitors to acute wards in a strict afternoon period.

Also expected is a further relaxation around maternity visits, with a single birth partner to be allowed to join mothers in labour, not just at delivery but at the maternity ward afterwards, as well as a relaxation for partners accompanying patients who need to receive scans.

You can find the Homerton’s post-Covid recovery pack here

Com a reabertura econômica, mães se veem desamparadas em conciliar trabalho e filhos

Com o “coração aflito”, Candida* pagará uma vizinha para cuidar do seu bebê de 2 meses. A partir do dia 25 de junho, em plena pandemia de Covid-19 e em meio à gradual reabertura econômica das cidades, volta a trabalhar como secretária de um consultório médico em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo. Na cidade, as clínicas estão autorizadas a retomar suas atividades desde o início de abril. Já os serviços não essenciais, foram reabertos em maio, com restrições de fluxo e horário de funcionamento.

Aos poucos, as cidades brasileiras estão retomando comércios e serviços considerados não essenciais. Conversamos com mães que precisaram voltar aos seus empregos mas não têm com quem deixar os filhos, confinados em casa por conta do fechamento das escolas (Foto: Mariana Simonetti)
Aos poucos, as cidades brasileiras retomam comércios e serviços não essenciais. Conversamos com mães que precisaram voltar aos seus empregos mas não têm com quem deixar os filhos, confinados em casa por conta do fechamento das escolas (Foto: Mariana Simonetti)
 

Candida, de 30 anos, não tem um familiar que possa ajudá-la. A mãe morreu e a irmã tem o próprio filho pequeno para cuidar. O pai do bebê foi embora de casa quando ela estava grávida de 19 semanas. “Ele dá R$ 400 por mês e nem pergunta nada sobre o filho”, conta.

Enquanto ficou em casa na pandemia, respondeu a algumas mensagens de pacientes por WhatsApp e realizou um procedimento de cobrança de convênio médico. Com medo de ser demitida no meio da crise com um filho de colo, entrou em um acordo com os patrões para que voltasse antes da licença maternidade terminar. Dessa forma, passa a receber o salário e o auxílio do INSS. “Assim consigo juntar um dinheiro caso passe por alguma emergência com meu bebê”, diz.

Arranjarem tempo para responder a uma entrevista sem interrupções não foi fácil. Em meio à volta à rotina de trabalho fora e com filhos ainda em casa, Marie Claire conversou com algumas mães. Muitas não têm onde deixar as crianças enquanto trabalham, já que as escolas e creches estão fechadas, e precisam conciliar o emprego com os cuidados do lar e da família, além de acompanhar aulas online e ajudar nas tarefas escolares dos pequenos.

O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) lançou em junho diretrizes nacionais em termos sanitários e pedagógicos para um eventual retorno às aulas presenciais, mas ainda não definiu datas para que isso de fato aconteça.

Claudia* também é mãe solo e voltou a trabalhar no dia 25 de maio, em uma loja de utensílios de cozinha em um shopping center de Curitiba, Paraná. Os shoppings da capital foram reabertos no dia 25 de maio, com horários de funcionamento reduzidos. O comércio de rua funciona também com restrições desde 15 de abril.

O atual expediente de Claudia é de 8 horas, dia sim, dia não, com uma folga na semana. O que significa 50% do tempo que trabalhava antes da pandemia. Fica dessa forma por causa da redução de salário e jornada aplicada por meio da  MP936. No começo da quarentena, ela ficou em casa, sem trabalhar, e sofreu uma redução salarial de 70% – o restante do pagamento foi compensado pelo recebimento do auxílio do governo. Pouco antes da reabertura, passou a ir ao shopping uma vez por semana para entregar aos consumidores compras feitas online, ganhando metade do salário original – também compensado pelo auxílio do governo.

Quando Claudia está no emprego, o filho de 7 anos fica com os avós. O pai do menino presta serviço em uma distribuidora de combustíveis, e nunca deixou de ir ao trabalho por causa da pandemia. “É preocupante deixar meu filho com meus pais pois são grupo de risco, um devido à idade e outro por estar passando por um tratamento oncológico. Me sinto naquela situação: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Trabalhar para mim hoje, na crise, é uma escolha diária. Todo dia tenho que pensar se vale a pena colocar em risco a saúde dos meus pais. Tenho medo de estar errando, sendo imprudente, mas me vejo sem saída. Trabalhar também faz parte da minha identidade. Nunca quis ser dona de casa. E por causa das despesas com o tratamento da minha mãe, não posso ficar desempregada”, diz a vendedora.

