Covid: “Decisão de adiar gravidez é da mulher e do médico, não do governo”

Do Universa

Ministério da Saúde pede que, se possível, mulheres adiem a gravidez na pandemia - iStock
Ministério da Saúde pede que, se possível, mulheres adiem a gravidez na pandemia Imagem: iStock

 

Ao ouvir que o secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Parente, pediu que as mulheres adiem a gravidez até haver uma melhora da pandemia de covid-19, a antropóloga Débora Diniz não ficou surpresa. “É uma história que se repete quando as emergências sanitárias não são capazes de colocar a saúde reprodutiva no centro de qualquer resposta”, diz.

A pesquisadora de questões de gênero e autora de duas edições da Pesquisa Nacional de Aborto (2010 e 2016) lembra que essa recomendação para a mulher não engravidar também foi feita durante outra epidemia, em 2015: a do zika vírus, que provoca microcefalia em fetos.

Segundo reportagem da Folha desta quarta (14), a média semanal de mortes maternas por covid-19 em 2021 já é mais do que o dobro da média de 2020. Passou de 10,4 óbitos (449 mortes em 43 semanas de pandemia em 2020) para 22,2 nas primeiras semanas deste ano, com 289 mortes. Embora estudos mostrem que a gestação e o pós-parto aumentam o risco de complicações e morte por covid-19, no Brasil o alto número de óbitos maternos associados à doença é atribuído, principalmente, à falta de assistência adequada, segundo especialistas.

“Medida eficaz mesmo para garantir a segurança das mulheres é dar a elas acesso incondicional à informação e aos métodos de planejamento familiar, diz Diniz. ‘E reconhecer que a mulher grávida pode ou não adoecer de covid. Mas temos no negacionismo dos políticos de saúde no Brasil uma ‘desimaginação’ de que o corpo que pode adoecer é um corpo grávido.”

A recomendação do secretário Parente foi feita na mesma semana em que as deputadas federais Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e Talíria Petrone (PSOL-RJ) protocolaram, na Câmara, um projeto de lei que pede a inclusão de grávidas e puérperas no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização contra a covid-19.

Melania Amorim, da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, diz que o Ministério da Saúde se pronunciou tardiamente sobre a mortalidade de gestantes na pandemia. Mas, para ela, é preciso sim que se faça esse planejamento materno levando em consideração que o sistema de saúde do país está voltado para a covid-19.

“O governo pedir para adiar a maternidade não pode ser uma medida isolada. As mulheres devem ter o direito de saber os riscos que correm e ter sua autonomia respeitada”, diz a ginecologista. ‘Como escreveu Simone de Beauvoir, basta uma crise para que os direitos das mulheres sejam questionados. E veio a crise e mais uma vez nossos direitos são colocados em cheque.”

Ela afirma, no entanto, que é preciso mesmo fazer esse planejamento materno levando em consideração que o sistema de saúde do país está voltado para a covid-19. “Não sou dona do útero de ninguém, mas não é uma época boa para isso [engravidar]. Entendo que nem para todas é possível adiar, mas é uma decisão que deve ser tomada considerando todos os riscos. Só não pode falar: ‘Se vire e não engravide, até porque, com a pandemia, ocorreu uma diminuição na oferta de métodos contraceptivos.”

Decisão deve ser tomada junto a ginecologista

Para o presidente da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), o médico Agnaldo Lopes, a decisão de adiar ou não uma gravidez planejada deve ser tomada pela mulher junto a seu ginecologista, levando em consideração fatores de risco como hipertensão, doença cardiovascular e diabetes. E então, diz, elas mesmas devem avaliar os riscos e benefícios de adiar a gravidez. Outros fatores, segundo o ginecologista, também precisam ser levados em conta.

“E quando uma mulher de 42 anos tem que adiar a gravidez? A gente não sabe como vai ser o futuro. Mas é importante frisar que a mulher tem que estar no centro da tomada dessa decisão junto ao obstetra.”

Lopes também diz que não dá para afirmar que esse aumento no número de mortes de mulheres grávidas na pandemia se dá principalmente por causa da covid-19. “A gente não sabe necessariamente se é por causa da covid-19, mas sabemos que grande parte delas não teve assistência. E metade delas não foi para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Então, é difícil interpretar os dados”, afirma.

Pregnancy-associated deaths will increase in the COVID-19 era

Maternal mortality due to partner violence, suicide, and substance overdoses will increase due to COVID-19.

Do blog da Maternal Health Task Force

 

By: Kathryn Mishkin, DrPH, MPH, MA, Associate Director of Evaluation, March of Dimes; Rahul Gupta, MD, MPH, MBA, FACP, Chief Medical & Health Officer, SVP, March of Dimes; Roland Estrella, MS, MBA, Senior Director of Science, Data, and Evaluation, March of Dimes

 

COVID-19 has devastated the lives of the American people with over 250,000 deaths to date, and this impact is going to extend to pregnant and postpartum women.

This is terrifying considering that the United States entered the pandemic with the infamous status of having the highest maternal mortality rate among all developed nations. Already, researchers are concerned about an increase in maternal morbidity and mortality due to COVID-19’s effect on pregnant women’s immune systems, its contribution to cardiopulmonary complications, and the higher rates of hospitalizations and ICU visits among pregnant women with COVID. It is feared that Black women will be particularly affected, and this is troubling considering that Black women were already four times more likely to die in the maternal period compared to White women pre-COVID.

It is clear that COVID-19 will adversely affect pregnant and postpartum women’s physical health.

However, current predictions have not yet painted a full picture of how COVID-19 may contribute to an increase in maternal mortality in the United States. It is essential that we expand our discussion beyond medical causes of death to include maternal deaths due to suicide, substance overdose, and homicide as a result of partner violence.

We expect pregnant and postpartum women to die more frequently from these causes because we are seeing this happen in the general population. Since January, drug overdoses have spiked according to the Office of National Drug Control Policy. A physician in California says he has seen more deaths from suicide than COVID-19, with a year’s worth of suicide deaths occurring in just four weeks. The United Nations Population Fund predicts IPV rates will increase by 20% during a three-month quarantine. Physical distancing, while protective against COVID-19, exacerbates the risk of being abused and suffering from mental illness because of social isolation and increased stress. From a social perspective, women are now facing the brunt of increased responsibility for domestic responsibilities that comes with the “new normal”, and this added stress will have an impact on their health.

Furthermore, we know that pregnant and postpartum women were dying from these causes before the pandemic. A global study revealed that 13-36% of maternal deaths are due to suicide. In 2016, Philadelphia’s maternal mortality review reported that nearly half of pregnancy-associated deaths were due to injuries including homicide, suicide, and drug overdoses. In California, research shows that drug-related and suicide deaths are the second and seventh leading cause of maternal deaths, respectively, constituting 18% of all maternal deaths.

We also know that certain populations are at higher risk for these types of deaths. People living with underlying mental illness are at higher risk for dying from suicide and substance overdose deaths and women experiencing IPV are more likely to have a mental illness. Measures taken to limit the spread of the virus will result in reduced access to and use of care and support for some at-risk populations.

In sum, pregnant and postpartum women were already experiencing IPV, suffering from mental illness, and using substances, and COVID-19 will exacerbate these issues.

We call on public health leaders to join the #Blanket Change movement to raise awareness about the urgent health crisis moms and babies are facing in order to ramp up prevention and care and support documentation of these deaths.

Prevention of death due to these causes is possible but requires an effective and efficient health care and social support system. The American College of Obstetricians and Gynecologists provides recommendations for screening for substance use, IPV, and depression. In spite of this, screening appears to be lacking. For example, a recent report by the Centers for Disease Control and Prevention stated that 20% of women were not asked by their health care provider about depression symptoms in the prenatal period and 12.5% were not asked in the postpartum period, with a wide discrepancy in rates depending on where a woman was living.  We call on health care providers to improve screening for mental illness, IPV, and substance use to improve the health of moms and babies.

In addition to effective prevention, we call for all states to document the frequency of deaths due to suicide, IPV, and substance overdose through maternal mortality review.  Full documentation on a national scale will allow us to develop a better understanding of the reasons that pregnant and postpartum women are dying. Without a comprehensive review, our ability to develop critical recommendations to prevent future deaths will remain inadequate.

