Com novas recomendações por causa da pandemia, a maternidade é vivida a vários tempos em Portugal

Partos programados antes do termo, ausência de companhia, bebés afastados das mães à nascença. A pandemia levou uma nova realidade às maternidades que tentam, agora, arrepiar caminho. Mas, apesar de já haver novas directivas, a maior mantém-se: cada instituição terá de adaptar as medidas à sua realidade.

Do Público

O que mudou na forma como se nasce em Portugal desde o início da pandemia? “Em qualquer situação obstétrica a primazia é sempre dada ao bem-estar da mãe e depois ao do bebé”, começa por responder João Bernardes, professor catedrático de Ginecologia e Obstetrícia. No entanto, desde Março, juntou-se a esta equação a necessidade de “salvaguardar a saúde pública”, o que acabaria por resultar numa ausência de uniformidade nas normas impostas por cada espaço.

Isto porque, contextualiza o clínico e investigador, em termos físicos e humanos as instituições em Portugal são muito diferentes. Essa é a razão pela qual, explica ao PÚBLICO, “cada equipa deve avaliar a situação local”. Certo é que, nas recomendações publicadas, esta terça-feira, pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) continua a ler-se que aquelas “podem ser adaptadas à realidade de cada instituição e à avaliação clínica de cada caso”.

Mas recuemos um pouco no tempo, até meados de Março, quando a atenção à saúde pública​ transformou as alas de maternidade em quase cenários de guerra, com as equipas a tentarem resguardar-se de possíveis infecções e, ao mesmo tempo, reduzir as probabilidades de contágio das utentes por outros. Por essa razão, qualquer mulher que chegasse a um hospital em trabalho de parto viria a ser tratada como se estivesse infectada — pelo menos, até chegar o resultado do teste à covid-19.

“A introdução do teste rápido veio alterar esses procedimentos”, confirmou a directora da Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, ao PÚBLICO. Agora, a diferença, relatou Marina Mocho, é que a grávida sem teste, em vez de entrar pela zona de admissão, segue directamente para o quarto. “Vamo-nos adaptando à medida que a situação evolui”, explica, acrescentando que “já não há necessidade de indução”, algo optado para “evitar situações de sobrelotamento”, mas essencialmente para averiguar a situação viral da grávida: se infectada ou não pelo novo coronavírus. “Não podemos correr o risco de estarmos infectados”, reforça a médica.

Foi para minimizar esse risco que Eunice Rodrigues, diagnosticada com covid-19, passou quase três horas à espera até entrar no hospital. O parto até tinha sido marcado, dias antes, para ser induzido, mas o bebé acabaria por trocar as voltas à programação do mundo cá fora e decidiu nascer mais cedo. “Foi um parto delicioso: rápido e sem epidural”, relata a mulher, que já tinha três filhas, descrevendo as equipas médicas do São João como “profissionais e rigorosas”. Porém, apesar de terem colocado o bebé em cima da sua barriga e de até terem perguntado se desejava cortar o cordão, o recém-nascido foi logo levado para longe de si, para os cuidados de neonatologia, tendo sido submetido a análises que regressaram negativas.

Nem todos os casos se resolveram por si e a indução acabou por ser necessária — mesmo depois da introdução do teste rápido. Foi o caso de Catarina Soares, cujo trabalho de parto demorou 16 horas. “Tenho noção que o parto poderia ser mais fácil ou menos longo, mas decidi confiar”, descreve com serenidade, apesar de todo o processo ter sido vivido de máscara ou de só ter podido contar com a presença do pai na fase da expulsão.

Direito a acompanhante

A ausência de acompanhante ao longo do processo do trabalho de parto tem sido um dos factores alvo de mais reclamações por parte de mulheres e homens. E as novas recomendações são omissas sobre esta questão. Questionada pelo PÚBLICO, a DGS informou que “para os acompanhantes mantém-se em vigor a orientação” anterior, ou seja, “a presença poderá ser permitida apenas se a instituição considerar que tem asseguradas todas as condições de segurança para evitar o contágio”.

Porém, muitas grávidas e respectivos acompanhantes denunciam “um enorme retrocesso nas conquistas dos últimos anos” e, depois de os relatos se terem acumulado, decidiram criar um movimento cívico e activista pela restituição dos direitos suspensos em contexto de pandemia — “das mulheres grávidas, puérperas, mães e pais, recém-nascidos e, acima de tudo, famílias, durante toda a gestação, parto e pós-parto”.