Segundo Denise Pimenta, doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), o poder público não pensou nas mulheres quando determinou a quarentena e tampouco as considera em momento de reabertura. “Muitas já perderam seus trabalhos, estão vivendo de bico, de aplicativos. Homens acadêmicos começaram a publicar muito mais num país onde mulheres normalmente publicam mais que homens. Em todas as áreas da ciência as publicações femininas caíram no mínimo 50%. Os homens em casa começaram a escrever mais. As mulheres, não, fazem serviço doméstico, cuidam dos filhos. E isso vale para todas as áreas. Mesmo o auxílio emergencial não foi pensado para as mulheres na base da pirâmide social. Deveria haver, para além desse auxílio, uma renda dirigida especificamente a mulheres periféricas, que poderia ser distribuída pelas próprias lideranças comunitárias para que chegue a elas de forma mais rápida e menos burocrática. São elas que administram os cuidados, doações, alimentação, material de higiene.”

Geridiana Fredo voltou a trabalhar nesta semana como supervisora da loja Tok Stok no Shopping Iguatemi, em São Paulo, aberto desde 13 de junho com horário reduzido, assim como o comércio de rua, que voltou a funcionar um dia antes.

A família toda de Geridiana é de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, então só resta o marido para ficar com os filhos quando ela está fora. “Ele é meu braço direito e me ajuda em tudo. Quando fui promovida a supervisora, meu horário ficou todo bagunçado. Neste momento, meu marido virou autônomo para conseguir conciliar nossos tempos. Ele começa a trabalhar quando eu chego, vende hambúrguer artesanal e é motorista de aplicativo”.

Quando está em casa, Geridiana faz questão de dedicar o máximo de atenção às crianças, mas também considera importante o tempo com o marido e com ela mesma, sozinha. “É puxado, vou dormir meia-noite para dar conta de tudo, mas faço com amor”, conta.

A vida de Márcia* está difícil agora, em esquema de home office com as duas filhas mais novas em casa, mas a possibilidade de voltar ao escritório a qualquer instante a deixa ainda mais angustiada. Secretária de três diretores de uma das maiores redes de varejo do país, vive em São Paulo sozinha com as meninas e não tem com quem deixá-las. O pai das crianças, de quem Marcia é separada, continua trabalhando fora e os avós são do grupo de risco.

“Tento viver um dia de cada vez, controlar minha ansiedade. Mas se tiver que voltar a trabalhar fora, simplesmente não sei o que fazer. Me cobro também, não quero deixar de contribuir com minha empresa. A gente precisa ter alguém do poder público que olhe e fale: ‘E a mãe solo’? Meu chefe me liga, pede urgência, e minha filha está pedindo ajuda na tarefa do colégio. Eu preciso saber qual é a minha prioridade. Nós mulheres já somos sobrecarregadas, com a pandemia você precisa dar conta de tudo em 24h. Vou dormir 1h da manhã para levantar às 6h. O homem não tem essa sobrecarga. Você conhece algum pai solo? Eu não. O pai acaba tendo ajuda da mãe, avó, tia”, diz Márcia.

“O trabalho do cuidado pela mulher é naturalizado e romantizado em nossa sociedade, mas ele é extremamente oneroso, pesado, um fardo que pode nos levar a doenças físicas e mentais. Esse é um trabalho cotidiano, que não tem feriado, férias, finais de semana, não é pago e não tem hora para acabar”

Denise Pimenta

A defesa de Denise Pimenta é que epidemias, pandemias e tragédias naturais afetam muito mais o gênero feminino que o masculino. “Não quero dizer que mais mulheres morrerão por conta da Covid-19 ou até mesmo que mais mulheres podem adquiri-la, mas que mulheres são mais afetadas nessas situações por conta do trabalho do cuidado. Quando chegam momentos graves como o que estamos vivendo, o trabalho da mulher dobra ou triplica. É o trabalho da rua, muitas vezes como enfermeira, auxiliar de enfermagem, técnica, faxineira, gari, e o trabalho de dentro de casa: gerir os mantimentos, a higiene dos outros, a agenda dos outros, a limpeza e a organização do lugar. Ela vai ser responsável por gerir o cotidiano do controle da doença, mesmo quando ela não é da área da saúde. O trabalho do cuidado pela mulher é naturalizado e romantizado em nossa sociedade, mas ele é extremamente oneroso, pesado, um fardo que pode nos levar a doenças físicas e mentais. Esse é um trabalho cotidiano, que não tem feriado, férias, finais de semana, não é pago e não tem hora para acabar”.