LONG-COVID IN CHILDREN – PARENTS AND FAMILIES’ PERSPECTIVES NEED TO BE HEARD

Long-COVID in Children – Parents and families’ perspectives need to be heard

Frances Simpson is a founding member of LongCovidKids and LongCovidSOS and a Lecturer in Psychology at Coventry University. She is on Twitter: @FrancesorFran

Carolyn Chew-Graham is a GP in Central Manchester and Professor of General Practice Research at Keele University; Carolyn’s main areas of interest include the primary care management of people with multiple health conditions and difficult to understand symptoms which are key components of her clinical work. She is on Twitter: @CizCG

Amali Lokugamage is a consultant in obstetrics and gynaecology, and honorary associate professor and currently has long covid. She is on Twitter: @Docamali

PARENTS HAVE BEEN STRUGGLING to obtain help and support, watching their children with persistent symptoms following acute infection with COVID-19. Early on in the pandemic, parents and children felt they were disbelieved by their general practitioners (GPs) as they witnessed an emerging phenomenon. As ‘Long-COVID’ came to be recognised in adults1 and named as such by patients2 there came to be a growing acceptance that Long-COVID can also occur in children as evidence emerged.3 Indeed, ONS statistics suggest that 12-15% of children may have symptoms lasting 5 weeks after an acute infection with COVID-19.

12-15% of children may have symptoms lasting 5 weeks after an acute infection with COVID-19.

The lack of GP awareness has led to some parents whose children have long-COVID feeling that their children’s symptoms were minimised or even ‘gaslighted’; experiences that were highlighted in the recent All Party Parliamentary Group (APPG) about Long Covid in children on 26th January 2021. Parents described desperation and fear of seeking further help, not wanting to be branded with the stigma of ‘Munchausen by proxy’. While the adult population of Long-COVID sufferers were assembling on social media groups and collecting data, children were discounted under the misconception that children did not get COVID severely, that they did not transmit COVID, that they were often asymptomatic.4 Even when the facts of paediatric inflammatory multisystem syndrome temporally associated with COVID-19 (PIMS-TS) in children started to present themselves,5 it was understood that this was very rare. When parents started to wonder why their children were becoming ill from COVID and not making a full recovery, there was no narrative in existence that helped them to make sense of this.

Parents described desperation and fear of seeking further help.

Through desperation, mothers Frances Simpson and Sammie McFarland, whose children became sick in March 2020, joined forces to start the support group LongCovidKids. These families found themselves in a confusing place of being told that there was no proof that their childrens’ symptoms were a result of COVID, due to the lack of testing available in Spring 2020. LongCovidKids has evolved to provide support for families with Long-COVID; this now has 940 parents or carers, many of whom have more than one child with Long-COVID. Symptoms described by members of the group range from the most common symptoms of fatigue, headache, abdominal pain, dizziness and muscle pain to the most frightening to parent – electric shock-like pain in the eyes and head, nerve pain, testicular pain, liver damage, paralysis and new-onset seizures; some of their experiences are captured in a film.

Parents have noted that their children are also affected by anxiety, OCD and extremely volatile mood changes which may be associated with neuro-inflammatory processes6 as well as a natural response to being so unwell. The majority of parents would describe their child’s symptoms as fluctuating, and many describe a gap of many weeks between the acute stage and the start of Long-COVID. This variability causes further confusion when presenting the problems to a GP and often leads to diagnoses of anxiety or symptoms attributed to the effects of lockdown or home-schooling.

Children are also affected by anxiety, OCD and extremely volatile mood changes which may be associated with neuro-inflammatory processes.

The combination of an often mild or asymptomatic acute illness, followed by delayed debilitating symptoms of Long-COVID, lack of testing and limited awareness amongst GPs about the syndrome has meant that in the UK it is currently difficult to assess the prevalence of Long-COVID in children. The ONS data has now given us some estimation and the recent European data helps to validate this emerging condition in children.3

NHS England now recognises that Long COVID in children needs urgent evaluation and as this official recognition, epidemiological evidence and long-COVID paediatric services evolve, it is hoped that GPs will be provided the resources they need to support families where children are affected by Long-COVID.

In consultations with parents and children, it is preferable to admit to the limitations of knowledge, whilst being interested in the experiences of the family, believing in presented problems and offering support, help and referral. Parents who are frightened for their child need to feel listened to, and the child needs their experiences to be validated. After all, their lived experiences are also valuable evidence.

 

References

  1. Greenhalgh T, Knight M, A’Court C, Buxton M, Husain L. Management of post-acute covid-19 in primary care. BMJ2020;370:m3026. doi:10.1136/bmj.m3026 pmid:32784198
  2. Body Politic COVID-19 Support Group. Report: what does covid-19 recovery actually look like? 2020. https://patientresearchcovid19.com/research/report-1/
  3. Buonsenso D, Munblit D, De Rose C et al; Preliminary Evidence on Long COVID in children. medRxiv 2021.01.23.21250375; doi: https://doi.org/10.1101/2021.01.23.21250375
  4. Zimmermann P, Curtis N. Why is COVID-19 less severe in children? A review of the proposed mechanisms underlying the age-related difference in severity of SARS-CoV-2 infectionsArchives of Disease in Childhood Published Online First: 01 December 2020. doi: 10.1136/archdischild-2020-320338
  5. Harwood R, Allin B, Jones CE et al; PIMS-TS National Consensus Management Study Group. A national consensus management pathway for paediatric inflammatory multisystem syndrome temporally associated with COVID-19 (PIMS-TS): results of a national Delphi process. Lancet Child Adolesc Health. 2021 Feb;5(2):133-141. doi: 10.1016/S2352-4642(20)30304-7. Epub 2020 Sep 18. Erratum in: Lancet Child Adolesc Health. 2021 Feb;5(2):e5. PMID: 32956615; PMCID: PMC7500943.
  6. Mazza MG, De Lorenzo R, Conte C et al; COVID-19 BioB Outpatient Clinic Study group, Benedetti F. Anxiety and depression in COVID-19 survivors: Role of inflammatory and clinical predictors. Brain Behav Immun. 2020 Oct;89:594-600. doi: 10.1016/j.bbi.2020.07.037. Epub 2020 Jul 30. PMID: 32738287; PMCID: PMC7390748.

 

Featured photo by Kat J on Unsplash

I’m an epidemiologist. I’ll be glad to get whatever vaccine I’m offered

The rapid development of effective, safe vaccines in just under a year is something of a scientific miracle

Do Guardian

 

A nurse prepares a dose of Oxford-AstraZeneca COVID-19 vaccine
‘Even the least effective vaccine available appears to reduce the risk of the things we care about most – hospitalisation and death – by a very large amount.’ Photograph: Michael Dantas/AFP/Getty Images

At the start of the pandemic, it was very hard to predict anything. There were predictions of endless Covid-19 pain, wave upon wave of sickness and death, and fears that we would be stuck with painful trade-offs between our health and livelihoods for years to come.

But the vaccinations have changed everything. The light at the end of the tunnel is now so much closer than we could’ve hoped back in March 2020.

Few people would’ve – could’ve – predicted the speed with which we have developed vaccinations. If you had asked most scientific professionals what was a realistic timeline for effective vaccines to be rolled out, most answers would’ve run to years. And this was an understandable assumption – prior to Covid-19, the quickest vaccination development took four years, and many vaccines took far longer than that.

Covid-19 was first sequenced on 10 January 2020. The first Covid-19 vaccination not as part of a clinical trial was given on 8 December 2020 in the UK. 333 days in total to go from the most basic science to an effective, safe vaccination that is already saving lives across the world.

But with this miraculous success has come a slew of arguments. Should we be going with the most clinically efficacious vaccine that will block more transmission? What about herd immunity – which vaccine will provide us with the most protection long term?

To an extent, these discussions are important. Despite the early stage of the worldwide vaccine rollout, there is some data that certain vaccines have proven more effective in the short term against both the initial virus and its variants. If our aim is to keep Australia from having any disease outbreaks at all, as we have done so well with our Covid-19 restrictions, there’s a reasonable debate to be had about which vaccine we want to use.

But equally, it’s easy to miss the woods for the trees. Even the least effective vaccine available appears to reduce the risk of the things we care about most – hospitalisation and death – by a very large amount. While individual trials were not powered to detect a statistically significant effect, the overall impact of vaccines seems to be that they reduce your risk of getting really sick from Covid-19 even if they don’t stop you from getting the disease entirely.

On top of this, herd immunity isn’t a sure-fire bet no matter the vaccine. We can deal with variants in the short term, perhaps, but when we consider the really long term, things become inherently uncertain. If one vaccination prevents onwards transmission for 24 months, but the protection wanes and then disappears entirely over the course of a decade – similar to, for example, the whooping cough vaccine – then herd immunity would be much harder to maintain. We might be left in a situation where, similar to influenza, we all have to get vaccinated every year, except instead of it being a public health bonus it’s a national necessity because otherwise the virus will break out again in the community.