Reclama-se os direitos “a acompanhante, à liberdade de movimentos e métodos alternativos de dor, ao contacto pele a pele entre mãe e recém-nascido, a amamentação imediata e ao alojamento conjunto de mãe e bebé”, em linha com as directivas da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere cinco maneiras para os serviços de saúde melhorarem o atendimento às mulheres no parto, a começar pela presença de acompanhante.

Além disso, a OMS aconselha que se aceite a posição de nascimento que as mulheres preferem, a treinar os profissionais para cuidados específicos relacionados com a dignidade materna e neonatal, a fortalecer a supervisão e a oferecer estratégias de alívio da dor.

Carla Sousa, uma das grávidas na génese daquele movimento, considera que não chega a existência de recomendações, quando cada hospital tem liberdade para adaptar as mesmas. Segundo a também psicóloga, a ausência de uma directiva comum origina “níveis de ansiedade brutais” nas grávidas, além de considerar incompreensível ter unidades em que o acompanhante nunca deixou de estar presente e outras em que aquele, ainda hoje, se mantém longe do nascimento — algo que a faz considerar vir a ter o seu segundo filho no privado.

Neste ponto, o investigador João Bernardes explica que a ausência de uma linha uniforme está relacionada com as condições materiais de cada maternidade: “Se se tiver mais do que uma mulher na mesma sala e todas estiverem acompanhadas, as distâncias deixam de ser cumpridas, além de, em muitos casos, as casas de banho serem de utilização comum.”

Apesar de compreender as contingências, Catarina, de 27 anos, sublinha as contradições vividas no início de Maio, na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. “Não podia haver acompanhante por precaução, mas eu apenas recebia uma máscara [cirúrgica] por dia”, quando as recomendações ditam que esta não deve ser usada por mais do que quatro horas.

Parto programado?

Dos casos que o PÚBLICO teve conhecimento de partos no privado, todos tiveram acompanhante presente. “Fizemos a análise e, com o resultado negativo, foi marcada cesariana”, conta Miguel, 48 anos, que explica que, além do contexto, foram-lhes explicadas razões clínicas para optar pelo procedimento cirúrgico. Durante o período que passou em ambiente hospitalar, nunca saiu do quarto, onde estavam a companheira e a filha de ambos. Essa era a condição para que pudesse permanecer no local.

Também João, de 41 anos, relata experiência semelhante, em que a cesariana, programada às 39 semanas, no Hospital Lusíadas, fez parte de uma decisão que, em parte, já estava tomada pela mãe. Ambos os progenitores salientam o facto de o procedimento ter sido garantia de menos stress e também têm uma percepção semelhante do pós-parto: o contexto de pandemia, com a ausência de visitas de amigos e familiares, assim como o facto de haver menos gente na rua na altura de levar os recém-nascidos às consultas de pediatria resultaram numa vivência da paternidade com menos preocupações e mais serenidade.

Para já, sem dados estatísticos, não há qualquer prova do aumento de cesarianas, testemunha João Bernardes. Porém, admite que este é um assunto a que se tem de prestar atenção, sobretudo quando a cesariana é reconhecida como uma intervenção de risco, estando, segundo a DGS, “associada a riscos de saúde superiores aos do parto vaginal (…): de lesão uretral e vesical, de histerectomia, de tromboembolismo, de complicações infecciosas, de reinternamentos hospitalares”.

Também Alexandrina Mendes, obstetra no Centro Hospitalar Póvoa de Varzim-Vila do Conde, admite que, na sua unidade, os “partos programados terão aumentado”, mas ressalva que “a taxa de cesarianas não aumentou”. Para esta médica, a lidar com partos num centro onde os testes rápidos já existem, mas em quantidades insuficientes e sem laboratório próprio (o que faz com que o resultado demore mais tempo), é necessário que se aumente o número deste tipo de exame de forma a facilitar todo o processo de nascimento.

Todavia, uma preocupação persiste: as directivas contrárias de distintas sociedades. “Enquanto a Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal (SPOMMF) aconselha a separar o bebé da mãe que tem um resultado positivo para a covid-19, a [Sociedade] de Medicina Interna diz o contrário.” Nas recomendações da SPOMMF lê-se que “para reduzir o risco de transmissão do vírus da mãe para o recém-nascido, deve considerar-se a separação temporária (após o parto) da mãe” infectada.

