Média semanal de mortes maternas por Covid em 2021 já é mais do que dobro de 2020

Segundo a última atualização, no dia 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes - Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress
Segundo a última atualização, no dia 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes – Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress

O número de mortes maternas por Covid-19 mais do que dobrou nas 13 primeiras semanas de 2021 em relação à média semanal do ano passado. Passou de 10,4 óbitos (449 mortes em 43 semanas de pandemia de 2020) para 22,2 nas primeiras semanas deste ano, com 289 mortes.

Embora estudos mostrem que a gestação e o pós-parto aumentam o risco de complicações e morte por Covid-19, no Brasil o alto número de óbitos maternos associados à doença é atribuído, principalmente, à falta de assistência adequada.

Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) internadas com Covid não tiveram acesso à UTI e 33,3% não foram intubadas, último recurso terapêutico para os casos graves da Covid-19.

Os dados obtidos pela Folha vêm do OOBr Covid-19, um observatório obstétrico recém-lançado que agrupa informações de várias bases públicas, como os sistemas de nascidos vivos e de mortalidade materna, e o Sivep Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe). A atualização é semanal.

O painel é elaborado por pesquisadores da USP e da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e está dentro de um projeto maior que analisa dados materno-infantis no país e que conta com financiamento da Fundação Gates e de bolsas de pesquisa do CNPq e da Fapes (fundação de amparo à pesquisa do ES).

Segundo a última atualização, no dia 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes.

Existem outros 9.784 de registros de SRAG (síndrome respiratória aguda grave) não especificados nesse grupo, com 250 óbitos. Para os pesquisadores, é grande a possibilidade desses casos serem também Covid.

O que explica liderança do Brasil em ranking de mortes maternas?

Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) internadas com Covid não tiveram acesso à UTI e 33,3% não foram intubadas, último recurso terapêutico para os casos graves da Covid-19 - Foto: Jonathan Wiggs/The Boston Globe via Getty Images
Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) internadas com Covid não tiveram acesso à UTI – Foto: Jonathan Wiggs/The Boston Globe via Getty Images

Segundo a médica obstetra Rossana Pulcinelli Francisco, professora do departamento de ginecologia e obstetrícia da USP-SP e uma das criadoras do painel, os dados deixam evidentes as disparidades regionais envolvidas na falta de uma assistência materna adequada, cenário já apontado em outros estudos que colocaram o Brasil como líder mundial de mortes maternas por Covid.

No Pará, quase a metade (46%) das gestantes e puérperas mortas não puderam contar com terapia intensiva. Já no Rio Grande do Sul, 4% dos óbitos foram nessas circunstâncias.

No estado de São Paulo, 18% das gestantes e puérperas morreram fora da UTI e 38% não foram intubadas. Na capital paulista, 3% não chegaram à UTI e 24% não foram intubadas.

“Nos casos graves, uma boa assistência significa a mulher ter chegado à UTI. E como a maior complicação da Covid é a respiratória, ela precisa ter chance de ser intubada. Se ela morre antes disso, é porque não recebeu toda a assistência que deveria”, explica Rossana Francisco.

Segundo a médica, além da falta de leitos da UTI, o fato de as gestantes infectadas terem que percorrer longas distâncias para conseguir alguma assistência também pode contribuir para um pior desfecho.

De acordo com Lucas Lacerda, estudante de graduação de estatística da Ufes e que também integra o grupo que mantém o painel obstétrico, gestantes e puérperas com Covid residem em 2.520 municípios brasileiros e foram atendidas em 977 hospitais. Ainda estão sendo organizados os dados sobre o percentual de mulheres que se deslocaram para conseguir a internação.

A morte de uma menina de 13 anos, que estava com 31 semanas de gestação e que morreu em Medicilândia (PA) por complicações da Covid-19, exemplifica o gargalo.

Vítima de estupro, a criança vivia em Uruará (1.048 km de Belém) e foi atendida primeiro no hospital do município. Em seguida, foi levada para Medicilândia, a duas horas de carro.

Com quadro grave de Covid-19 e precisando de UTI, foi transferida para o Hospital Regional Público da Transamazônica, em Altamira. Mais uma hora e meia de estrada.

No meio do caminho, o quadro de saúde da menina piorou e a ambulância voltou para Medicilândia. Ela não resistiu e morreu na unidade.

Segundo Rossana Francisco, também é preciso analisar o tipo de UTI que tem atendido essas gestantes e puérperas com Covid-19. Além dos intensivistas, o serviço precisa ter médicos obstetras, neonatologistas e equipe multidisciplinar.

“Quando a gente tem uma gestante, os parâmetros de ventilação são diferentes, a quantidade de líquidos a ser ingerido [balanço hídrico] também tem que ser monitorada de uma outra forma”, explica.

A médica lembra que já existem evidências de que qualquer cirurgia feita em um paciente com Covid aumenta a mortalidade e, durante a pandemia, muitas gestações estão sendo interrompidas precocemente.

“A gente viu muitos serviços indicando o parto porque a paciente estava com Covid. Isso também piora a morbidade e mortalidade.”

As mortes maternas por Covid devem se somar às outras que acontecem anualmente por outras causas, como hipertensão e hemorragia. Em 2019, foram 1.575 óbitos durante a gestação ou no pós parto. Em 2018, foram 1.658 mortes.

Mas, para a médica Agatha Rodrigues, também responsável pelo observatório obstétrico e professora do departamento de estatística da Ufes, essa soma é até conservadora levando em conta que, durante a pandemia, muitas gestantes ficaram sem assistência adequada e isso pode estar se refletindo em mortes ainda não computadas.