De acordo com o levantamento Outras formas de trabalho, realizado anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e divulgado neste mês de junho, em 2019, as mulheres dedicaram quase o dobro de horas semanais (21,4) aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas, especialmente crianças, em relação aos homens (11 horas semanais). A pesquisa ainda mostra que essa dedicação, que deveria ser chamada apenas de trabalho não remunerado, só vem aumentando mais a sobrecarga das mulheres. De 2016 para 2019, essa diferença entre as médias masculina e feminina aumentou de 9,9 para 10,4 horas semanais.

“Elas vão ter que pensar em soluções individuais, como sempre fizeram. Algumas vão deixar o filho em casa sozinho, com a avó, vizinha ou com a filha mais velha. E outras vão ficar na estrada, desempregadas””

Hildete Pereira de Melo

Para Hildete Pereira de Melo, professora da Faculdade de Economia da UFF (Universidade Federal Fluminense) e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Gênero e Economia, a falta de creches no Brasil sempre foi o grande drama das mães com filhos abaixo de 14 anos, a diferença que é agora o problema é escancarado pela crise da Covid-19. A economista não vê solução – que venham dos setores público ou privado – para as mulheres que voltam ao trabalho sem ter onde deixar as crianças. “Elas vão ter que pensar em soluções individuais, como sempre fizeram. Algumas vão deixar o filho em casa sozinho, com a avó, vizinha ou com a filha mais velha. E outras vão ficar na estrada, desempregadas. Podemos projetar o pior dos cenários das tragédias humanas para elas”, diz Hildete, que continua, “[quanto ao setor privado] não existe bondade, o que vale é lucro. Ninguém vai deixar mãe nenhuma ficar em casa porque é bonzinho. A pandemia não vai tornar o mundo melhor”.

*as identidades foram protegidas a pedido das entrevistadas

Mulheres enfrentam em casa a violência doméstica e a pandemia da Covid-19

Por: | 18/06/2020 às 08:00

Apesar de incertezas, chefe na OMS diz esperar vacina ainda neste ano e discute forma justa de distribuição

Cientista-chefe da organização, Soumya Swaminathan, afirmou esperar milhões de doses de uma vacina até o fim do ano, apesar de nenhuma ter sido aprovada ainda. Cerca de dez candidatas estão sendo testadas.

Do G1

A cientista-chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS), Soumya Swaminathan, declarou nesta quinta-feira (18) que espera ter “algumas centenas de milhões de doses” de uma vacina para a Covid-19 até o fim do ano. Nenhuma foi aprovada até agora, mas há cerca de dez sendo testadas, disse Swaminathan.

“Há pelo menos 200 vacinas candidatas em algum estágio de desenvolvimento”, afirmou Swaminathan. “Mas há 10 sendo testadas em humanos. Três dessas estão entrando em fase 3 [a última] nas próximas semanas”.

“Estamos entrando em outra fase agora, testes de fase 3, que são aqueles que vão provar definitivamente se uma vacina é eficaz e segura“, explicou Swaminathan. Com os resultados da fase 3, acrescentou a cientista-chefe, é possível passar à produção em massa das vacinas.

“Se nós tivermos sorte, haverá uma ou duas candidatas que darão certo antes do fim do ano. Eu estou esperançosa, estou otimista, mas o desenvolvimento de vacinas é um empreendimento complexo, vem com muita incerteza”, ponderou.

“Os ensaios são difíceis de fazer, porque você tem que fazer em locais onde há infecções ocorrendo. Se um país desenvolveu uma vacina, mas conseguiu controlar os níveis de infecção, eles precisam buscar outros lugares onde testar”, lembrou.

A cientista também afirmou que a OMS está discutindo com os Estados-membros uma forma justa de distribuição de uma vacina: a ideia é dar prioridade a funcionários de saúde na linha de frente e a quem trabalha em ambientes com alto risco de transmissão, como prisões e casas de repouso, além de pessoas nos grupos de risco – por causa da idade ou por terem outras doenças.