Given that the disease is unlikely to be eliminated in much of the world any time soon, we have to deal with the unwelcome fact that people will be bringing coronavirus into the country for the foreseeable future. SARS-CoV-2 will continue to mutate, and as I said at the start, making predictions is something of a fool’s game.

All that being said, we can deal with what we know now, and what we know now is that all of the approved vaccines are safe and effective. Yes, there is some debate over whether, from a public health standpoint, the long-term benefits of one immunisation over another are important. I’m not trying to stifle that conversation – it’s a discussion we need to have.

But we should take a moment and consider where we were in February 2020, and how amazingly far we’ve come since then. We may have to live with Covid-19 for a time longer, but even the least effective vaccine approved so far is a level of success that no one predicted a year ago.

In Australia two vaccines have so far received approval from the Therapeutic Goods Administration: the Pfizer vaccine, which has an efficacy rate after two doses of 95%, and the Astra Zeneca vaccine, approved on Tuesday, which has an efficacy rate of 62%. A third vaccine, Novavax, with an efficacy of 89% in phase 3 trials, has been purchased in advance by the federal government but not yet approved for use in Australia.

So which vaccine will I be getting, as an epidemiologist and public health worker? Well, I agree wholeheartedly with Nobel laureate Professor Peter Doherty on this one: I’ll take whatever I’m offered (and be glad to have it).

The best vaccine is the one that’s in your arm.

• Gideon Meyerowitz-Katz is an epidemiologist working in chronic disease

O que significa cuidar de um filho numa pandemia?

O sofrimento das crianças na emergência da covid-19 deve levar os pais a responder à pergunta mais importante para a próxima geração —e agir

Via El País

Confinado, garoto de cinco anos exibe desenho da janela de seu apartamento em Zenica (Bósnia e Herzegovina). Série mostra crianças isoladas pelo mundo e suas imagens da pandemia —Ilhan desenhou bombeiros, profissionais essenciais e "seus heróis".
Confinado, garoto de cinco anos exibe desenho da janela de seu apartamento em Zenica (Bósnia e Herzegovina). Série mostra crianças isoladas pelo mundo e suas imagens da pandemia —Ilhan desenhou bombeiros, profissionais essenciais e “seus heróis”.DADO RUVIC / REUTERS

 

O menino é filho único e tem oito anos. Logo nas primeiras semanas da pandemia, ele elegeu dois bichos de pelúcia para serem seus parceiros. Quando jogava videogame, colocava um dos bonecos ao lado, com um controle no colo, como se estivessem brincando juntos. Os amigos seguiam com ele dividindo as atividades do dia. O menino fantasiava outros meninos para enfrentar a falta atroz de outras crianças. Uma mãe me conta, por tela, que seu bebê nasceu na pandemia e logo completará um ano sem nunca ter visto uma outra criança. Já começa a andar e a balbuciar algumas tentativas de palavras sem jamais ter encontrado ou tocado em outro bebê. Que tipo de efeito isso terá sobre a sua vida? E se a pandemia durar mais um ano?, ela pergunta, mas sem a esperança de uma resposta. Outra menina pede: “Mãe, me dá uma criança?”.

A pandemia forjou uma realidade de crianças sem crianças. Ainda não conhecemos totalmente os efeitos que essa experiência radical pode ter sobre quem estreia na vida. Também não sabemos quando esse cotidiano será superado, já que são muitas as variáveis: do tempo para completar a vacinação ao impacto das novas cepas que já começaram a circular. Negar a emergência sociossanitária, como alguns estão fazendo, é a pior escolha possível. Como os adultos de sua vida lidam com essa pandemia será um exemplo que marcará profundamente a formação de cada criança, porque todos os desafios e as escolhas éticas fundamentais de uma vida humana estão colocados nesse acontecimento. Pode faltar criança para brincar, mas não pode faltar ética para formar.

“Faltar” criança para conviver é um dado da realidade em uma pandemia. É duro, mas há que se lidar com ele. Faltar ética ao escolher como enfrentar a crise pode ser mais complicado e ter efeitos mais longos. As crianças estão observando o que os pais fazem com ainda maior atenção porque também elas sentem nos ossos a emergência. As lições do agora serão para toda a vida.

O que significa cuidar de uma filha ou filho numa pandemia? Ou o que significa cuidar da próxima geração numa emergência global de saúde pública, já que somos todos pais daquelas e daqueles que assumirão a responsabilidade por esse mundo nas próximas décadas? Essa questão vale para todos os adultos em qualquer país do mundo, mas no Brasil ela ganha contornos muito mais dramáticos.

Onde estamos metidos

O primeiro passo é entender onde estamos metidos. A ampla disseminação da ideia de que estamos vivendo algo surpreendente e inesperado, que teria pegado a todos de surpresa, é falsa. A ocorrência de pandemias não é novidade para Governos e instituições. Se foi, é por incompetência e irresponsabilidade. E também por essa praga que se pode chamar de síndrome do curto prazo, que é a escolha de governar com medidas de visibilidade imediata, porque têm mais impacto para as ambições do governante nas próximas eleições, do que com planejamento de longo prazo, cujos benefícios ultrapassam o mandato porque visam ao bem comum.

Quem acompanha o tema da saúde pública e as comunicações da Organização Mundial da Saúde sabe que o surgimento de mais uma pandemia era previsto. Assim como o fato de que as pandemias se tornarão mais frequentes, devido à emergência climática (causa e efeito da destruição de habitats de espécies) e à ampla circulação de pessoas e de mercadorias em um mundo globalizado. São o que o microbiologista francês Philippe Sansonetti, do Collége de France, chama de “doenças do antropoceno”: “as doenças que estão principalmente, senão exclusivamente, ligadas ao fato de os humanos terem dominado o planeta e ao impacto que estão causando sobre a Terra”.

Há protocolos para enfrentar pandemias preparados muitos anos antes do primeiro caso de coronavírus em Wuhan. Diretrizes de enfrentamento foram criadas principalmente a partir de 2003, com a emergência da SARS (síndrome aguda respiratória grave). Até mesmo o Banco Mundial oferece há anos uma linha de crédito para os países enfrentarem pandemias. Em 2017, por exemplo, lançou títulos especializados com o objetivo de garantir apoio financeiro ao Pandemic Emergency Financing Facility (PEF), um mecanismo criado para financiar países em desenvolvimento que enfrentam o risco de uma pandemia.

A surpresa pode ser para os cidadãos, que não receberam toda informação que deveriam ou se recusaram a acreditar na que receberam, caso da emergência climática que as lideranças indígenas alertam há décadas e os cientistas também. Mas não deveria ser surpresa para os Governos. E, se foi, é preciso entender o porquê e apurar responsabilidades.

É importante compreender também que a gestão pública da pandemia tem sido muito desigual. O Lowy Institute, um centro de estudos e debates da Austrália, publicou no final de janeiro uma pesquisa em que analisou os dados e a atuação de 98 países. O estudo mostrou o Brasil com a nota mais baixa na condução da pandemia (4,3) e a Nova Zelândia com a nota mais alta (94,4). É razoável supor que uma criança brasileira sofrerá muito mais impacto com a pandemia do que uma criança neozelandesa ou de países em que o Governo usou o conhecimento científico e especializado disponível para enfrentar a emergência sanitária.

Liderar o ranking de má gestão pública da pandemia, como é o caso do Brasil, tem consequências evidentes. A pior delas está exposta diariamente nas covas abertas para abrigar os mortos: atualmente, mais de 1.000 por dia, e quase 230.000 no total. Embora o Brasil seja o segundo país em número de mortes, essa tragédia é a realidade de vários países, e está intimamente conectada com a incompetência na condução do enfrentamento da covid-19. A má gestão é ainda mais evidente em países como o Brasil e a Inglaterra, que possuem sistemas públicos de saúde que, apesar de sucateados pelos Governos neoliberais, ainda assim são um exemplo para o mundo. No Brasil, o SUS não foi apenas sucateado, mas atacado pelo vírus do subinvestimento crônico desde o seu nascimento.

Diferentemente de outros países com evidente má gestão da crise sociossanitária, o Brasil se tornou um caso único, que entrará para os livros de história da pandemia de covid-19. O Governo Bolsonaro não ganhou o título de pior gestor por incompetência, mas por ter colocado em prática uma “estratégia institucional de propagação do vírus”. A partir da análise de 3.049 normas federais, um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e da Conectas Direitos Humanos, divulgado no último dia 21 pelo EL PAÍS, comprovou a ação deliberada do Governo para a propagação do vírus, com o objetivo de acelerar o contágio da população para poder retomar as atividades econômicas.