A ideia do observatório, segundo ela, é justamente tentar mapear isso a partir de informações oficiais. “Sem dados, parece que não tem problema. Não conseguimos analisar o impacto da pandemia na saúde materno infantil e das políticas públicas.”

Rossana Francisco ressalta que o Brasil tem tido muitas dificuldades em reduzir as taxas de mortalidade materna, e uma das razões é fragilidade e as deficiências na atenção à saúde das mulheres durante o pré natal, parto e puerpério.

“A pandemia de Covid-19 deixou ainda mais claro essas deficiências, especialmente a desigualdade que temos entre os diferentes estados.”

Para ela, há uma necessidade urgente de reestruturação da rede de atenção materna, especialmente na identificação de hospitais que possam ser capacitados para atuar no cuidado dessas mulheres.

No campo da prevenção, a médica diz que é muito importante que a gestante possa ter o direito garantido ao isolamento social para se proteger da infecção.

Rede de médicas pede urgência de vacinação de gestantes

Especialistas pedem prioridade na vacinação das gestantes e puérperas com e sem comorbidades e mais atenção às medidas protetivas para garantir o isolamento dessas mulheres - Foto: AP Photo/Ramon Espinosa
Especialistas pedem prioridade na vacinação das gestantes e puérperas com e sem comorbidades e mais atenção às medidas protetivas para garantir o isolamento dessas mulheres – Foto: AP Photo/Ramon Espinosa

Um manifesto recente da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras alerta para os riscos que gestantes e puérperas enfrentam na pandemia de Covid-19.

Além da dificuldade de acesso aos leitos de UTI, o documento aponta para a desorganização dos serviços de assistência pré-natal, com suspensão de consultas, problemas de acesso ao atendimento adequado da Covid-19, falta de testes diagnósticos e de outros insumos terapêuticos.

Estudos mostram que dentre os fatores associados ao óbito materno por Covid estão o período do puerpério, a mulher ter cor preta, viver em área periurbana, não ter acesso ao Programa de Saúde da Família e morar a mais de 100 km do hospital de referência.

Segundo o manifesto, embora o Ministério da Saúde tenha publicado em setembro um manual de recomendações para a assistência às gestantes e puérperas durante a pandemia, não houve modificações importantes da estrutura, dos exames e do fluxo de atendimento, e as mortes continuaram acontecendo.

O documento também chama a atenção para as subnotificações. “Muitas mortes são registradas como SRAG de causa indeterminada porque não chegaram a ser testadas ou porque não havia testes disponíveis. Além disso, muitos óbitos fetais e neonatais também se associam aos óbitos maternos e precisam ser mais bem estudados.”

A rede pede prioridade na vacinação das gestantes e puérperas com e sem comorbidades e mais atenção às medidas protetivas para garantir o isolamento dessas mulheres.

O projeto de lei 3932/2020 que prevê o afastamento do trabalho presencial das gestantes, podendo suas atividades ser exercidas remotamente, foi aprovado pela Câmara dos Deputados mas continua parado no Senado.

REDE FEMINISTA DE GINECOLOGISTAS E OBSTETRAS – UM CHAMADO À AÇÃO CONTRA A MORTE MATERNA POR COVID-19 NO BRASIL

REPRODUÇÃO DO CONTEÚDO DO BLOG DE MELÂNIA AMORIM


REDE FEMINISTA DE GINECOLOGISTAS E OBSTETRAS

Um chamado à ação contra a morte materna por COVID-19 no Brasil

LINK PARA A VERSÃO EM INGLÊS

LINK PARA A VERSÃO EM ESPANHOL

Nós, da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, observamos com profunda preocupação os números alarmantes da pandemia de COVID-19 no país, com quase 340.000 mortes e tendo já ultrapassado a média diária de quatro mil mortes.  Além disso, sabemos que a pandemia em todo o seu curso afetou de forma desproporcional as mulheres, especialmente as mais vulneráveis, em múltiplas dimensões. De acordo com a ONU, “em todas as esferas, da saúde à economia, segurança à seguridade social, os impactos da COVID-19 são exacerbados para mulheres e meninas simplesmente por causa de seu sexo”.

Além disso, pudemos observar durante todo o ano de 2020 um expressivo aumento do número de mortes maternas provocadas por COVID-19 no Brasil. Desde abril do ano passado pesquisadoras brasileiras têm advertido e publicado estudos demonstrando a seriedade do problema (1, 2, 3). O número crescente de mortes durante a gravidez ou no puerpério levou o Brasil a uma posição tal em que oito de cada 10 mortes maternas relatadas no mundo ocorriam em nosso país (4).

Embora evidências diversas tenham se acumulado de que a gestação e o pós-parto aumentam o risco de complicações e morte por COVID-19 (5,6), também é certo que houve falhas assistenciais em proporção significativa das mortes maternas em nosso país. Além da desorganização dos serviços de assistência pré-natal, com suspensão de consultas, encontramos problemas importantes de acesso ao atendimento adequado da COVID-19, falta de testes diagnósticos, falta de insumos terapêuticos e de leitos de UTI específicos para a população obstétrica.  Um dos estudos analisando os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) na gravidez e pós-parto demonstrou que entre as mulheres que morreram, 6% não foram sequer hospitalizadas, cerca de 40% não foram admitidas em UTI, 43% não receberam ventilação mecânica e 26% não tiveram acesso a qualquer tipo de suporte respiratório. Mais ainda, dentre os fatores associados ao óbito foram encontrados estar no puerpério, ter cor preta, viver em área periurbana, não ter acesso ao Programa de Saúde da Família e morar a mais de 100km do hospital de referência (7). Essa associação com o racismo estrutural já tinha sido demonstrada em outro trabalho que encontrou piores desfechos e risco de morte materna quase duas vezes maior em mulheres negras (8).