Mães e bebés separados

A recomendação da SPOMMF foi levada à letra em algumas unidades que se depararam com parturientes com covid-19, como no caso de Eunice. Após o parto, a mulher ficou internada, enquanto o recém-nascido seguiu para a neonatologia. No documento publicado esta terça-feira, considera-se que “o contacto pele a pele e o alojamento após o parto (separação temporária ou alojamento conjunto) deve ser feita caso a caso, numa decisão partilhada entre a mãe e a equipa dos profissionais de saúde”. Para esta decisão, indica a DGS deverá pesar “a condição clínica da mãe e do recém-nascido, o desejo de amamentar, os recursos existentes para separar o recém-nascido e as condições existentes para um alojamento conjunto em segurança”.

Para Eunice, o risco de contágio horizontal, por menor que fosse, justificou a separação. E, na altura da alta, em que o marido também viria a ter o resultado do teste positivo, o casal regressou a casa sem a criança. “Ficámos os dois doentes e com três meninas (todas com resultado negativo) em casa; não tínhamos condições para cuidar do bebé”, recorda, frisando a dedicação de todos no hospital, com videochamadas e muitas fotografias.

Quando o pai foi declarado recuperado, o hospital considerou que era altura para ir buscar o bebé — algo feito quase contra a vontade da mãe. “Tinha medo”, confessa. O bebé chegou a casa 17 dias após o nascimento, mas quase sete semanas depois da data em que chegou ao mundo os cuidados ainda não foram atenuados, com os resultados da infecção da mãe a manterem-se positivos e os telefonemas diários da pediatria. “Há um cansaço emocional”, concluiu, fruto de um permanente “estado de alerta”.

Para Patrícia Oliveira, de 38 anos e grávida de 32 semanas, este cenário de ter o bebé afastado de si é o mais difícil de imaginar. Apanhada no epicentro do surto em Portugal, já que trabalha como psicóloga em ambiente escolar em Ovar, concelho que esteve sob um cordão sanitário, a grávida combateu a ansiedade recorrendo à racionalidade – ainda que admita que o facto de não ter tido consultas adiadas pela CUF, onde é seguida, ajudou. No entanto, fala de um “reajustamento contínuo — sexta é uma coisa, segunda-feira já é outra”.

Já Joana Rocha, de 33 anos e grávida da segunda filha, está “pronta para o que tiver de ser”. “A miúda está sentada”, conta, explicando que a manobra manual de tentar inverter a posição foi passada das 37 para as 39 semanas. “Em vez de fazer a análise à covid-19, a manobra e voltar para casa, ficando à espera, optou-se por tentar mudar a posição da bebé mais tarde, às 39 semanas, seguindo depois para indução ou cesariana, dependendo do resultado.”

Já a presença do companheiro também dependerá da evolução do parto. Para já, a indicação que tem, no São João, é a de que o pai só poderá entrar no momento da expulsão. Questionada sobre os motivos apresentados, esta grávida acaba por desabafar: “Deixei de pensar nos porquês a bem da minha sanidade mental.” A única certeza que tem é que o hospital parece querer reduzir “o tempo que se está em ambiente hospitalar ao mínimo”.

A viver a 31.ª semana de gravidez e a lutar pelo direito a ter acompanhante, a psicóloga Carla Sousa refere que, ainda que não haja dados de momento, é vital estar atento à relação entre a vivência da maternidade e a pandemia, criando mecanismos de apoio. “A violência obstétrica não é uma questão nova, mas a pandemia trouxe alguns retrocessos.” Porém, sublinha a importância da forma de olhar para o cenário apresentado de modo a salvaguardar situações de depressão pós-parto. “Mais do que a experiência, é relevante a percepção que se tem dela.”

Uma ideia que Catarina, após ter tido uma indução às 41 semanas e uma reacção nefasta à anestesia (“Primeiro, não pegava; depois, não conseguia levantar-me, com fortes enxaquecas”), cultiva: “Não é a coisa que recorde como a mais bonita, mas tenho esperança de, com o tempo, a conseguir mudar.”