Hidroxicloroquina

Cloroquina e Hidroxicloroquina não têm eficácia comprovada contra a Covid — Foto: Reprodução/TV Globo
Cloroquina e Hidroxicloroquina não têm eficácia comprovada contra a Covid — Foto: Reprodução/TV Globo

A cientista foi questionada, durante coletiva de imprensa, sobre o uso da hidroxicloroquina, no Brasil, para tratar a Covid-19. Os ensaios clínicos da OMS com a substância foram suspensos, pela segunda vez, na quarta (17), depois de os especialistas concluírem que o uso dela não trouxe benefícios contra a doença.

No Brasil, entretanto, a droga continua sendo recomendada pelo Ministério da Saúde. Nesta semana, a pasta inclusive ampliou a orientação de uso da substância, para incluir grávidas e crianças.

Swaminathan reiterou que está claro que ela não reduz a mortalidade de pacientes hospitalizados com a Covid-19.

“Nosso comitê de segurança de dados, independente, olhou para os dados preliminares do nosso estudo e descobriu que não havia benefício na mortalidade dos pacientes usando hidroxicloroquina comparado aos pacientes do grupo controle”, afirmou a cientista.

A cientista-chefe lembrou, ainda, que os ensaios “Recovery”, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, também não viram benefícios no uso da droga contra o novo coronavírus.

Ela disse, também, que ainda existe uma lacuna sobre o papel desse tipo de medicamento para prevenir a infecção ou minimizar a gravidade da doença num estágio inicial.

Swaminathan deixou claro que países, incluindo o Brasil, têm a liberdade de decidir seus protocolos, mas frisou que eles devem ser baseados em evidências científicas.

A cientista afirmou que os especialistas da OMS agora olham para outros medicamentos, também nos ensaios coordenados pela entidade, em busca de possíveis tratamentos.

Covid já matou sete grávidas e 12 mulheres em fase pós-parto em São Paulo

Apesar da recomendação de quarentena para gestantes, médicos alertam que evitar a realização de exames pré-natais pode ser mais arriscado do que uma eventual exposição ao vírus

Da Época

A pandemia do novo coronavírus já causou a morte de sete gestantes e 12 puérperas (mulheres em fase pós-parto que se estende, em média, entre 45 e 60 dias) no Estado de São Paulo.

De acordo com Adriana Dias, responsável pelo Grupo de Enfrentamento à Morte Materna e Infantil da Coordenadoria de Controle de  Doenças da Secretaria Estadual de Saúde, isso representa 6,9% das 274 grávidas e mulheres que tiveram seus filhos recentemente e que desenvolveram Covid-19 no estado. Estes números reforçam a necessidade de medidas para evitar que futuras mães contraiam a doença.

Com ainda pouco conhecimento científico sobre como a doença afeta futuras mães, a melhor maneira de evitar complicações na gravidez ou no pós-parto, em sua opinião, é tomar as medidas para não se infectar com o novo coronavírus. A especialista alerta, contudo, que tão preocupante quanto a doença é a decisão de algumas futuras mães de, por medo da pandemia, evitarem o pré-natal. Ela conta que desde que o novo coronavírus chegou ao estado, grávidas faltaram a cerca de 30% das consultas de pré-natal.

“Aprendemos a todo dia com esta doença, que é muito nova. Mas estes casos indicam que é preciso que as grávidas reforcem o isolamento social, evitem aglomerações e reforcem  a etiqueta de higiene para evitar a contaminação”, disse Dias. “Mas não ir ao pré-natal pode ser mais perigoso que a Covid.”

Ela lembra que, o medo da pandemia, pode agravar outras situações. A especialista alerta que hoje os hospitais tem todas as condições de prestar o pré-natal e atendimentos médicos com toda a segurança para as grávidas.

“O que não se pode é, por medo, deixar de ir nas consultas ou ao médico quando necessário. Uma simples infecção urinária, comum em grávidas, pode levar à morte, se não for cuidada a tempo”, conta.

Mulher grávida com coronavírus em trabalho de parto Foto: TPG / Getty Images
Mulher grávida com coronavírus em trabalho de parto Foto: TPG / Getty Images

Mas afinal, a gravidez é um fator de maiores complicações para a Covid-19? Especialistas divergem. Embora o número de falecimentos preocupe, ainda é pequeno diante do total de partos realizados no Estado: um média de 48.719 por mês. Ou seja, desde o começo da pandemia, cerca de 150 mil crianças nasceram nas cidades paulistas e, neste universo, os 19 óbitos de mães ligados à Covid representam 0,01% dos partos paulistas no período.