Infelizmente, apesar da repercussão nacional e internacional desses trabalhos, da denúncia dessas mortes e mesmo de uma audiência pública na Câmara dos Deputados em agosto/2020 com a participação de representantes do Ministério da Saúde (MS), na prática não foram tomadas providências para reduzir a mortalidade materna por COVID-19 no Brasil. Embora o MS tenha publicado em setembro seu Manual de Recomendações para a Assistência à Gestante e à Puérpera Frente à Pandemia de COVID-19 (9), não houve modificações importantes da estrutura, dos exames e do fluxo de atendimento, e as mortes continuaram acontecendo. Além disso, deve-se notar que há subnotificação importante, porque muitas mortes são registradas como SRAG de causa indeterminada porque não chegaram a ser testadas ou porque não havia testes disponíveis (10). Analisando os casos de morte por SRAG até 23 de novembro de 2020, foram encontradas 363 mortes por COVID-19 e 160 por SRAG indeterminada (possivelmente COVID-19), o que implica em 523 mortes maternas por COVID-19 ou SRAG indeterminada e uma Razão de Mortalidade Materna (RMM) de 17,5 por 100.000 ou até maior (10).

O panorama não se modificou em 2021. De acordo com dados do próprio Ministério da Saúde, considerando as 10 primeiras semanas epidemiológicas, houve 102 casos de óbito materno por SRAG e 96 casos confirmados de COVID-19 (11). As manchetes de jornais noticiam diariamente casos trágicos de jovens mulheres que perdem a vida durante a gravidez ou no pós-parto, deixando um rastro de desolação, luto e desespero, sem falar em uma legião de órfãos da COVID-19, muitos dos quais prematuros, que se encontram sob os cuidados dos familiares. O impacto da COVID-19 na vida futura dessas crianças ainda persiste por ser estabelecido. Além disso, muitos óbitos fetais e neonatais também se associam aos óbitos maternos e precisam ser mais bem estudados. A tragédia da morte materna afeta toda a sociedade.

Na Nota Técnica 1/2021 DAPES/SAPS/MS sobre administração de vacinas a gestantes, é recomendada a vacinação de gestantes com comorbidades (diabetes, hipertensão arterial sistêmica crônica, obesidade, doença cardiovascular, asma brônquica, imunossuprimidas, transplantadas, doenças renais crônicas e doenças autoimunes), estabelecendo-se que a vacina “pode ser oferecida para gestantes sem comorbidades após avaliação dos riscos e benefícios, principalmente em relação às atividades desenvolvidas pela mulher”.  Recomenda-se também oferecer a vacina a puérperas e lactantes pertencentes aos grupos prioritários (12). Entretanto, a mesma Nota recomenda explicitamente que deve ser seguido o calendário de vacinação dos grupos prioritários disponíveis no Plano Nacional de Imunização Contra a COVID-19 e, como todos sabemos, a vacinação caminha muito lentamente no país. Muitas gestantes e puérperas com comorbidades continuam expostas enquanto não chega sua vez e, conforme já bastas vezes demonstrado, gravidez e puerpério são per se fatores de risco para complicações e morte por COVID-19, de forma que TODAS as gestantes e puérperas deveriam ser contempladas – e com urgência – no Plano Nacional de Imunização.

Consequências trágicas também têm surgido decorrentes da falta de decisão política de decretar medidas de distanciamento social e, quando necessário, o lockdown. Durante todo esse tempo, o governo nacional investiu deliberadamente na estratégia de empurrar o povo para a rua na tentativa de obter uma “imunidade de rebanho” natural, priorizando as atividades econômicas em detrimento da vida, o que veio a se provar ser uma necropolítica genocida. As gestantes e puérperas não estarão protegidas enquanto toda a população não estiver protegida, mas pelo menos medidas protetivas específicas poderiam ser adotadas, para garantir seu isolamento.  O projeto de Lei 3932/2020 que prevê o afastamento do trabalho presencial das gestantes, podendo suas atividades ser exercidas remotamente, foi aprovado pela Câmara dos Deputados mas continua parado no Senado.

Sendo assim, conclamamos toda a sociedade, profissionais de saúde, órgãos de imprensa, partidos políticos, organizações não governamentais, conselhos profissionais, especialmente de Medicina e Enfermagem, sociedades de especialidades, Ministério Público, deputados, senadores, ministros do Supremo Tribunal Federal, prefeitos, governadores, secretários municipais e estaduais de saúde, a envidar todos os esforços neste CHAMADO À AÇÃO PARA REDUÇÃO DA MORTALIDADE MATERNA POR COVID-19 NO BRASIL, para a implementação urgente e necessária das seguintes medidas:

  1. Informação, oferta e acesso a métodos contraceptivos – infelizmente, muitos serviços de planejamento reprodutivo interromperam o atendimento durante a pandemia e é impossível reduzir mortalidade materna sem garantir contracepção adequada e prevenir gestações não planejadas.
  2. Campanhas específicas envolvendo informação e esclarecimento sobre os riscos da COVID-19 na gravidez e no pós-parto, permitindo que as mulheres possam tomar decisões livres e conscientes sobre a possibilidade de postergar a gravidez para outro momento em que a pandemia esteja controlada. Além disso, alertar as gestantes para os devidos cuidados individuais: isolamento (sair somente para consultas e exames pré-natais ou motivos imprescindíveis), usar máscaras N95 e álcool gel.
  3. Reforço e aconselhamento das medidas de proteção individual nas consultas pré-natais.
  4. Garantir afastamento das gestantes de sua função laboral presencial em todo o país – atualmente depende de cada município, órgão ou de o patrão aceitar o atestado médico.
  5. Garantia de acesso ao pré-natal de qualidade, sem interrupção das consultas, sem “alta” do pré-natal.
  6. Renda mínima aceitável, justa e adequada para as gestantes que não têm trabalho formal, permitindo que possam ficar em casa.
  7. Distribuição gratuita de máscaras N95 para gestantes.
  8. Ampla testagem na porta de entrada das maternidades com testes rápidos moleculares.
  9. “Testes, testes e mais testes” para todas as gestantes e puérperas com sintomas ou contatos de pessoas com sintomas.
  10. Garantia de internação em UTI em instituições que garantam acompanhamento obstétrico de qualidade (sete dias por semana, 24 horas por dia)
  11. Inclusão imediata das gestantes no grupo prioritário de vacinas (TODAS as gestantes e não somente aquelas com comorbidades) e vacinação célere da população.

REFERÊNCIAS

  1. Amorim MMR, Soligo Takemoto M, Fonseca EBD. Maternal deaths with coronavirus disease 2019: a different outcome from low- to middle-resource countries? Am J Obstet Gynecol. 2020; 223(2):298-299.
  2. Takemoto MLS, Menezes MO, Andreucci CB, Knobel R, Sousa LAR, Katz L, Fonseca EB, Magalhães CG, Oliveira WK, Rezende-Filho J, Melo ASO, Amorim MMR. Maternal Mortality and COVID-19. J Matern Fetal Neonatal Med. 2020; 16:1-7
  3. Takemoto MLS, Menezes MO, Andreucci CB, Nakamura-Pereira M, Amorim MMR, Katz L, Knobel R. The tragedy of COVID-19 in Brazil: 124 maternal deaths and counting. Int J Gynaecol Obstet. 2020;151(1):154-156.
  4. Nakamura-Pereira M, Betina Andreucci C, de Oliveira Menezes M, Knobel R, Takemoto MLS. Worldwide maternal deaths due to COVID-19: A brief review. Int J Gynaecol Obstet. 2020; 151(1):148-150
  5. Zambrano LD, Ellington S, Strid P, Galang RR, Oduyebo T, Tong VT, Woodworth KR, Nahabedian JF 3rd, Azziz-Baumgartner E, Gilboa SM, Meaney-Delman D; CDC COVID-19 Response Pregnancy and Infant Linked Outcomes Team.Update: Characteristics of Symptomatic Women of Reproductive Age with Laboratory-Confirmed SARS-CoV-2 Infection by Pregnancy Status – United States, January 22-October 3, 2020. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2020; 69(44):1641-1647
  6. Lokken EM, Taylor GG, Huebner EM, Vanderhoeven J, Hendrickson S, Coler B, Sheng JS, Walker CL, McCartney SA, Kretzer NM, Resnick R, Kachikis A, Barnhart N, Schulte V, Bergam B, Ma KK, Albright C, Larios V, Kelley L, Larios V, Emhoff S, Rah J, Retzlaff K, Thomas C, Paek BW, Hsu RJ, Erickson A, Chang A, Mitchell T, Hwang JK, Gourley R, Erickson S, Delaney S, Kline CR, Archabald K, Blain M, LaCourse SM, Adams Waldorf KM; Washington COVID-19 in Pregnancy Collaborative. Higher severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 infection rate in pregnant patients. Am J Obstet Gynecol. 2021: S0002-9378(21)00098-3.
  7. Menezes MO, Takemoto MLS, Nakamura-Pereira M, Katz L, Amorim MMR, Salgado HO, Melo A, Diniz CSG, de Sousa LAR, Magalhaes CG, Knobel R, Andreucci CB; Brazilian Group of Studies for COVID-19, Risk factors for adverse outcomes among pregnant and postpartum women with acute respiratory distress syndrome due to COVID-19 in Brazil. Int J Gynaecol Obstet. 2020; 151(3):415-423.
  8. Santos DS, Menezes MO, Andreucci CB, Nakamura-Pereira M, Knobel R, Katz L, Salgado HO, de Amorim MMR, Takemoto MLS. Disproportionate impact of COVID-19 among pregnant and postpartum Black Women in Brazil through structural racism lens.Clin Infect Dis. 2020; 28:ciaa1066.
  9. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Nota Informativa nº 13/2020 – SE/GAB/SE/MS – Manual de Recomendações para a Assistência à Gestante e Puérpera frente à Pandemia de Covid-19 [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. – Brasília : Ministério da Saúde, 03/09/2020.
  10. Nakamura-Pereira M, Knobel R, Menezes MO, Andreucci CB, Takemoto MLS.  The impact of the COVID-19 pandemic on maternal mortality in Brazil: 523 maternal deaths by acute respiratory distress syndrome potentially associated with SARS-CoV-2. Int J Gynaecol Obstet. 2021 Feb 11. doi: 10.1002/ijgo.13643. Online ahead of print.
  11. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico Especial 54. Doença pelo Coronavírus COVID-19. Brasília, 18/03/2021.
  12. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Pragmáticas Estratégicas. Nota Técnica 1/2021 – DAPES/SAPS/MS.