Um grupo de entidades religiosas, entre elas a CNBB e a Fundação Luterana de Diaconia, fizeram uma denúncia baseada no estudo junto ao Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos na semana passada. Relacionadas à covid-19, há pelo menos três comunicações por genocídio e outros crimes contra a humanidade cometidos por Bolsonaro e membros do Governo no Tribunal Penal Internacional. Outras devem chegar, tornando a hashtag #BolsonaroEmHaia cada vez mais forte.

Pelo menos mais um pedido de impeachment, esse dos professores da Faculdade de Direito da USP, a mais prestigiosa do país, baseou-se no estudo para somar-se nesta semana aos mais de 60 que já desembarcaram no Congresso. Como é sabido, Bolsonaro “comprou” a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, estratégicos para decidir a abertura de um processo de impeachment. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o presidente que se elegeu mentindo que era “contra a corrupção” beneficiou 285 parlamentares com 3 bilhões reais de dinheiro extra em troca de votos. Nosso dinheiro, é importante lembrar.

“festa da vitória” de Arthur Lira (Progressistas), o novo presidente da Câmara, denunciado duas vezes por corrupção passiva e organização criminosa, reuniu 300 pessoas no mesmo espaço físico quando mais de 1.000 famílias por dia choram seus mortos. Como nomear o ato de um parlamentar, eleito presidente da Câmara graças à troca de dinheiro público por votos, troca feita pelo presidente da República para impedir a abertura do seu processo de impeachment, comemorar o escárnio dessa vitória reunindo 300 pessoas no mesmo espaço, a luxuosa mansão de um empresário denunciado por fraude, quando o Brasil soma quase 230.000 mortos por um vírus transmitido por proximidade física?

Às voltas com um Governo que comprovadamente recusou a oferta de testes e de vacinas em 2020 e, em 2021, ainda não conseguiu garantir um cronograma confiável de vacinação, a sociedade e as instituições têm pouca energia e recursos para debater e enfrentar as consequências da pandemia. Quando se acompanha a linha do tempo dos atos de Bolsonaro para disseminar o vírus e das reações do Judiciário, do Legislativo e da sociedade a esses atos, torna-se evidente que quase todos os esforços no Brasil têm sido investidos em bloquear ou neutralizar o boicote sistemático do Governo ao enfrentamento da pandemia.

Grande parte da energia da sociedade e das instituições está sendo gasta na redução de danos dos atos de Bolsonaro e de seus ministros contra a saúde pública. Isso significa que Bolsonaro se tornou um vírus que não só ajuda a disseminar o transmissor da covid-19, como também suga toda a capacidade de combate do sistema imunológico da sociedade. Não há como combater dois vírus ao mesmo tempo. A resposta para neutralizar o vírus Bolsonaro é óbvia e foi prevista na Constituição.

O que um adulto faz numa situação dessas?

Essa é a situação. E é com ela que nós, os adultos, precisamos lidar, para cuidar das futuras gerações.

Quando o presidente da República é comprovadamente o principal propagador do vírus, todas as pessoas precisam se posicionar e lutar para barrar o que alguns dos juristas mais respeitáveis do Brasil têm definido como crimes contra a humanidade. Votar é apenas uma pequena parte dos deveres de um cidadão numa democracia. Omitir-se diante de uma política de extermínio que já sepultou quase 230.000 brasileiros, ciente de que uma parte dessas mortes poderia ter sido evitada se as medidas corretas de prevenção e de enfrentamento tivessem sido tomadas, é a pior lição que se pode dar a um filho. É ensinar que, diante de uma ameaça, devemos nos deixar matar.

As crianças mais velhas já confrontam o pai ou a mãe ou ambos: o que é que você vai fazer? Em caso de alguns adolescentes, essa pergunta é jogada como desafio e em tom de afronta. Mas, prestando um pouco mais de atenção, é possível escutar o medo. O que está nas entrelinhas é: como você vai me cuidar?

Ao contrário de muitos países, especialmente na Europa, o Brasil nunca fez lockdown. A palavra em inglês, que já entrou no vocabulário da covid-19, significa “confinamento”. Significa fechar mesmo, não fazer de conta, como fazem a maioria dos Estados e dos municípios do país, ao submeter-se à pressão de empresários e comerciantes que nada entendem de saúde pública. Possivelmente, também não entendem de economia, já que há vários estudos sérios, feitos por gente séria, que mostram que o melhor para a economia é controlar a pandemia.

Se os governantes, aqueles que têm autoridade e responsabilidade de executar as políticas de saúde pública, preferem se submeter àqueles que financiam suas campanhas políticas em vez de cumprir sua obrigação constitucional de defender o conjunto da população, é necessário pensar melhor no voto da próxima eleição. Enquanto isso, adultos responsáveis tomam todas as medidas necessárias à prevenção a que têm acesso —isolamento e higiene e, caso sejam obrigados a sair, máscara e distanciamento.

Se um pai ou mãe não é capaz de mostrar ao seu filho ou filha, por palavras, mas principalmente pelo exemplo, que sua escolha individual deve ser tomada não em função de seus próprios interesses, comodidade ou privilégios, mas no interesse do coletivo e especialmente dos mais frágeis, que tipo de pai ou mãe ou que tipo de pessoa é você?

Aqueles que não podem promover seu próprio isolamento, porque estão submetidos à vontade dos empregadores ou porque trabalham em serviços essenciais, devem pressionar seus sindicatos e outras representações, quando elas existem, somando-se à parcela da sociedade que luta por medidas efetivas de combate à covid-19. E todos devem lutar para que os mais pobres, a maioria deles negros, que são também proporcionalmente os que mais morrem por covid-19, a maioria na informalidade, recebam auxílio emergencial.

Segundo o economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), o fim do pagamento do auxílio emergencial pode condenar uma parcela entre 10% e 15% da população brasileira a viver em pobreza extrema, dobrando o número de miseráveis no país. Isso significa que entre 21 milhões e 31 milhões de pessoas podem já estar passando fome. Campanhas para alimentar os famintos que se espalham por todo o país já se iniciaram promovidas pela sociedade civil organizada nessa nova onda de covid-19.

Quem individualmente menos precisa de ajuda é quem mais tem obrigação de lutar pelo coletivo.

Abrir ou fechar as escolas, eis a falsa questão

Se a premissa do debate sobre as escolas numa pandemia é uma oposição entre saúde e educação ou entre sociedade e professores ou ainda entre prevenção da pandemia e prevenção da saúde mental das crianças, o debate já começa muito, mas muito torto, e não pode terminar em nada bom. Infelizmente, é o que tem acontecido em várias instâncias.

frase “não podemos continuar mais um ano com as escolas fechadas” é equivocada. As escolhas de saúde pública, assim como as da vida, não são apenas uma questão de vontade, mas de responsabilidade e de estratégia. O que não podemos é continuar mais um ano com um presidente que dissemina o vírus, o que não podemos é continuar mais um ano com uma das polícias que mais matam no mundo, o que não podemos é continuar mais um ano com criminosos destruindo impunemente a Amazônia. Essas são situações criadas pela sociedade que estão matando a sociedade e que podem e devem ser mudadas por ela.

A pandemia exige estratégias diferentes para que possa ser controlada e, enquanto não for, mate o menos possível. Podemos e devemos reduzir seu impacto com medidas de prevenção da doença e garantia de vacinação, assim como devemos encontrar mecanismos de proteção dos mais pobres para que não morram por fome. Parte dessas medidas de saúde pública, porém, podem depender sim de manter os prédios das escolas fechados. A questão é que prédios fechados não deveriam significar escolas fechadas. Quando significam é porque há um problema com o entendimento do que é uma escola.

A experiência da pandemia mostrou algo à sociedade e aos adultos. Como tem sido dito por pesquisadores do tema da infância, como a psicanalista Ilana Katz, doutora pela Faculdade de Educação da USP, foram as crianças que apontaram o quanto a escola é essencial. “O debate precisou atravessar a simplificação do ‘abre e fecha a escola’, desimplicado das suas consequências territoriais, para considerar, com seriedade, a função da escola”, diz Katz. “Foi preciso dimensionar o seu lugar social e a importância de sua tarefa como agenciadora da cultura e da vida com todos os outros. Isso se colocou na forma de ausência e saudade no cotidiano das crianças e das suas famílias e tornou evidente onde, como e para o quê uma escola faz falta. Como consequência, apresentou a possibilidade de ampliação da compreensão da função da escola, sua centralidade no laço social e sua condição de serviço essencial”.

