Violência doméstica infantil durante a quarentena

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Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2 .

No Brasil, em 2017, foram registrados 126.230 casos de violência contra crianças e adolescentes com até 19 anos de idade. Cerca de 24% desses crimes ocorreram contra crianças com menos de quatro anos de idade, incapazes de reconhecer ou denunciar a violência. Mas, apesar de assustadores, esses números ainda são subestimados. A subnotificação da violência na infância e na adolescência é uma realidade.

No dia 18 de maio, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou uma nota de alerta intitulada “Combate ao Abuso e à Exploração Sexual e Outras Violências Contra Crianças e Adolescentes em Tempo da Quarentena por Covid-19”. O dia 18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil, data escolhida em memória a uma criança de oito anos que foi assassinada em 1973.

Na nota de alerta, os especialistas da SBP resumem e discutem o problema da violência contra a criança no país, mas destacam uma questão que surge este ano: a pandemia de Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) e as medidas de isolamento social instituídas em consequência trazem um risco ainda maior.

Segundo os autores, a quarentena trouxe fragilidades para os lares das crianças brasileiras: elas estão confinadas com seus pais/responsáveis, que muitas vezes estão irritados e impacientes, e podem ter dificuldades em cuidar dos filhos em período integral. Além disso, os adultos podem apresentar uma sobrecarga de estresse oriunda da incerteza quanto ao futuro, do desemprego ou da queda da renda familiar e/ou do adoecimento de parentes.

Essas crianças também perderam contato com possíveis observadores da violência doméstica como professores, vizinhos, outros familiares, pediatra e/ou unidades de atendimento médico.

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Covid-19: Distanciamento físico funciona e máscara N95 é a melhor, diz análise

Publicado originalmente no Medscape. Leia o conteúdo completo.

Nota da editora: Veja as últimas notícias e orientações sobre a Covid-19 em nosso Centro de Informações sobre o novo coronavírus SARS-CoV-2.

Um estudo que reivindica ser a primeira revisão de todas as evidências disponíveis sobre a eficácia do distanciamento físico, das máscaras e da proteção ocular para evitar a propagação da Covid-19 (sigla do inglês, Coronavirus Disease 2019) e de outras doenças respiratórias quantificou a eficácia dessas medidas de proteção.

O estudo constatou que o maior distanciamento físico de uma pessoa exposta reduz significativamente o risco de transmissão, e que as máscaras N95, principalmente para os profissionais de saúde, são mais eficazes do que outras coberturas faciais.

A metanálise publicada on-line em 02 de junho no periódico The Lancet também marca a primeira avaliação dessas medidas de proteção na comunidade e nos serviços de tratamento da Covid-19, afirmaram os autores do estudo.

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Manifesto da Frente “Marcha pela vida com Saúde das Mulheres” – FNCPS

Publicado originalmente no Facebook da Frente Nacional contra a Privatização da Saúde. Acesse.

A Frente Nacional contra a Privatização da Saude participa “Na Marcha pela Vida em Defesa da Saúde das Mulheres”.

Confira o Manifesto da Frente “Marcha pela vida com Saúde das Mulheres”.

#MarchaPelaVidaComSaúdeDasMulheres
#VidasNegrasImportam
#VidaAcimadoLucro
#defesadoSUSpublicoestatal
#revogaEC95
#forabolsonaroemourao

Nota sobre a exoneração de técnicas e da coordenadora de Saúde das Mulheres do Ministério da Saúde – SBMFC

Publicado originalmente no site da SBMFC. Acesse.

O Grupo de Trabalho Mulheres na Medicina de Família e Comunidade, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), vem a público manifestar profunda preocupação sobre as recentes exonerações na área de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, inclusive da coordenadora de Saúde das Mulheres (1) .

Como veiculado globalmente, em diferentes publicações científicas e meios sociais, a atenção à saúde da mulher durante a pandemia por SARS-CoV-2 traz algumas preocupações centrais, como o aumento da violência doméstica e barreiras de acesso a métodos contraceptivos, inclusive ao aborto em situações previstas em lei (2,3,4,5,6,7,8). Nesse sentido, estas publicações apontam a necessidade de que serviços de: acolhimento à mulher em situação de violência e oferta de abrigo; contracepção; assistência ao ciclo gravídico-puerperal e acesso a aborto legal sejam considerados essenciais, mantendo-os disponíveis durante o período de pandemia (7,8,9,10,11,12). Essa preocupação já havia sido expressa, inclusive, em publicações nacionais, como notas técnicas do Ministério da Saúde (9,10,11) e publicações da SBMFC (13).