Em 07/04/2021

Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras

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Câmara aprova projeto que protege gestantes durante o período de pandemia

Do PT na Câmara

Fotos Públicas/.Reprodução

Com o voto favorável da Bancada do PT, a Câmara nesta quinta-feira (18) o projeto de lei (PL 2442/20), da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), em coautoria com o deputado Alexandre Padilha (PT-SP), que valida pedidos médicos eletrônicos para realização de exames de pré-natal enquanto perdurar as medidas de isolamento para contenção do surto de Covid-19.

O texto, que segue para apreciação do Senado, também estende o prazo de validade de prescrições médicas e dos pedidos de exame por todo o período de gravidez e puerpério (pós-parto), e determina o acesso facilitado a gestantes e puérperas a cuidados intensivos e à internação em leitos de UTI durante a pandemia.

O deputado Alexandre Padilha relembrou que a proposta foi apresentada em uma audiência pública da Comissão de Acompanhamento da Covid-19, da Câmara, que contou com a participação de várias obstetras do País. “O Brasil, infelizmente é o campeão de morte materna e a mortalidade atinge duas vezes mais as mulheres negras, o que reforça a importância dessa proposta, da garantia dessa assistência”, afirmou.

Deputado Alexandre Padilha. Foto: Pablo Valadares/Agência Câmara

Garantir vaga

Padilha enfatizou que é preciso sempre ter vaga garantida para as gestantes no Sistema Único de Saúde (SUS). Ele destacou que isso está garantido na Rede Cegonha, programa criado durante o governo Dilma Rousseff, em 2011, quando ele foi o ministro da Saúde. O programa tem humanizado o atendimento as gestantes, com atenção a mulher e ao bebê, do pré-natal ao pós-parto.

A deputada Jandira Feghali, ao destacar a importância do projeto para proteger as gestantes, frisou que o Brasil é atualmente o País com maior número de mortes de mulheres grávidas por Covid-19 no mundo. “A nossa proposta reforça a assistência e o atendimento prioritário das mulheres grávidas neste momento tão grave da pandemia. Sabemos da importância do pré-natal para evitar doenças nas mães e nos fetos. Que estas grávidas possam ser protegidas”, defendeu.

Também são coautores do projeto os deputados Rodrigo Coelho (PSB-SC) e Dr. Zacharias Calil (DEM-GO).

Saúde da mulher em tempos de pandemia é tema de vídeo da Editora Fiocruz

Do Portal Fiocruz

Está no ar o segundo vídeo da série Como ser mulher pode afetar a saúde, ação da Editora Fiocruz para celebrar o mês das mulheres. Autora do livro Cenas de Parto e Políticas do Corpo, a antropóloga Rosa Carneiro, professora da Universidade de Brasília (UnB), fala sobre saúde das mulheres em tempos de pandemia, abordando questões como maternidade, direitos reprodutivos e saúde mental.

▶️ Confira o vídeo abaixo ou clique aqui para assistir.

A série, que teve início no Dia Internacional da Mulher (8/3), conta com a participação de quatro autoras e se estende por todo o mês de março, no canal da Editora no YouTube. No primeiro vídeo, a médica-sanitarista Ana Lúcia Pontes falou sobre saúde da mulher indígena.

▶️ Assista ao primeiro vídeo da série Como ser mulher pode afetar a saúde

As próximas participantes são as autoras Adriana de Paula Reis e Ana Paula Vosne Martins, que abordarão, respectivamente, os temas saúde da mulher no trabalho e história da saúde da mulher. Os depoimentos estarão disponíveis nos dias 22 e 29 de março.

A série apresenta ainda uma novidade: os vídeos da Editora passam a contar com intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), iniciativa que amplia e fortalece as medidas de acessibilidade adotadas pela Fiocruz em seus eventos, canais e redes de informação e comunicação.

Para finalizar e celebrar o especial em homenagem às mulheres, a Editora promoverá uma ação promocional em sua Livraria Virtual. De 27 a 31 de março, todos os livros da aba GÊNERO estarão com 25% de desconto. Nas compras on-line, a Editora Fiocruz entrega para todo o Brasil com frete grátis na modalide PAC/Correios.

▶️ Acesse o canal da Editora Fiocruz no YouTube

▶️ Acesse a Livraria Virtual da Editora Fiocruz

“Minha cunhada teve covid grávida de sete meses, deu à luz e morreu aos 30”

Do Universa

“A Taíssa era quase uma irmã para mim. Ela estava na minha vida desde que tinha 14 anos, quando começou a namorar meu irmão Victor. Na última quinta-feira (11), ela morreu com covid-19, aos 30 anos, um mês após apresentar os primeiros sintomas da doença. Ela já era mãe do Heitor, de 3 anos, e estava grávida de sete meses do segundo filho quando se infectou. Os médicos fizeram uma cesárea de emergência, meu sobrinho nasceu e, logo na sequência, ela foi intubada. Estou perdida e sem saber o que fazer…

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Ministério Público investiga contágio de bebês com covid-19 dentro de maternidade em Maceió

Ao menos 15 bebês foram diagnosticados com a doença em UTI neonatal. Unidade diz estar tomando cuidados, mas reconhece que alguns recém-nascidos foram contaminados dentro do local

Do El País

Beatriz, que estava com covid-19 e perdeu seu bebê, e a mãe, Elizabeth, em maternidade em Maceió.
Beatriz, que estava com covid-19 e perdeu seu bebê, e a mãe, Elizabeth, em maternidade em Maceió.VITOR BELTRÃO
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Um surto de covid-19 dentro da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal da Maternidade Escola Santa Mônica, referência em Alagoas para o atendimento a gestantes de alto risco, está sendo investigado pela Força-Tarefa de Combate à Covid-19 do Ministério Público do Estado. Os promotores pediram explicações para o Governo depois de recém-nascidos terem sido infectados dentro do próprio hospital. Até agora, foram confirmados 15 casos da doença entre bebês internados. Eles foram isolados e não podem, sequer, receber a visita das próprias mães.