De certo modo, aconteceu com a escola pública o mesmo que aconteceu com o SUS. Era considerado imprestável por parte da sociedade até a pandemia mostrar que, apesar de terrivelmente sucateado nos últimos anos, o SUS é um trunfo precioso. Não fosse o sistema de saúde pública, o Brasil estaria numa situação ainda mais dramática. Já com a escola pública, poucos se importavam para além do discurso sem ação. Professores sempre mal pagos, escolas sem equipamentos, prédios depredados, alguns dos piores índices de aprendizado do mundo, crianças há anos na escola sem conseguir se alfabetizar, índices alarmantes de evasão e a tal da “normalidade” seguia.

Nos anos que antecederam o Governo Bolsonaro, a educação foi atacada pelo programa ideológico que se autodenominou Escola Sem Partido, mas mostrou-se escola com o pior partido, sofreu bullying por supostamente ser um “antro de esquerdopatas”, professores foram perseguidos e humilhados por ativistas de extrema direita e suas milícias digitais. Para piorar, o Governo Bolsonaro encontrou —propositalmente— a pior sequência de nulidades para colocar à frente do Ministério da Educação, páreo apenas para o atual ministro da Saúde, o general da ativa Eduardo Pazuello.

Ao mesmo tempo, o Governo tenta retroceder alguns séculos de avanço civilizatório e colocar a família como uma totalidade que não precisa da sociedade, defendendo bobagens como o homeschooling (escola em casa), porque a família se bastaria. Não qualquer família, claro, mas a “certa”, aquela “de homem e de mulher”, de preferência o primeiro vestido de azul e a segunda de rosa. “Tudo pela família, tudo feito em casa, tudo protegido. Protegido de mundo, do outro, de alteridade”, comenta Katz.

E então a pandemia botou as crianças e os adolescentes em casa e, bem, o óbvio ficou óbvio para (quase) todos: não se faz educação sozinho nem entre quatro paredes. E, mais uma obviedade: é muito difícil ser professor. Nunca tantos pais exaustos perceberam o quanto os professores ganham pouco e recebem pouco apoio para fazer o seu trabalho. Pelo pior acontecimento, alguns pilares da democracia finalmente ficaram claros para (quase) todos: saúde e escola são essenciais.

A questão é o que se faz com o que se descobre. Uma parte importante do debate sobre a escola não é sobre a escola, mas sobre onde os pais vão colocar os filhos para poder trabalhar —ou, em alguns casos, para ter paz. Essa também é uma questão válida, mas não é a principal. “A escola não existe para resolver um problema dos adultos, ela existe para permitir que crianças sejam educadas num espaço de diversidade de experiências, e então possam se tornar pessoas responsáveis pela sua comunidade e capazes de desenvolver seus potenciais para a criação e a manutenção do comum”, diz Katz.

Assim, a questão de abrir ou não os prédios, que são apenas parte do que uma escola deve ser, é uma fração dessa conversa. Se a escola é essencial, então é passada a hora de realmente tratar a escola como essencial —e aí não estamos falando de prédios apenas, mas de toda a comunidade escolar, a começar pelos professores e funcionários. Se a escola é essencial então é preciso tratá-la como essencial —e não, mais uma vez, rearranjar o desarranjo. Numa pandemia, tratar a escola como essencial é determinar que é um serviço essencial e, portanto, professores e funcionários devem ser colocados na frente da fila de vacinação. Até agora, os professores não foram vacinados. E, sem medidas práticas, qualquer conversa é pura demagogia. Ou pior, é escolher o corpo do outro para que seja sacrificado. Sempre o do outro, claro.

É preciso se perguntar de forma mais profunda, comprometida e honesta do que tem sido feito: abrir as escolas para quê? Para que elas continuem sucateadas, negligenciadas, aviltadas? Obrigar os professores e os funcionários a trabalhar numa pandemia, fazendo apenas o mínimo (ou no máximo o mínimo) para protegê-los, da mesma forma que os obrigam a ensinar sem condições para ensinar? Esse é um momento terrível, mas é também um momento de possibilidades. Tanto no que se refere ao destino que a sociedade dará à descoberta de que o SUS é algo precioso, que precisa ser urgentemente fortalecido, quanto ao destino que se dará à descoberta de que a escola é essencial, para muito além do que antes era percebido no cotidiano.

Entre tanto material de qualidade produzido sobre esse tema, reproduzo aqui um trecho do manifesto Ocupar Escolas, Proteger Pessoas, Recriar a Educação, assinado por várias organizações ligadas à educação e à saúde:

“A pandemia desagregou o sistema educativo e a discussão sobre sua reorganização mantém-se no dilema da volta ou não às aulas presenciais. Um problema complexo, com vários níveis, dimensões e interfaces, foi simplificado como se fosse uma simples escolha dual: abrir escolas ou manter suspensas suas atividades. Pior, a suposta dicotomia rede pública e privada, utilizada com frequência para sustentar a desvalorização do que é público estatal, é falaciosa mesmo se tocarmos exclusivamente na questão da infraestrutura. É preciso construir caminhos para superar o negacionismo e os falsos dilemas no campo da Educação.

É necessário questionar desde logo o termo retorno. Não é possível retornar na vida, é preciso seguir e refazer, reinventar, recriar. As vivências desse período podem ensejar aprendizagens, a vida na pandemia se faz de acontecimentos que devem ser trazidos para as construções curriculares que acontecem no chão da escola, mesmo que agora em espaços virtuais. Não se trata de cumprir currículos ou repor saberes escolares, mas de fazer do processo vivido durante a pandemia uma oportunidade de troca de saberes e experiências, momentos de fortalecimento de laços pessoais e sociais. Momentos de resistência criativa e solidariedade com as comunidades escolares.

Nesse aspecto, são necessárias políticas de inclusão digital específicas para os estudantes que necessitem, com fornecimento de equipamentos e acesso à internet para atividades educacionais. Reabrir e ocupar os espaços institucionais da educação implica, enfim, questionar se, como sociedade, estamos satisfeitos/as com o modelo de escola que concebemos, construímos e reproduzimos ou se, ao contrário, vale a pena lutar para rever o que é a escola e, com isso, recriar a educação”.

Há um ponto levantado pelo manifesto que me parece crucial para botar rumo no debate: não há mesmo retorno possível. Se a escola, essa que é feita de gente viva e diversa, for reaberta nos parâmetros de antes da pandemia, como mero depósito dos filhos dos mais pobres, para que os pais possam exercer seus trabalhos precarizados e agora também se arriscarem a ser contaminados; ou então como commoditybusiness, instrumento de reprodução de privilégios, no caso das escolas privadas de elite, mais uma oportunidade histórica será perdida.

Diante da tragédia, mais uma vez teremos escolhido o pior como sociedade. Já se a escola for investida, com investimento de recursos e com investimento de tempo de todos os envolvidos, convertida em prioridade real, ela estará aberta mesmo que os prédios fiquem fechados (ou voltem a ser fechados) até os profissionais de educação serem vacinados e as autoridades sociossanitárias tiverem convicção de que é seguro abri-los.

Jemima, de seis anos, desenhou um piquenique com os pais e os avós, algo de que sente falta durante o confinamento em Bekasi (Indonésia).
Jemima, de seis anos, desenhou um piquenique com os pais e os avós, algo de que sente falta durante o confinamento em Bekasi (Indonésia). WILLY KURNIAWAN / REUTERS

O que as crianças podem ensinar aos adultos?

O menino que abre esse texto fez dos bonecos de pelúcia suas crianças imaginárias. Ao observarem sua fabulação, os pais procuraram outros pais da escola para criar um encontro regular pelas telas do game Minecraft. Ao se juntarem, o que as crianças construíram? Uma escola. Deram a ela o mesmo nome da sua. Um dia resolveram jogar também com monstros. Antes, porém, garantiram a fortificação da escola para que ela pudesse sobreviver ao ataque.

Essa cena não expressa apenas amor, mas cuidado. Crianças confinadas se juntando para cuidar da escola da forma que lhes é possível. E, cuidando da escola, cuidam uns dos outros, porque juntos, apesar do isolamento físico.

Essa história tão bonita e tão simbólica foi contada pela psicanalista Luciana Pires. Especialista em psicanálise com crianças e adolescentes pela Tavistock Clinic, de Londres, e doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, ela tem refletido sobre as brincadeiras da quarentena. Instigada pelas construções que seus pacientes vêm produzindo durante o isolamento (e pelo quanto ela tem aprendido com eles), Luciana Pires e o Departamento de Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientae fizeram um chamado para que famílias, escolas e profissionais de saúde relatassem o que ela tem chamado de “brincário”.