Síndrome inflamatória multissistêmica em crianças e adolescentes associada à COVID-19 (MS)

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis. Coordenação-Geral do Programa Nacional de Imunizações. SEI/MS – 0014893980 – Anexo. Nota de Alerta: Síndrome inflamatória multissistêmica em crianças e adolescentes associada à COVID-19. 22 Mai.2020.

O Ministério da Saúde, por intermédio do Programa Nacional de Imunizações e da Coordenação de Saúde da Criança e Aleitamento Materno, assim como a Sociedade Brasileira de Pediatria, representada neste documento pelos Departamentos Científicos de Infectologia e Reumatologia, e a Sociedade Brasileira de Reumatologia, bem como a Organização Pan Americana de Saúde, reconhecem a necessidade deste alerta à comunidade pediátrica, reforçando a importância do diagnóstico e tratamento precoces.

Publicado originalmente no Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente do IFF-Fiocruz, acesse o original.

Estas 3 mães contam como é driblar o medo e dar à luz no meio de uma pandemia

No parto, a comunicação é pelo olhar. Em casa, as visitas são substituídas por videochamadas. “Minha irmã conheceu a bebê pela janela do carro na saída da maternidade.”

Debora Settani, de 32 anos, apresentou a pequena Graziella aos amigos e familiares pela tela do celular....
Arquivo Pessoal Debora Settani, de 32 anos, apresentou a pequena Graziella aos amigos e familiares pela tela do celular. “Minha irmã, que trabalha na área da saúde, conheceu ela pelo vidro do carro, na saída da maternidade.”

Luciana Fernandes, de 22 anos, descobriu a gravidez em agosto de 2019 e, logo depois, precisou interromper temporariamente um de seus maiores sonhos: trabalhar como atriz em uma grande emissora de TV. “Foi um choque pra mim mas, no final, sempre quis ser mãe e lidei bem com a mudança”, diz a jovem, que mora em São Paulo, mas nasceu em Potiraguá, na Bahia. Com uma gravidez que chegou ao fim, de forma inesperada, com o início da pandemia do novo coronavírus, uma segunda vontade de Luciana foi suprimida: usuária do SUS (Sistema Único de Saúde), ela fez o pré-natal em um hospital público e planejou dar a luz na Casa Angela, um centro de parto humanizado na periferia da Zona Sul da capital.

Na madrugada do dia 29 de março, quando entrou em trabalho de parto veio o revés: a pressão de Luciana subiu e ela precisou ser transferida para uma maternidade. “Minha pressão não estabilizou e eu não consegui dilatar o suficiente. Eu sentia muita dor e fiquei com o coração na mão, pensando: ‘meu Deus, tudo o que a gente programou não está acontecendo’”, lembra.

“O que me deixa muito triste, e que eu ainda não sei lidar muito bem, é não ter muito contato com as pessoas, né? Já é um isolamento social ser mãe.” Luciana Fernandes, 22 anos, atriz e mãe de Amora, de um mês

Devido aos altos índices de contaminação pela covid-19 no País e à crise no sistema de saúde, a experiência do parto hospitalar durante a pandemia para muitas mulheres têm sido acompanhada de frustrações e medo. “Eu fiquei com medo de sofrer violência obstétrica em um lugar que não era o que eu tinha planejado”, diz Luciana. “Quando cheguei à maternidade, me senti em risco. Era um hospital muito maior, com muito mais gente e todos estavam usando máscara e sendo muito cuidadosos com tudo por conta do coronavírus.” Transfe

Luciana Fernandes, de 22 anos, comemora o primeiro mês de Amora ao lado de Thiago, seu
Arquivo Pessoal Luciana Fernandes, de 22 anos, comemora o primeiro mês de Amora ao lado de Thiago, seu companheiro.

Para ela, assim como para muitas outras mulheres no País, o primeiro Dia das Mães vai ser bem diferente do esperado. “Eu tinha imaginado outra coisa. Queria comemorar esse momento junto com a minha mãe, mas sei que assim é o melhor agora. Depois a gente pode aproveitar muito outros momentos.”