Até o dia 15 de junho deste ano, 171 mães faleceram no estado por problemas no parto por diversos motivos – incluindo nesta conta os 19 óbitos relacionados à Covid-19. Não há detalhamento dos casos nacionais da doença, para tentar auferir o impacto em gestantes.

Dias lembra que o governo do estado de São Paulo segue investigando detalhadamente as 19 mortes de grávidas e puérperas por Covid-19, pois a maior parte das gestantes e mães no pós-parto que faleceram tinham outros problemas de saúde que agravam a doença. Entre as comorbidades estavam: doenças cardíaca, diabetes, hipertensão e problemas renais. Ou seja, não há ainda uma conclusão de que estas mulheres teriam sobrevivido à Covid-19 caso não estivessem grávidas.

Grávidas com Covid-19 nos EUA

Um estudo do Jornal Americano de Obstetrícia e Ginecologia estima que, neste ano, 16.601 grávidas pegarão Covid-19 nos EUA, sendo que 3.308 casos poderão ser considerados severos, 681 críticos, causando 52 mortes maternas no país que mais casos tem da pandemia do novo coronavírus.

Porém, Agnaldo Lopes, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) afirma que, até o momento, não há um estudo sequer que comprove a gravidez como um fator de complicação para a Covid-19.

“Diferente de outras viroses, como o H1N1, uma grávida não tem um quadro mais grave de Covid-19 que uma não-grávida”, explica Lopes, que alerta que ainda não há indicações de partos mais ou menos seguros para mulheres com Covid-19 e que, o melhor a se fazer, é evitar o risco de contaminação da doença, inclusive em ambientes profissionais.

Ainda não há consenso sobre os riscos de complicações na gravidez pelo vírus Foto: Kemal Yildirim / Getty Images
Ainda não há consenso sobre os riscos de complicações na gravidez pelo vírus Foto: Kemal Yildirim / Getty Images

Renato Sá, obstetra e Coordenador Geral do Centro de Diagnóstico da Perinatal, maternidade com dois hospitais no Rio, afirma que as grávidas devem se cuidar. Embora não tenha registrado a morte de nenhuma gestante em suas unidades – que realizam cerca de 900 partos por mês – , ele lembra que em abril, todas as pacientes sintomáticas foram testadas, cerca de 15 por semana, sendo que 40% destas deram resultado positivo para o novo coronavírus. Agora todas as grávidas que entram na maternidade são testadas para Covid-19.

“Tenho medo que isso piore muito, a doença pode ter impacto na mortalidade materna”, disse ele. “Os artigos sobre Covid e gravidez estão saindo há muito pouco tempo e a gente ainda não tem nenhuma noção segura da possibilidade de problemas para o feto, antes dizíamos  que não havia transmissão vertical (de mãe para filho) da Covid, agora começam a surgir os primeiros que indicam que isso possa ocorrer, ainda que em percentual pequeno. E a gravidez não é propriamente um risco, mas a gente tem que considerar que há comorbidades que podem ser associadas à gestão, como uma grávida diabética ou uma grávida hipertensa.

Com tanta falta de informação o ideal, segundo ele, é evitar aglomerações e vida social das grávidas. Ele afirma que, com as medidas de relaxamento, há futuras mamães que estão retomando a ideia de chás-de fraldas, o que deve ser evitado a qualquer custo:

“Este é um grupo que se a gente fizer um  isolamento vertical, a gente consegue proteger 100% das grávidas, diferentemente dos diabéticos”, disse ele, cujas maternidades se adequaram para minimizar ao máximo o risco de contaminação da Covid-19 e defende que as mulheres façam seu pré-natal naturalmente, mas tentem otimizar suas saídas médicas, ou seja, no mesmo dia que tenha sua consulta faça o ultrassom e outros exames.

Por ser uma doença muito nova, inúmeras incertezas rondam as mulheres grávidas Foto: FatCamera / Getty Images
Por ser uma doença muito nova, inúmeras incertezas rondam as mulheres grávidas Foto: FatCamera / Getty Images

Sá afirma que há uma sensação de que as puérperas têm se complicado mais que as grávidas, pois um dos efeitos da doença é alterar a parte de coagulação, uma função que já passa por alterações nas mulheres depois de terem filhos. Para ele, apesar de haver uma opção maior  de cesarianas em partos durante a pandemia, por medo, não há nenhuma evidência que um parto ou outro seja melhor ou pior para mulheres com o novo coronavírus. Se por um lado a cesariana gera mais dificuldades no pós-parto, o trabalho do parto normal exige mais da capacidade de respiração das grávidas, ou seja, em sua opinião há há melhor forma de parto para mulheres com Covid.