As crianças inventaram mundos e se inventaram no mundo nessa pandemia. “No caminho da fantasia de movimentos, uma vez que estamos privados deles, um garoto de cinco anos passou dias falando e desenhando sobre o movimento da água nos canos da casa e finalmente para a rua. E, na mais franca brincadeira de realização de desejo, outro menino construiu um controle remoto de um drone com o qual viaja para todos os lugares que deseja”, conta a psicanalista. Outro garoto, esse com seis anos, passou os primeiros dias da quarentena construindo e brincando de Arca de Noé. Sonhava em salvar a todos do “dilúvio” que se apresentava, agora com o nome de covid-19.

O mais surpreendente é um fenômeno que une crianças de partes muito diferentes do planeta: elas estão criando casa dentro de casa. Tendas e barracas de todos os tipos, com os materiais disponíveis, de lençóis a pedaços de tecido, de caixas a sobras de madeira, embaixo de mesas, no canto de sofás, na esquina do corredor, em lugares possíveis e também impossíveis, meninas e meninos nunca construíram tanto como nessa pandemia. Um dos garotos inventou uma cabana no meio da sala e de lá pede tele-entrega. Logo, sentiu necessidade de aumentar a casa e construiu mais um cômodo, expandindo seu mundo dentro do mundo.

O que as crianças fazem lá dentro? “Nossas casas não são mais as mesmas e definitivamente ganharam novos contornos e sentidos. As casas precisam então ser repensadas e re-representadas a partir das brincadeiras”, diz a psicanalista. “Essas cabanas também permitem que se crie um ‘fora da casa’, um campo externo. Delimitam um espaço de dentro, deixando o resto de fora. Pois não só nos entocamos, mas passamos a fazer o que fazíamos fora de casa dentro: vamos à escola, trabalhamos, temos consultas médicas etc. Talvez as cabanas queiram recriar o íntimo dos lares no meio da casa invadida. Agora que a casa virou o mundo, a criança precisa ter uma casa no mundo.”

Como na fábula do menino que apontava que o rei estava nu, foram também as crianças que, nessa pandemia, apontaram que aquilo que os adultos chamavam de “normal” era bem precário. Num mundo que priorizou o indivíduo, nunca a rede fez tanta falta. De repente, a precariedade das relações e do cotidiano se revelou em todas as suas ausências. Como diz um ditado africano, para educar uma criança é preciso toda uma aldeia. Não basta a família, é preciso a escola. Não basta a escola, é preciso a comunidade. Só se faz gente junto com gente.

Também foram as crianças que apontaram que não seria possível rearranjar o mundo dentro de casa como se algo da dimensão do acontecimento de uma pandemia não exigisse lidar com as perdas e recriar o mundo. Com as suas possibilidades, juntando restos e retalhos do que vão encontrando, arrebanhando os bonecos, as crianças foram as primeiras a fazer a sua parte, inventando um mundo dentro da casa que virou mundo para serem capazes de viver com dentro e com fora. Agora, precisamos escutá-las, aprender com elas e criar um mundo em que elas possam viver. Porque, como diz uma adolescente chamada Greta Thunberg, “nossa casa está em chamas”. De dentro de suas cabanas fortificadas, o que as crianças nos perguntam é: e agora, o que vocês vão fazer?

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora de ‘Brasil, construtor de ruínas: um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro’ (Arquipélago). Site: elianebrum.com Email: [email protected] Twitter, Instagram e Facebook: @brumelianebrum

Vacina contra a covid-19, do veneno ao antídoto em um ano

Do El País
Vacinada aos 90. Uma enfermeira do Hospital Universitário de Coventry (Inglaterra) aplica à paciente Margaret Keenan, de 90 anos, a vacina da PfizerBioNtech contra a covid-19, em 8 de dezembro. Keenan se tornou assim a primeira pessoa vacinada no Reino Unido, que se antecipou aos outros países europeus e aos EUA na autorização do soro contra o novo coronavírus.
Vacinada aos 90. Uma enfermeira do Hospital Universitário de Coventry (Inglaterra) aplica à paciente Margaret Keenan, de 90 anos, a vacina da Pfizer/BioNtech contra a covid-19, em 8 de dezembro. Keenan se tornou assim a primeira pessoa vacinada no Reino Unido, que se antecipou aos outros países europeus e aos EUA na autorização do soro contra o novo coronavírus. JACOB KING AFP

Imaginávamos estar a salvo em nossas sociedades hiperprotegidas e não demos ouvidos aos sinais lançados por outros vírus e aos que pediam planos de contingência.

 

Este ano longo e triste começou com a pior notícia imaginável: um vírus desconhecido com um potencial pandêmico que demorou alguns meses para se tornar evidente no Ocidente. Mas este ano também termina com a melhor notícia possível dada a situação: a chegada das vacinas contra a covid-19. Elas não resolverão o problema de terça até quinta-feira, mas o farão na segunda metade do ano nos países ricos e, esperamos, dentro de alguns anos no mundo em desenvolvimento.

As vacinas são uma ferramenta essencial da medicina e um dos fatores —juntamente com os antibióticos e o saneamento— que fizeram a expectativa média de vida dobrar no século XX nos países ocidentais, de 45 para 90 anos (arredondando um pouco). Mas nunca a ciência havia respondido tão depressa a um vírus emergente. Viajamos do veneno ao antídoto em apenas um ano. Um feito sem precedentes que exige reflexão. Os historiadores da ciência terão tempo mais adiante para analisar o assunto em detalhes, mas há algumas explicações que podemos traçar agora, quando ainda estamos mergulhados na segunda onda da pandemia e vendo chegar a terceira após as desaconselháveis celebrações natalinas. A primeira é a veloz perspicácia dos cientistas ante a ameaça. Virologistas, epidemiologistas, imunologistas e geneticistas arregaçaram as mangas em janeiro, no mesmo momento em que os cientistas chineses publicaram a sequência genética do SARS-CoV-2, quando ele ainda não tinha esse nome nem nenhum outro (além da designação “vírus chinês” tão apreciada por Donald Trump).

Como fogo na palha, alastrou-se a ideia de que Bill Gates havia previsto a pandemia numa conferência e inclusive apresentado a foto de um coronavírus como ilustração. E é verdade. Mas o motivo pelo qual um dos grandes filantropos de nosso tempo demonstrou tal presciência é que Gates é muito bem informado pela elite científica, que há décadas adverte sobre o risco dos vírus emergentes com potencial pandêmico. E o slide do coronavírus é explicado porque os vírus dessa família, como o SARS e o MERS, já tinham ameaçado o mundo na década passada, como também certas versões do vírus da gripe. Lembram-se? H1N1, H5N1 e toda aquela quantidade de siglas que já parecem arcaicas, mas que continuam por aí esperando sua oportunidade.

Há outras razões para a façanha científica. Num segmento em que o segredo industrial e as patentes costumam dominar o panorama, vimos neste caso uma considerável colaboração entre o setor público e o privado, e também através de fronteiras. Os reguladores auditaram os ensaios clínicos desde o início, e as três fases dos testes foram sobrepostas para acelerar o processo. São lições muito importantes para o futuro. E o mais essencial de tudo é que Governos devem investir intensamente em ciência e medicina. Se isso ocorrer, 2020 terá sido um ano bom apesar de tudo.

Covid-19 e a ferida no útero

O confinamento imposto pela pandemia aumentou as barreiras de acesso das mulheres pobres ao aborto clandestino por medicamentos

Do El País

Ativista pró-escolha mostra medicamento considerado seguro às mulheres, mas que está sendo negado na Irlanda do Norte, onde o aborto é legal.
Ativista pró-escolha mostra medicamento considerado seguro às mulheres, mas que está sendo negado na Irlanda do Norte, onde o aborto é legal. Jason Cairnduff / Reuters

Ela foi descrita pela notícia como mulher anônima de 31 anos. O título dizia “o caso aconteceu em Bom Jesus do Norte”, uma geografia infeliz para quem morreu por planejar a vida. Ao que se sabe, ela foi a primeira mulher a morrer de aborto clandestino no Brasil durante a pandemia. A mulher sem nome “estava grávida de dois meses”, diz o marido. Foi duas vezes buscar socorro em espaços de morte, as casas inseguras para aborto. Usou sonda, permanganato de potássio, seringas. Morreu de parada cardíaca. Por que insistia? Não sabemos e não importa a intimidade de suas razões. Bastar saber que era uma mulher decidida a não ser forçada à maternidade durante a pandemia.