“Tenho pavor de colocar o pé fora de casa. A Teresa nem sentiu o calorzinho do sol ainda”. Com o isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus, a fotógrafa brasiliense Tatiana Reis, de 35 anos, tem convivido com o que classificou de “puerpério dentro do puerpério”, nome dado ao período de resguardo da mulher por pelo menos 45 dias após o momento do parto. Em uma experiência semelhante à de Luciana, ela deu a luz à Teresa, sua segunda filha, no dia 24 de março – apenas 19 dias após o primeiro caso de covid-19 ser confirmado na capital federal e dez dias depois do primeiro decreto que oficializou a quarentena no estado.

“Eu queria muito ter mais gente por perto depois do nascimento da Teresa por vários motivos. Mas não está sendo possível”, lamenta. Do meio para o final da gravidez, Tatiana foi diagnosticada com diabetes gestacional, o que a colocou em um quadro de risco e fez com que ela redobrasse os cuidados com a saúde. “Me senti paralisada. Talvez eu tenha escolhido a cesariana justamente por conta dessa minha situação de alto risco na gravidez, pensando também no medo de ser contaminada pelo coronavírus”. Dias depois do nascimento de Teresa, o Ministério da Saúde incluiu, em 13 de abril, gestantes de alto risco, como Tatiana, e puérperas no grupo de risco de complicações da covid-19.

“Eu quero muito contar pra ela ‘menina, te pari no meio de uma pandemia!’ [risos]. Eu tenho mantido um diário e experimentado tirar fotos com o celular. A gente nunca viveu tão junto.” Tatiana Reis, 35 anos, mãe de Teresa, de um 28 dias e Helena, de 3 anos e meio

Na foto acima, Teresa e Helena, filhas da fotógrafa Tatiana Reis - a foto foi tirada por ela em...
Tatiana Reis/Arquivo Pessoal Na foto acima, Teresa e Helena, filhas da fotógrafa Tatiana Reis – a foto foi tirada por ela em um dos momentos de afeto dentro do isolamento social.

Segundo boletim epidemiológico mais recente da pasta, 121 gestantes e puérperas entre 10 e 59 anos foram contaminadas no País – documento não aponta o número de possíveis mortes neste grupo de vulnerabilidade. Todas as mulheres entrevistadas pelo HuffPost Brasil disseram não apresentar nenhum sintoma da covid-19. Nesta semana, o número de mortes causadas pela doença no Brasil passou de 10 mil, segundo dados divulgados pelo MS, o que representa mais que o dobro do total registrado na China (4.637). Estes dados reforçam o agravamento da crise sanitária no País.

Mesmo antes do agravamento da crise, dentro da clínica em que Tatiana fazia as consultas com seu médico, foi feito um esquema para que as gestantes não se encontrassem nos corredores e todos os funcionários, segundo ela, já usavam máscaras para evitar contaminação. “Ao mesmo tempo que havia cuidado, naquele momento já havia muita tensão no ar”, lembra.

Ao chegar na maternidade, foi realizada uma triagem incomum. “Eles mediram a minha temperatura, e perguntaram se eu tive sintomas ou contato com alguém que teve. Eu não pude trocar de acompanhante e também não pude receber visitas”, conta. De volta para casa, a única rede de apoio de Tatiana, para cuidar da recém-nascida e de Helena, de 3 anos, tem sido parcialmente seu companheiro – que está trabalhando de casa -, sua irmã e algumas amigas que, eventualmente, ajudam levando compras do dia a dia para evitar exposição.

“Eu moro em um apartamento muito pequeno. E só saí de casa uma vez depois do parto para levar a Teresa ao médico com a minha irmã. Eu levei ela no sling ‘escondidinha’, com muitas camadas de tecido”, lembra. “Essa coisa que é a celebração de um nascimento de uma criança, que demanda dessa aproximação da família e dos amigos, está me fazendo muita falta. As avós não conhecem a Teresa, o abraço, o calor faz muita falta”, diz.

Isolada e sem rede de apoio como o planejado, Tatiana têm tentado contornar a rotina de cuidados no distanciamento devido à pandemia e construir uma lembrança para as filhas. Teresa, ela conta, nasceu no dia do aniversário de seu pai, que morreu há poucos meses. “Ela ter nascido foi um marco pra mim nesse sentido. Eu quero muito contar pra ela ‘menina, te pari no meio de uma pandemia! [risos] E você nasceu em um dia cheio de significado’. Eu tenho mantido um diário e experimentado tirar fotos com o celular. A gente nunca viveu tão junto. Eu falo muito do medo porque o confinamento está mexendo muito comigo. Mas a gente vai tentando sobreviver nos encontros de delicadeza, de doçura. Acho que encontrei uma força nesse registro doméstico”. E, claro, na primeira oportunidade, levará Teresa para conhecer e sentir na pele a luz do sol.