O surto de covid-19 na UTI Neonatal foi confirmado em 9 de março. O hospital reconhece que alguns recém-nascidos foram infectados na maternidade, mas diz que outros já chegaram doentes, após serem transferidos de unidades de saúde da região, ou nasceram de mulheres com diagnóstico da doença. Inicialmente, 16 bebês internados na UTI Neonatal da Maternidade Santa Mônica estavam com suspeita de covid-19. Deles, 14 tiveram diagnóstico confirmado e foram isolados. Os outros dois apresentaram testagem negativa e foram transferidos para a Unidade de Cuidados Intermediários Convencionais. No dia seguinte, mais um bebê nascido de mãe com covid-19 também foi isolado na UTI. Na última sexta-feira (12), dos 15 recém-nascidos confirmados com a doença, um foi transferido para o Hospital Geral do Estado de Alagoas, devido a uma situação clínica neurológica anterior à covid-19. Os demais permanecem isolados na maternidade, sem agravamento e evoluindo conforme condições neonatais anteriores ao surto.

A maternidade diz que está “tomando medidas internas” para reforçar a proteção dos pacientes. Apesar disso, mulheres entrevistadas pela reportagem, que estiveram internadas na unidade nesta semana, relataram insegurança diante das medidas adotadas. Gestantes e puérperas são consideradas grupos de risco na pandemia.

Internada durante 23 dias na unidade de saúde, uma estudante grávida de 17 anos afirmou que ficou assustada com a notícia do surto dos bebês na UTI. “Achei que o hospital estava tomando os cuidados, sempre via as pessoas de máscara, passando álcool. Quando soube, fiquei desesperada, com medo. Tanto que hoje, quando recebi alta, foi um alívio. Me sinto muito mais segura voltando para casa”, afirmou. Segundo ela, depois da notícia do diagnóstico dos prematuros, o trânsito dos acompanhantes dentro do hospital foi limitado. “Eles não podiam mais sair para comer ou fumar.”

cake designer Beatriz Torres, de 28 anos, permaneceu internada na unidade até a tarde da última quinta-feira (11) e acompanhou o drama dos bebês diagnosticados com a doença. Ela conta que enquanto permaneceu na Maternidade Santa Mônica teve a temperatura aferida a todo momento, mas que a mãe dela, a acompanhante, não. “Me senti mais protegida enquanto estive no andar térreo da maternidade, o pessoal lá tinha mais medo de contágio. Apesar disso, ficamos em isolamento, sem poder sair para nada. Tanto que soube por uma reportagem dos bebês internados”, disse. Segundo Beatriz, não houve nenhum comunicado sobre o surto às mulheres internadas na unidade.

O fotógrafo do EL PAÍS andou pelas áreas comuns da maternidade e foi informado por uma funcionária, em reserva, de que nesses espaços não é feita aferição de temperatura dos visitantes. Segundo a assessoria de comunicação da maternidade, toda paciente de alto risco que chega passa, obrigatoriamente, por triagem. Nesse momento, todos os sinais vitais são averiguados, incluindo a temperatura, saturação e sintomas de síndrome gripal em todas as pacientes.

Diante do ocorrido com os bebês da UTI neonatal, a maternidade decidiu mantê-los em isolamento até o dia 23 de março, com adequação de uma enfermaria no térreo. Os pais das crianças, proibidos de fazer visitas no momento, estão recebendo boletins diários. Novas admissões estão sendo direcionadas para 11 leitos da Unidade de Cuidados Intermediários Neonatal Convencional. A maternidade também ampliou leitos inicialmente destinados para recém-nascidos suspeitos de covid-19.

Entrada da Maternidade Escola Santa Mônica, em Maceió.
Entrada da Maternidade Escola Santa Mônica, em Maceió. VITOR BELTRÃO

Em nota enviada nesta quinta-feira (11), a maternidade, gerida pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde em Alagoas, afirmou que “recentemente, com o aumento dos casos de covid-19 na população jovem, a demanda de pacientes na maternidade, assim como em todo país, aumentou sobremaneira.” Em função disso, disse estar recebendo apoio da Secretaria de Saúde do Estado na aquisição de equipamentos de proteção pessoal para os funcionários.

Na quarta-feira (10), o Ministério Público de Alagoas decidiu instaurar, por meio da 26ª Promotoria de Justiça da Capital, procedimento para acompanhar a situação. A direção da Santa Mônica encaminhou para o órgão a cópia de um memorando elaborado pelo Serviço de Infecções Hospitalares. O material dos autos, segundo a promotora de Justiça Louise Teixeira, também foi encaminhado ao Núcleo da Infância e da Juventude do MP, para acompanhamento e adoção de providências. O documento segue em análise.

Pandemia em alta no Nordeste

A Secretaria de Saúde de Alagoas confirmou, neste sábado, mais 716 novos casos de covid-19 no Estado, que tem um total de 139.645 confirmados para a doença desde o início da pandemia. Foram registradas 16 mortes, com isso Alagoas tem 3.182 óbitos por covid-19. Atualmente, 747 pacientes estão internados —263 deles em UTIs. A taxa de ocupação de leitos é de 73%, uma das mais baixas entre do Nordeste atualmente.