Ela foi morta pela pandemia. Causa e efeito podem ser disputados nesta narrativa, é verdade: sua morte não foi pelo vírus da covid-19, mas pelas políticas da vida que regem os corpos das mulheres como matéria a ser controlada pela lei penal. A mulher anônima morreu como se arriscavam milhares de mulheres nas práticas inseguras dos anos 1970 ou 1980 na América Latina, antes da circulação clandestina do misoprostol (cytotec) como pílula abortiva. O confinamento imposto pela pandemia aumentou as barreiras de acesso das mulheres pobres ao aborto clandestino por medicamentos. Não foi por acaso que a mulher anônima morreu sangrando — a ferida do útero não é alegórica. Os espaços de morte fazem alguns corpos sangrarem, enquanto outros se protegem da pandemia distantes da ameaça do vírus ou da lei penal.

Necropolítica se tornou a palavra obrigatória para descrever os efeitos da pandemia em uns corpos e não em outros. A palavra foi criada por um corpo-autor que sobrevive aos efeitos da necropolítica no racismo, o camaronês Achille Mbembe. A necropolítica provoca a destruição dos corpos, abandonando-os nos “espaços de morte”. Habitar os espaços de morte não é uma escolha dos indivíduos, mas uma tática espoliadora dos poderes que regulam as desigualdades. Assim é o encarceramento em massa de populações negras e latinas nos Estados Unidos. É assim que pensamos cada mulher que busca uma clínica clandestina e insegura de aborto durante a pandemia. A mulher anônima foi vítima da necropolítica patriarcal que faz uso da lei penal para perseguir, punir e matar mulheres.

O código da morte desta mulher no atestado de óbito deveria ser disputado. O Código Internacional de Doenças (CID) resume as razões de porque as populações morrem. Nem I46 de “parada cardíaca” ou O06 de “aborto não especificado” explicaram de que morreu a mulher anônima. Deveria ter os números mais complexos do manual de doenças que combinassem o “novo vírus covid” U07.1 com Z59.6, o que descreve a morte relacionada ao “baixo rendimento”. A mulher anônima morreu porque era pobre, porque sobrevivia à pandemia com o corpo marcado pelo patriarcado racista das Américas: seria o número das múltiplas interseccionalidades das desigualdades nos códigos das doenças. Morreu porque vive na região que mais criminaliza o aborto no mundo. Ela morreu da pandemia de covid-19, pois as regras de isolamento social tornaram ainda mais difíceis o acesso à clandestinidade segura para o aborto.

A necropolítica patriarcal não conhece fronteiras. Na Romênia, dos 280 hospitais públicos, somente 11 ofereciam aborto como cuidados essenciais em saúde durante a pandemia. A pandemia se tornou o acontecimento para restringir os direitos reprodutivos sem precisar nomeá-los como batalha política— basta o isolamento social, o risco de contágio nas ruas, a priorização do que seriam necessidades de saúde emergenciais. Tão trágica quanto a morte da mulher anônima no Brasil, foi a peregrinação da mulher polonesa que, após tentar o aborto com pílulas na clandestinidade, dirigiu até Alemanha para daí tomar um voo até à Inglaterra. No trajeto, dormia no carro. Exausta, sofreu um acidente de trânsito, foi hospitalizada. Quando pode fazer o aborto, estava dois dias além do limite autorizado pela lei da Inglaterra para o aborto. Está em intenso sofrimento mental por ser forçada a se manter grávida.

A anônima brasileira morreu pelo cruzamento da lei penal com a pandemia de covid-19. A anônima polonesa enlouquece pela mesma razão. Mas não por coincidência as duas sobrevivem a regimes políticos dos mais autoritários do planeta — são mulheres espoliadas pelo patriarcado que faz de seus corpos a matéria de perseguição moral para impor a necropolítica como tática de extermínio de mulheres vulneráveis. Não haveria morte, sangramento ou sofrimento se o aborto fosse reconhecido como deve ser: uma necessidade de saúde.

Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown

Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR

Covid-19: Prolonged and relapsing course of illness has implications for returning workers

Publicado originalmente nos blogs do BMJ. Leia o original (em inglês)

Covid-19 is a new illness on a scale not seen in living memory. Every article and webcast about covid-19 has the same message: “We are still learning; we don’t know enough yet.” However, out of this sea of information, protean patterns of illness are emerging. Doctors, governments, and countries have made huge efforts to treat patients and prevent disease spread, but given the novelty of this disease, we should consider what we can learn from the information we have so far, and what more can be done to help in the supportive management and prevention of new cases.

So far, there has been much emphasis on the treatment of acute life-threatening manifestation of covid-19. However, we are seeing increasing evidence of a “long-tail” of covid-19 related illness, and we need to consider how to support patients with prolonged illness from covid-19. As a group of authors, we have become interested in this area from a personal and professional perspective. CR and AUL have both experienced a long-tail of covid-19 symptoms and MM through her experience treating people with these symptoms in general practice.

Many individuals not admitted to hospital are reporting a prolonged and debilitating course of illness. Doctors have highlighted their experience of prolonged symptoms. [1] [2] [3] Patient led-research is already underway with the publication of data on protracted symptoms, such as the data from the Body Politic Covid-19 Slack support group. [4] After sharing our recent BMJ rapid response on social media, many other people shared their experience of symptoms that have lasting up to 13 weeks or more. [5] Among 61 reported symptoms, the most noted persistent symptoms were fatigue and shortness of breath, especially with exertion, chest tightness, cough, skin rash, elevated temperatures, and neurological disturbances. [4] The Covid-19 symptom tracking app developed at King’s College London, which has been downloaded by 3.9 million people globally to date, has reported that 10% people had symptoms at 25 days and 5% were still ill one month later. [6] The patterns within prolonged symptoms may not be noticed during acute hospital admissions, nor in the community if longitudinal patient symptom tracking and testing is not carried out. More formal evaluation is necessary and would be useful for clinicians and patients. Actively engaging patients and carers in research design and evaluation is crucial to ensure that people’s experiences are being adequately captured.

Some patients have observed a periodic “tertian” or “quartan” pattern, where symptoms recur every 3rd or 4th day. [4] As patients recover from covid-19, individuals say that they experience less intense recurrences of their original symptom “clusters,” predominantly at longer intervals. It is unclear if some of these recurrences represent re-activation viraemias or are a consequence of immune response. Current guidelines for self-isolation of “7 days after start of symptoms” in the UK may not be adequate in many individuals, [7] particularly with reports of prolonged faecal viral shedding up to 1 month for some patients. [8] [9] However, longitudinal assessments of serial PCR testing currently undertaken largely through oropharyngeal swabs, (or stool samples) are not routine community practice, apart from some selected settings such as care homes.

Despite covid-19 testing being widely available, concerns remain around current limited sensitivity and specificity of Covid-19 PCR swab tests due to the timing and technique in collecting the swab samples. [10] Highly specific IgG antibody tests have been developed, however uncertainty remains about the proportion of covid-19 patients that seroconvert and produce IgG antibodies after infection. Further uncertainty exists around level and duration of immunity and carrier risk after covid-19 recovery. [11]

UK prevalence studies suggest that 5% of the national population and 17% of London’s population have developed IgG antibodies. [12] [13] For individuals with confirmed covid-19 infections, high initial antibody conversion rates have been found in small numbers of hospital patients. [14]  WHO guidance currently recommends return to work after 2 weeks of absence of symptoms. [15] However, some staff who have returned to work during a quiescent phase are unable to continue work because of the resurgence of symptoms.

Prolonged covid-19 illness follows a distinct pattern, reflecting a cluster of symptoms of longer duration and of unknown cause. The presentation of this periodic pattern of symptoms could help improve understanding of the nature of the virus-host interaction in covid-19 pathogenesis, and guide future targeted assessment, management, and treatment interventions. It is now apparent that this is a multi-system disorder with a far wider range of symptoms than currently identified on the NHS website. [16] Rather than solely relying on diagnostic tests, clinical acumen is crucial to unravel the covid-19 puzzle. Those with less severe relapsing symptoms may not present to general practice or may present at varying timepoints.

The dual hallmarks of prolonged illness with relapsing and remitting pattern of recurrence have significant implications for the individual, who needs care and advice. Consequences may include a prolonged sickness absence and multidisciplinary health needs. A successful recovery requires a gradual rehabilitation and an individualised return to work plan. As our understanding develops on the length of time that symptoms persist, there may be further health implications relevant to immunity, infectivity, and return to work. Individuals will need monitoring and follow-up, with understanding and acceptance shown by managers and colleagues. [17]

Clare Rayner is a retired occupational health physician.