Tatiana Reis/Arquivo Pessoal “Ela ter nascido foi um marco pra mim nesse sentido. Eu quero muito contar pra ela ‘menina, te pari no meio de uma pandemia!”, diz Tatiana Reis.

 

Para a produtora Debora Settani, de 32 anos, moradora da cidade de Itu, no interior de São Paulo, as videochamadas com parentes e amigos substituíram quase que de imediato as tradicionais visitas às mães e aos recém-nascidos tanto em casa, quanto na maternidade. “A gente tem fotos que são prints da tela do celular que são eu com a minha bebê e os familiares”, conta.

Debora havia planejado o nascimento em uma maternidade particular de São Paulo e conseguiu que todo o seu plano de parto fosse mantido. Graziela nasceu há duas semanas, no dia 25 de abril, em um momento em que o aumento de casos da covid-19 exigiu mais rigidez na quarentena. Porém, ela foi acompanhada tanto pela doula, quanto por seu marido – que conseguiu autorização não só para participar, mas para tirar fotos e filmar o nascimento da filha. Por causa da pandemia, essa orientação varia de acordo com a instituição de saúde, sendo ela particular ou pública.

“Todos os profissionais e os acompanhantes estavam de máscara e super paramentados. Pude escolher se eu queria ficar com a máscara ou não e, por ter optado pelo parto normal, decidi que ficaria sem. Eu me senti segura e confortável”, diz.

“Eu pensava: ‘será que eu espero? Será que isso vai ser bom, ou será que eu estou arriscando pegar a doença e não ter saúde para ter o parto? Será que tudo o que eu planejei vai acontecer?’.” Debora Settani, 32 anos, mãe de Graziella, com 16 dias de idade.

Debora lembra que o mais estranho do momento foi não poder ver o sorriso das pessoas, em especial, de seu companheiro, quando Graziella nasceu, justamente pelo uso dos equipamentos de proteção individual (EPIs). “Mas, ao mesmo tempo, a comunicação ficou mais forte pelo olhar. O olhar é muito potente, né? Foi muito intensa a forma como a gente encontrou de se comunicar não só pela fala dentro da sala de parto.”

A bebê foi direto para o colo da mãe assim que nasceu e ficou o tempo todo no quarto com ela. Enfermeiras apenas vinham para dar banho ou levá-la para fazer exames e dar as vacinas necessárias, por exemplo. O distanciamento também no berçário foi uma medida de precaução que tem sido adotada por maternidades em todo o País.

No momento do parto, Debora escolheu ficar sem a máscara de proteção.
Arquivo Pessoal No momento do parto, Debora escolheu ficar sem a máscara de proteção. “Mas, ao mesmo tempo, a comunicação ficou mais forte pelo olhar. O olhar é muito potente, né?”

“Ela ficou direto no quarto comigo e eu nem pude caminhar no corredor do hospital, como costumava ser recomendado. Eu andava ao redor da minha cama. De lá, apresentei ela pra amigos e família pelo celular. Eu combinei com a minha irmã, que é profissional da saúde e não pode deixar de trabalhar, de conhecer a sobrinha pelo vidro do carro na saída da maternidade. E foi assim, agora ela está esperando pra pegar a Graziela no colo quando for possível.”

Também hora de ir embora para casa, as lembrancinhas que seriam para as visitas – que foram feitas virtualmente e à distância -, ganharam novos donos. “Eu dei as lembrancinhas para as enfermeiras, que ficaram felizes, mas um pouco espantadas. E eu disse ‘é claro, vocês são a única visita que eu tenho!’ [risos]”. Chegando em Itu, não pode dar um abraço em sua mãe. Apenas deixou Graziela com o pai e correu para o banho. A mãe, nesse momento, junto com seu companheiro – que está trabalhando de casa – tem sido sua rede de apoio. “Eu jamais imaginaria que ela ia nascer praticamente no meio do pico da pandemia, e eu espero poder contar pra ela que foi difícil, mas que passou e que foi menos pior do que a gente achou que poderia ser”, diz.