Mas mesmo com uma situação hospitalar mais tranquila, há pacientes que relatam ter sofrido com a negligência hospitalar no Estado. Beatriz, que ficou internada na maternidade Santa Mônica, conta que começou a sentir os sintomas de covid-19 no fim de fevereiro, ainda grávida. Chegou a receber atendimento no hospital do município de Coruripe, a 90 quilômetros de Maceió, onde vive. No entanto, foi enviada para casa sem realizar o teste. “Me trataram como se eu fosse qualquer pessoa. Estava com febre de mais de 39. Me colocaram no soro e depois disseram para voltar para casa. No mesmo dia, no domingo, às 18h30, voltei para lá. Não estava mais sentindo meu bebê mexer”, contou.

Beatriz voltou ao hospital no dia 1, para tentar novamente atendimento, mas decidiu ir até Maceió e realizar o teste para detecção de doença na rede particular. “No dia 2, fui ao hospital da minha cidade com o teste positivo, aí a médica de plantão já me mandou para a Santa Mônica em trabalho de parto de prematuro. Quando cheguei lá, meu bebê tinha vindo a óbito. Estava com 33 semanas, e o médico disse que o quadro agravou por causa da covid-19”, disse.

Segundo dados divulgados no final da semana pelas secretarias de saúde dos nove Estados do Nordeste, a situação mais crítica estava em Pernambuco, com 95% dos leitos de UTI covid-19 ocupados. No Rio Grande do Norte, a ocupação é de 92%. Já no Maranhão, é de 92% nos leitos da UTI da capital e 79% no interior. O Ceará tem 90,7% de ocupação, enquanto o Piauí, 90,4%. Paraíba, 86%, e Bahia, 88%. Em Sergipe, a ocupação é de 80,7%. Todos os Estados da região estão com tendência de alta nos casos, de acordo com a variação da média dos últimos sete dias.

Diante da situação, Pernambuco anunciou pela primeira vez desde o início da pandemia a contratação de 10 leitos em um hospital particular de outro Estado, a Bahia, para atendimento de pacientes com covid-19. Em pronunciamento transmitido pela internet, o secretário de Saúde pernambucano, André Longo, afirmou que deve haver um “aumento expressivo da mortalidade” nos próximos dias. “O vírus está com uma aceleração recorde, que pode tornar-se, a qualquer momento, superior à nossa capacidade de abrir leitos. Meu recado é que ou todos cooperam, ou vai faltar leito para quem precisa”, disse.

https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-03-10/a-rara-sindrome-que-ataca-algumas-criancas-um-mes-depois-da-covid-19.html

O estudo, que ainda conta com dados preliminares, analisou seis mães lactantes que receberam a vacina da Pfizer

O grupo de pesquisa estudou seis mães lactantes que receberam a vacina entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021. Todas tomaram as duas doses com um intervalo de 21 a 28 dias e, para comparação, foram analisadas amostras de leite materno antes da primeira dose e catorze dias após a segunda. Nenhuma delas tinha histórico de terem sido contaminadas pelo novo coronavírus.

Foi descoberto que, sete dias após a primeira dose da vacina, as amostras de leite materno demonstraram imunoglobulinas IgG e IgA substanciais contra o vírus da covid-19, o SARS-CoV-2. Os anticorpos IgA são comumente vistos após doenças respiratórias e o IgG é um anticorpo comum transmitido pelo sangue, que fornece imunidade.

Entre a primeira e a segunda dose, os níveis de anticorpos no leite materno diminuíram, mas a última dose fez com que eles aumentassem e permanecessem elevados. O estudo é relativamente pequeno e os dados ainda são preliminares, mas o resultado é promissor e mostra que bebês podem ter um certo nível de proteção, mesmo sem nenhuma vacina disponível para eles no momento.

Um estudo sobre a vacina da Pfizer com a BioNTech em grávidas está em andamento e os dados devem ser divulgados nos próximos meses.

A rara síndrome que ataca algumas crianças um mês depois da covid-19

Pediatras espanhóis divulgam os dados mais completos já obtidos sobre uma estranha sequela do SARS-CoV-2, que causa uma inflamação crítica

Do El País

Uma mãe e seu filho esperam para serem atendidos na unidade pediátrica de covid-19 em Palma de Mallorca (Espanha), em outubro de 2020.
Uma mãe e seu filho esperam para serem atendidos na unidade pediátrica de covid-19 em Palma de Mallorca (Espanha), em outubro de 2020.CATI CLADERA / EFE

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Um mês depois de estourar a primeira onda da pandemia de covid-19 na Espanha, pediatras de todo o país começaram a detectar casos de uma síndrome tão estranha que nem tinha nome. Já começava a ficar claro que o coronavírus SARS-CoV-2 causava uma doença grave, sobretudo em idosos ou pessoas com doenças prévias. Por isso era tão raro encontrar crianças que, entre quatro e seis semanas depois de serem infectadas, quando já pareciam completamente curadas, adoeciam novamente apresentando febre persistente, inflamação generalizada e outros sintomas que causavam sério risco à sua vida.

“Eram garotos de 8 a 14 anos que chegavam com uma forte dor abdominal e febre de vários dias”, recorda Alberto García-Salido, pediatra da UTI do Hospital Niño Jesús, em Madri. “Não tinham sintomas respiratórios como os adultos. A primeira coisa em que pensamos era apendicite; depois, que se tratava de uma síndrome inflamatória por uma infecção bacteriana”, conta.