Amali U Lokugamage is a consultant in obstetrics and gynaecology at Whittington Health NHS Trust, London, UK, and honorary associate professor and deputy lead of clinical and professional practice at UCL Medical School, London.

Mariam Molokhia is a clinical reader in epidemiology and primary care at King’s College London and a GP in NW London.

Competing interests: CR is in the shielding group for covid-19 due to underlying conditions. AUL is on the Board of Directors of the International MotherBaby Childbirth organisation. She is a company director of a small publishing company called Docamali Ltd. MM none declared.

Acknowledgements: MM is supported by the National Institute for Health Research Biomedical Research Center at Guy’s and St Thomas’ National Health Service Foundation Trust and King’s College London. We are grateful to Mark Ashworth and Patrick White for their comments on an earlier draft of this article.

Saúde da População Negra, Doença Falciforme e a Pandemia: Fatores de Risco e Vulnerabilidades Sociorraciais

Do Jornal Roteiro de Notícias

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Originária da África, a doença falciforme é uma mutação genética, que se espalhou pelo mundo com o deslocamento forçado da população negra escravizada. Foto: Marcello Casal Jr/ Arquivo Agência Brasil

A pandemia da Covid-19, longe de ser “democrática”, trouxe como consequência imediata para cerca de 54% da população brasileira autodeclarada preta e parda um aumento dos fatores de risco ligados às suas condições de vida e ao racismo estrutural.

Um dos agravos mais severos que incide em grupos vulneráveis com ancestralidade africana em todo o país é a doença falciforme (Hb SS). A doença decorre de uma alteração da hemoglobina que resulta em inúmeras manifestações clínicas graves que podem ter consequências ao longo de toda a vida dos indivíduos.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, 3.500 crianças nascem com doença falciforme no Brasil anualmente. Segundo a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, estima-se que no Brasil haja 70.000 pessoas com anemia falciforme.

Devido à relação microevolutiva da doença estar associada à endemia de malária no continente Africano e Árabe-Indiano, com o advento da Diáspora Africana (tráfico de pessoas escravizadas) desde o século XVI, o fenótipo de indivíduos com a doença no Brasil é majoritariamente de grupos autodeclarados pretos ou pardos, acometendo pessoas brancas em menor número, dependendo da frequência filogenética de cada região (Naoum 2011).

No entanto, quem tem doença falciforme e as suas variantes como a Hb SF, a Hb SC e outras alterações genéticas combinadas é triplamente vulnerável quando exposto ao Coronavírus (Sars-CoV-2): primeiramente pela própria comorbidade da doença, que é crônico-degenerativa, acometendo os glóbulos vermelhos que, sem a oxigenação adequada, podem causar situações de crises falcêmicas, ocasionando diversos sintomas como: febre, infecções, dores generalizadas pelo corpo, imunossupressão, acidente vascular cerebral, icterícia, problemas pulmonares, síndrome torácica aguda etc., podendo evoluir à óbito, sendo que muitos dos sintomas e órgãos envolvidos também estão relacionados à Covid-19, potencializando o risco de morte para as pessoas afetadas.

Um segundo fator de preocupação é que a população majoritariamente afetada por esta hemoglobinopatia genética está entre os grupos mais vulneráveis economicamente e que enfrentam dificuldades no diagnóstico e complicações no acompanhamento e tratamento da doença, que apesar de gratuito pelo SUS, não é fácil nem barato, devido à necessidade de internações hospitalares e de busca por atendimento de urgência e emergência que a doença exige com frequência, efeitos que se conectam através dos Determinantes Sociais em Saúde (DSS) aos índices de emprego, renda, educação e acesso à saúde que são menores em relação aos brancos, chegando a 44% no que diz respeito à diferença salarial, usando apenas a categoria econômica em termos comparativos (IBGE, 2019).

Considerando que os leitos e vagas nos hospitais públicos e privados estão beirando a falência na maioria das capitais e outros municípios do país, dificultando ainda mais a acessibilidade e o acolhimento diferenciado, as pessoas com doença falciforme têm sido enquadradas como grupo de risco (Hemominas, 2020).

O terceiro aspecto está relacionado ao Quesito Raça/Cor. Embora esse seja um indicador oficial do IBGE (2017) em relação à diversidade sociorracial brasileira e haja provisão legal para sua utilização no âmbito dos serviços de saúde (Portaria 344 de 01/02/2017 do Ministério da Saúde), até fevereiro não constava nos registros oficiais da pandemia da Covid-19 esse campo ou a obrigatoriedade do seu preenchimento e ainda em abril os dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde não eram desagregados segundo raça/cor.

Mesmo depois da obrigatoriedade, permanece a subnotificação, uma vez que para muitos profissionais de saúde este dado não é considerado relevante.

Coronavirus (getty Images)
Pessoas negras e pardas somam 54,8% das mortes por covid-19 registradas no Brasil de acordo com o site UOL. Foto: Reprodução/Getty Images

No entanto, o retrato da pandemia nos EUA deixou claro o impacto do racismo na saúde uma vez que, embora os negros componham a minoria da população norte-americana (cerca de 30%), são proporcionalmente a maioria dos mortos pela SARS-Cov-2 (cerca de 70%).

No Brasil, os impactos do racismo na saúde, embora reconhecidos, ainda tem recebido pouca atenção (Cunha, 2013). É fato que ser preto ou pardo aqui aumenta substancialmente seu risco de morte, em especial, no caso da população diagnosticada com doença falciforme e/ou demais doenças crônicas, como: hipertensão arterial, diabetes, enfermidades coronarianas e renais, que ocorrem com alta prevalência na população negra.

A quantidade de mortos pretos e pardos com Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) quintuplicou no Brasil somente no mês de abril, como indica o site da FIOCRUZ (RJ), um índice alarmante, sendo que as mortes por Covid-19 são subnotificadas em todos os estados e há enorme necessidade de testagem em toda a população brasileira, para que os índices epidemiológicos e de risco de contaminação sejam adequadamente regulados e notificados.

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, criada em 2007 como Política de Ação Afirmativa da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR, ainda é uma realidade distante na maioria dos estados e municípios, em especial, no estado do Pará, no qual nunca foi implantada, ainda que, segundo o censo de 2010, o Pará tenha 76,5% da população autodeclarada preta e parda.

Como há sub registro no estado, não se sabe exatamente como esta população se reflete no número de contágios pela Covid-19, nos índices de óbitos domiciliares, notificados como causas desconhecidas ou naturais, porque os testes de confirmação são praticamente inexistentes em todo o estado, sendo aplicados quase que exclusivamente em pacientes hospitalizados ou em profissionais de saúde sintomáticos.

A carência de exames em larga escala no estado gera outro agravante, pois não apenas os grupos citados precisam de controle epidemiológico, como também o restante da população, com ou sem sintomas, para que possamos ter noção da abrangência da pandemia no Pará, incluindo-se igualmente as populações mais vulneráveis, como: as comunidades quilombolas, ribeirinhas, rurais e os povos indígenas, que para as quais as ações governamentais ainda tem sido tímidas ou nulas.

O Atlas da Violência Urbana publicado em 2018, mostrou que 71,5% da população assassinada no Brasil é negra, principalmente nas Regiões Nordeste e Norte, contudo, o caso mais recente que ocorreu no Rio de Janeiro (RJ), do adolescente João Pedro (14 anos), que foi fuzilado dentro de casa pela polícia carioca ou os diversos episódios de chacinas ocorridas nos bairros considerados de linha vermelha da violência na capital paraense nos últimos anos, demonstram que a Covid-19 não é a única preocupação endêmica quando nos referimos à Saúde da População Negra, pois as diversas formas de racismo (pessoal, institucional, estatal e estrutural) também colaboram para o aumento desses índices diariamente, tornando a cor da pele um fator de profundo risco não apenas à saúde, mas ao que se refere à construção de uma cidadania plena, de fato e de direito, que ainda não chegou nas favelas, nas comunidades, nas baixadas e nas áreas periféricas da sociedade brasileira, condições de desumanização que precisam ser resolvidas urgentemente.

Prof. Dr. Hilton P. Silva/Co-autor

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia – PPGA/UFPA; Docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Sociedade na Amazônia – PPGSAS; Coordenador do Laboratório de Estudos Bioantropológicos em Saúde e Ambiente – LEBIOS, Belém, Pará.