Como eu vivi a quarentena no último mês de gestação, parece que eu já fiz um estágio para o puerpério.”

A produtora reconhece que, no contexto atual, foi privilegiada – mas que não deixou de sentir algo comum às gestantes diante da covid-19: medo e insegurança. “Eu tive medo, sim, chegando perto da hora do parto, pensando na pandemia, principalmente. Como a minha intenção era ter o parto normal, de 38 a 41 semanas, eu fiquei com muita dúvida. Eu pensava: ‘será que eu espero? Será que isso vai ser bom, ou será que eu estou arriscando pegar a doença e não ter saúde para ter o parto? Será que tudo o que eu planejei vai acontecer?’ Eu antecipei apenas alguns dias e correu tudo como o planejado.”

No dia em que conversou com o HuffPost, Debora estava se preparando para sair de casa pela primeira vez em duas semanas. O motivo? A ida ao médico com a bebê, em São Paulo. “Como eu vivi a quarentena no último mês de gestação, parece que eu já fiz um estágio para o puerpério. É angustiante, sim, você não poder sair, não ter rede de apoio e não poder fazer tudo o que imaginou. Mas se eu puder falar algo para outras mulheres no mesmo contexto que o meu, é que podemos tentar usar esse momento para criar conexão. É o que tenho tentado fazer.”

Estudo identifica lesões na placenta de grávidas diagnosticadas com Covid-19

Nascimentos não foram afetados, mas descoberta dos pesquisadores sugerem alterações no fluxo sanguíneo entre as mães e feto.

Do G1

Imagem de arquivo mostra mulher grávida: pesquisa dos EUA mostra relação entre Covid-19 e lesões na placenta — Foto: Pixabay
Imagem de arquivo mostra mulher grávida: pesquisa dos EUA mostra relação entre Covid-19 e lesões na placenta — Foto: Pixabay

Pesquisadores norte-americanos identificaram lesões na placenta de 16 grávidas diagnosticadas com Covid-19. Um artigo publicado nesta sexta-feira (22) pela revista “American Journal of Clinical Pathology” não apontou riscos para o feto, mas alertou para alterações na função do órgão.

A placenta é o primeiro órgão a se formar no desenvolvimento fetal e tem funções análogas às dos pulmões, intestinos, rins e fígado. É a partir dela que o feto absorve oxigênio e nutrientes da corrente sanguínea da mãe.

“A maioria dos bebês nasceram sem nenhuma complicação, após gestações normais”, disse em nota Jeffrey Goldstein, professor da Northwestern University e um dos autores do estudo. “[a lesão] Não pareceu induzir resultados negativos nos nascimentos, com base em nossos dados que são limitados.”

O tipo de lesão observada mostrou um fluxo anormal no sangue entre as mães e fetos, o que sugere, segundo os especialistas, uma nova complicação da Covid-19. Os cientistas defenderam que a descoberta serve de alerta para que grávidas sejam monitoradas clinicamente durante a pandemia.

Acompanhar de perto

Para a professora de obstetrícia Emily Miller, co-autora do estudo, o monitoramento das grávidas tem que ser reforçado para garantir que os fetos se desenvolvam de maneira saudável.

“Não quero desenhar um cenário assustador, mas essas descobertas me preocupam”, disse Miller em um comunicado. “Saber que a Covid-19 pode causar alterações na placenta traz algumas implicações bastante significativas para a saúde de uma gravidez.”

Ela defende que o monitoramento seja feito a partir de testes “não-estressantes”, que consigam examinar a oxigenação da placenta e acompanhar o crescimento dos bebês em “uma taxa saudável”.

Sem transmissão vertical

Até o momento não há registro de transmissão da Covid-19 entre mães grávidas e seus bebês. Um artigo publicado na revista “Frontiers in Pediatrics”, trouxe a análise de quatro mães que estavam infectadas pelo vírus e que deram à luz em um hospital de Wuhan, cidade chinesa que foi o primeiro epicentro da doença.

De acordo com o artigo dos pesquisadores, nenhum dos bebês desenvolveu os sintomas da Covid-19, como febre ou tosse, embora eles tenham sido isolados em unidades de terapia intensiva e tenham sido alimentados com fórmula. Três dos quatro recém-nascidos fizeram o teste para o coronavírus e o resultado foi negativo. Uma das mães não autorizou que o exame fosse feito.