Os pacientes apresentavam também olhos vermelhos, fraqueza, febre persistente, náuseas, vômitos e pressão baixa. Em questão de dias, a situação podia se complicar, obrigando a internar essas crianças na UTI. Embora o quadro pudesse afetar todos os principais órgãos, a maioria apresentava complicações cardíacas. Num primeiro momento se pensou na chamada doença de Kawasaki, uma enfermidade infantil sem causa conhecida, que causa inflamação dos vasos sanguíneos. Depois se entendeu que se tratava de uma nova afecção relacionada ao coronavírus SARS-CoV-2. Era um conjunto de sinais e sintomas, mais do que uma doença concreta, o que os médicos chamam de síndrome.

Organização Mundial da Saúde batizou essa nova doença em maio, diante de uma crescente lista de casos no Reino Unido, EUA, França e Itália: chamou-a de síndrome multissistêmica inflamatória pediátrica (MIS-C, na sigla em inglês). Desde então, muitos médicos se dedicam a estudar essa estranha síndrome, mas ainda não estão claras suas causas nem os fatores que determinam que uma criança, cerca de um mês depois de passar quase sem sintomas pela covid-19, possa adoecer a ponto de quase morrer.

“Estamos perante uma afecção pouquíssimo frequente”, ressalva Alfredo Tagarro, pediatra do Hospital Infanta Sofía, de Madri, e coordenador de um cadastro nacional sobre esta novo síndrome infantil. Em um estudo que acaba de apresentar no Congresso sobre o Retrovírus e Infecções Oportunistas, sua equipe analisou dados de 52 hospitais espanhóis. Desde o começo da pandemia, foram detectados apenas 90 casos de MIS-C no país europeu, o que representa 0,02% de todas as infecções registradas em pessoas de 0 a 18 anos, segundo Tagarro.

A MIS-C é a mais grave complicação pediátrica relacionada ao coronavírus a ser registrada nesta pandemia, tornando-se a principal causa de internações em UTIs infantis. Entre os 90 casos registrados houve duas mortes, ambas de crianças com doenças pré-existentes.

O período de latência entre a infecção e o surgimento da síndrome é muito variável, podendo chegar a quatro meses, segundo Cinta Moraleda, pediatra do Hospital 12 de Octubre, em Madri, e uma das coordenadoras do estudo. “Estamos tentando averiguar por que isto acontece, qual é o mecanismo imunológico. Por enquanto consideramos que a infecção pelo SARS-CoV-2 funciona como o gatilho de uma arma que faz a resposta imunológica disparar em pacientes que têm uma predisposição”, ressalta.

Em outros países, a prevalência dessa estranha síndrome é similar à da Espanha. Há tão poucos casos nesse país europeu que se torna muito difícil extrair conclusões válidas estatisticamente, inclusive para saber se afeta mais meninos que meninas (62% dos casos observados envolvem crianças do sexo masculino). Todas as complicações detectadas parecem responder a uma mesma causa: uma reação descontrolada do sistema imunológico em decorrência do vírus. É algo muito semelhante ao que acontece nos pacientes mais velhos, a chamada tempestades de citocinas, que causa a covid-19 em sua forma grave e pode acabar com a vida do paciente.

Sabe-se que as crianças são infectadas pelo coronavírus tanto quanto os adultos, mas sofrem muitos menos os sintomas da covid-19. A reação do organismo contra uma infecção tem dois grandes braços. Um é o inato, a primeira linha de resposta, e o outro é o adaptativo, porque inclui moléculas especializadas, como os anticorpos e os linfócitos, capazes de neutralizar o SARS-CoV-2 e eliminar as células infectadas. Nas crianças, a reação inata é muito mais ativa que nos adultos, o que pode explicar por que elas barram a infecção antes do surgimento de complicações ou mesmo de sintomas leves.

No caso do MIS-C, essa reação imunológica inata é defeituosa. Em lugar de conter o vírus de forma efetiva, o organismo produz uma inflamação generalizada que pode atacar pulmões, fígado, olhos, cérebro e, sobretudo, o coração. É possível que o vírus fique escondido em algum órgão e ressurja após algumas semanas. Há dados que sustentam essa hipótese. “Um mês depois da infecção, só 15% das crianças têm um exame PCR positivo”, explica Tagarro. “Já entre as crianças com risco de MIS-C, essa percentagem sobe a 45%”, acrescenta.

Os médicos tratam essa síndrome com corticoides, para sufocar a resposta imunológica exacerbada, e com imunoglobulina intravenosa, que contém anticorpos. “Agora que já sabemos o que estamos enfrentando, começamos a aplicar o tratamento assim que estabelecemos um vínculo com o coronavírus, e a resposta é muito rápida, com uma melhora clara em apenas 12 horas”, explica García-Salido. “Na imensa maioria dos casos a síndrome é curada e não deixa sequelas”, destaca.

A síndrome em crianças é semelhante às complicações pós-covid já conhecidas em adultos. Em todo caso, a mortalidade associada é muito baixa, inferior a 2% dos casos, recorda Federico Martinón-Torres, pediatra Hospital Clínico Universitário de Santiago de Compostela (Espanha). A situação, diz, era muito pior na primeira onda do que na segunda e na terceira, quando a comunidade médica já está de sobreaviso. “Agora já andamos com a pulga atrás da orelha”, explica. “Mas, embora se trate de uma síndrome muito pouco comum, ela revela a importância de vacinar também as crianças”, conclui.

A equipe de Tagarro desenvolveu um sistema on-line para calcular o risco de sofrer esta síndrome. Baseia-se em marcadores que são frequentes, como, por exemplo, a alta concentração de proteínas inflamatórias no sangue, a falta de glóbulos brancos e a anemia.