Sá lembra ainda que, com o medo da pandemia, as grávidas não podem relaxar sobre outros cuidados. Ele se preocupa com a baixa taxa de vacinação ao H1N1:

“Já vi muitas epidemia devastadoras para grávidas, como Aids, dengue, H1N1, zika e agora a Covid e todas são sempre muito preocupantes. Mas, pelo que conhecemos, o H1N1 tem um potencial muito mais forte para uma grávida, e há vacina para isso. O medo da pandemia não pode fazer as grávidas esquecerem de outras questões”, disse ele.

WHO recommends breastfeeding, says no live coronavirus found in mothers’ milk

ZURICH/GENEVA (Reuters) – Breastfeeding mothers do not seem to be passing on the new coronavirus to their infants, and based on current evidence the benefits outweigh any potential risks of transmission, the World Health Organization (WHO) said on Friday.

WHO director-general Tedros Adhanom Ghebreyesus said that it had carefully investigated the risks of women transmitting COVID-19 to their babies during breastfeeding.

“We know that children are at relatively low risk of COVID-19, but are at high risk of numerous other diseases and conditions that breastfeeding prevents,” Tedros told a news conference.

“Based on the available evidence, WHO’s advice is that the benefits of breastfeeding outweigh any potential risks of transmission of COVID-19,” he said.

Advertisement

Anshu Banerjee, a senior advisor in WHO’s Department of Reproductive Health and Research, said that only “fragments” of the virus had been detected in breast milk, not live virus.

“So far we have not been able to detect live virus in breast milk,” he said. “So the risk of transmission from mother to child so far has not been established.”

Reporting by John Revill and Stephanie Nebehay; editing by Emelia Sithole-Matarise

Positive lockdown influence credited with fall in pre-term births

Trend in maternity hospital marked by healthy living, say researchers

Do Irish Times

More than 15m babies are born too early, too sick and too small in the world every year, and 1m of these children die. File photograph: Getty

An “unprecedented” fall in pre-term births in one of the country’s largest maternity hospitals is being credited to the effect of positive lifestyle influences during the lockdown.

The number of underweight babies fell dramatically in University Maternity Hospital Limerick in the first four months of the year, a trend researchers believe is due to reduced stress and healthier lifestyles brought on by the Covid-19 restrictions.

There was a 73 per cent reduction in the number of very low birth-weight babies born in the hospital, compared to the average for the same first four months of the year in the preceding two decades, a study has found.

If the same finding is replicated nationally for the first four months of the year, there could be up to 200 fewer very-low-weight births this year, and several hundred more if the effect were to last to the end of the year.

Likening the unique conditions of the lockdown to “nature’s experiment”, lead author Prof Roy Philip said the improvements were due to a mix of self-imposed behavioural changes by mothers and externally imposed socio-environmental changes.

These include: reduced work; stress; commuting and financial strain; increased family support; reduced environmental pollution; better infection avoidance; improved sleep and nutritional support; adequate exercise; and reduced exposure to tobacco and illegal drugs.

The findings, if reflected in other countries with lockdown, could trigger greater understanding of the poorly understood pathways that lead to pre-term birth (before 37 weeks of gestation), the authors say.

More than 15 million babies are born too early, too sick and too small in the world every year, and one million of these children die.

Just three very low-birth-weight babies (less than 1.5kg), and no extreme low-weight babies (less than 1kg), were born in Limerick between January and April this year – there were 1,381 births during the period; the rate in the previous 20 years was 3.77 times higher for this period of the year.

Prof Philip said a normal yearly variation might be 5-10 per cent but he described the 73 per cent fall as “unprecedented”.

Public-health vigilance

The study, which has yet to be peer-reviewed, investigated the possibility that the very small number of low-weight babies born in 2020 was the result of the change in abortion law.

An examination of regional and national historic data suggests this is not the case, it says.

The trend seen from early March onwards was influenced by the pre-lockdown period of extra public-health vigilance that started in mid-February, it says.

The effects will continue to be seen in the coming months “until such time as normality influencers are operating again”.

“However, post-lockdown deterioration in socio-environmental factors or a baby boom in late 2020 could increase the pre-term birth rates.”

Similar findings have been reported in Denmark, were a 90 per cent reduction in extremely low-weight babies has occurred.