A atenção à saúde da mulher tem evoluído para uma abordagem integral, que busca respeitar necessidades individuais e vulnerabilidades específicas. No entanto, as práticas em saúde – mesmo quando cientificamente embasadas – ainda têm sua implementação dificultada por barreiras externas à área técnica da saúde. Tem-se o aborto legal como exemplo. No Brasil, desde o Código Penal de 1940, o aborto não é considerado crime nos casos em que não há outro meio de salvar a vida da gestante ou quando a gravidez é decorrente de estupro (14), sendo os casos de anencefalia fetal incluídos mais recentemente dentre essas condições (15). No entanto, foram necessários quase 50 anos para que o acesso ao aborto legal fosse regulamentado nos serviços do (2) Sistema Único de Saúde, e ainda apresentamos uma agenda incompleta na efetivação plena deste direito (16).

Durante o atual contexto de pandemia, um sistema de saúde que se propõe universal e equânime, como o SUS, deve promover práticas de proteção da saúde de parcelas mais vulneráveis da população, enquanto mantém o acesso aos serviços essenciais. Assim, concorre-se para evitar que os danos indiretos à saúde da população sejam iguais ou maiores que os danos diretos sofridos pela pandemia. Os direitos sexuais e reprodutivos são reconhecidos como Direitos Humanos fundamentais, e os serviços de atenção à saúde sexual e reprodutiva são componentes essenciais para a efetivação de tais direitos (17). Crises sanitárias prévias já demonstraram que a restrição do acesso a estes serviços pode levar a resultados devastadores no que diz respeito ao aumento da mortalidade materno-infantil (18,19,20).

Por fim, as diversas crises que atravessamos atualmente não podem servir para o questionamento dos direitos das mulheres, principalmente de conquistas que exigiram longa luta e pressão para serem colocadas em prática. O direito ao aborto legal; à defesa e ao acolhimento quando em situação de violência; à anticoncepção oportuna, eficaz e bem informada; à assistência de qualidade ao ciclo gravídico-puerperal são direitos das mulheres e deveres do Sistema de Saúde, em suas diversas instâncias e intersetorialidades. Urge que tais deveres sejam valorizados e cumpridos em sua integralidade, e não sejam alvos de questionamentos ideológicos, religiosos ou políticos, que se alimentam de obscurantismo, afastam-se da ciência e da preocupação com o bem-estar das mulheres.

Rio de Janeiro, 07 de junho de 2020.

Grupo de Trabalho de Mulheres na Medicina de Família e Comunidade

Diretoria da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade – 2018-20

Referências:

1) Diário Oficial da União, 04/06/2020. Disponível em: http://www.in.gov.br/web/dou/- /portaria-n-1.489-de-4-de-junho-de-2020-260306362

2) Tokarski, CP; Alves, I. Covid-19 e violência doméstica: pandemia duplas para as mulheres. Disponível em: http://anesp.org.br/todas-as-noticias/2020/4/6/covid-19-eviolncia-domstica-pandemia-dupla-para-as-mulheres

3) Nações Unidas Brasil. Chefe da ONU alerta para aumento da violência doméstica em meio à pandemia do coronavírus. Disponível em: https://nacoesunidas.org/chefe-daonu-alerta-para-aumento-da-violencia-domestica-em-meio-a-pandemia-docoronavirus/

4) UNFPA Brasil. COVID-19: Um olhar para gênero. Promoção da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos e promoção da igualdade de gênero. Março, 2020. Disponível em: https://www.sbmfc.org.br/wpcontent/uploads/2020/03/covid19_olhar_genero.pdf

5) Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (CEPEDES/Fiocruz). Violência doméstica e familiar na COVID-19. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/Sa%C3%BAdeMental-e-Aten%C3%A7%C3%A3o-Psicossocial-na-Pandemia-Covid-19- viol%C3%AAncia-dom%C3%A9stica-e-familiar-na-Covid-19.pdf

6) Câmara dos Deputados dos Brasil [Internet]. Crescem denúncias de violência doméstica durante pandemia. Disponível em: www.camara.leg.br/noticias/661087-crescemdenuncias-de-violencia-domestica-durante-pandemia

7) Tran NT, Tappis H, Spilotros N, Krause S, Knaster S. Not a luxury: a call to maintain sexual and reproductive health in humanitarian and fragile settings during the COVID-19 pandemic. The Lancet Global Health 2020;21 Disponível em: https://www.thelancet.com/pdfs/journals/langlo/PIIS2214-109X(20)30190-X.pdf

8) Engstrom E, Melo E, Giovanella L, Mendes A, Grabois V, Mendonça MHM. Recomendações para a organização da Atenção Primária à Saúde no SUS no enfrentamento da Covid-19. FioCruz. Série Linha de Cuidado COVID-19 na rede de atenção à saúde. Maio 2020.

9) Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota técnica 10: Recomendações para as consultas ambulatoriais de saúde da mulher durante a pandemia da COVID-19. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/notatecnica102020COSMUC GCIVIDAPESSAPSMS.pdf

10) Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota técnica 9: Recomendações para o trabalho de parto, parto e puerpério durante a pandemia COVID-19. Abril, 2020. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/notatecnica92020COSMUCG CIVIDAPESSAPSMS.pdf 4

11) Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Nota técnica 13: Recomendações acerca da atenção puerperal, alta segura e contracepção durante pandemia da COVID-19. Maio, 2020. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/nt_n13_2020_COSMU_CGCI VI_DAPES_SAPS_MS).pdf

12) World Health Organization. Maintaining essential health services: operational guidance for the COVID-19 context. Junho, 2020. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/covid-19-operational-guidance-formaintaining-essential-health-services-during-an-outbreak

13) Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Recomendações da SBMFC para a APS durante a pandemia de COVID-19. 1ª Ed. Maio, 2020. Disponível em: https://www.sbmfc.org.br/wpcontent/uploads/2020/05/Recomendac%CC%A7o%CC%83es-da-SBMFC-para-a-APSdurante-a-Pandemia-de-COVID-19.pdf

14) Brasil. Presidência da República. Código Penal [Internet]. Decreto-Lei No 2.848, de 7 de Dezembro de 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decretolei/del2848compilado.htm

15) Brasil. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. Anencefalia [Internet]. ADPF No 54. Disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticianoticiastf/anexo/adpf54.pdf

16) Madeiro AP, Diniz D. Serviços de aborto legal no Brasil – um estudo nacional. Ciênc Saúde Coletiva. fevereiro de 2016;21(2):563–72.

17) Brasil. Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Básica 26: Saúde sexual e reprodutiva. Brasília: Ministério da Saúde; 2000.

18) Camara BS, Delamou A, Diro E, Béavogui AH, Ayadi AME, Sidibé S, Grovogui FM, Takarinda KC, Bouedouno P, Sandouno SD, Okumura J, Baldé MD, Van Griensven J, Zachariah, R. Effect of the 2014/2015 Ebola outbreak on reproductive health services in a rural district of Guinea: an ecological study. Trans R Soc Trop Med Hyg. 2017;111(1):22- 29. doi: http://doi.org/10.1093/trstmh/trx009

19) Rilay T, Sully E, Ahmed Z, Biddlecom A. Estimates of the Potential Impact of the COVID19 Pandemic on Sexual and Reproductive Health In Low- and Middle-Income Countries. Int Perspect Sex Reprod Health. 2020;46:73-76. Published 2020 Apr 16. doi: http://doi.org/10.1363/46e9020

20) Sochas L, Channon AA, Nam S. Counting indirect crisis-related deaths in the context of a low-resilience health system: the case of maternal and neonatal health during the Ebola epidemic in Sierra Leone. Health Policy and Planning, 32, 2017, iii32–iii39 doi: http://doi.org/10.1093/heapol/czx108

A FEBRASGO reforça que a prestação continuada de serviços essenciais de saúde sexual e reprodutiva das mulheres deve ser uma prioridade

Publicado originalmente no site da FEBRASGO

 

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO atua no âmbito científico e profissional, congregando e representando os 17 mil médicos gineco-obstetras brasileiros. Através da promoção da educação permanente através de informações confiáveis baseadas em evidências científicas e diretrizes, a FEBRASGO valoriza e se dedica à saúde da mulher.

Reforçamos que, mesmo no atual período de pandemia da COVID-19, devem ser considerados como serviços essenciais e ininterruptos a nossa população, os serviços de atenção à violência sexual, o amplo acesso à contracepção, o direito e acesso à saúde sexual e saúde reprodutiva e o abortamento seguro para os casos previstos em lei, e a prevenção e o tratamento de infecções sexualmente transmissíveis, incluindo diagnóstico e tratamento para HIV/AIDS.

A FEBRASGO entende que somente assim impactaremos positivamente na redução da morbimortalidade materna, na saúde feminina e na melhoria do nível de qualidade de vida das mulheres brasileiras.

NOTA DE REPÚDIO À EXONERAÇÃO DA EQUIPE DA ÁREA TÉCNICA SAÚDE DA MULHER DO MINISTÉRIO DA SAÚDE – Rede Feminista de Saúde

Publicado originalmente no site da Rede Feminista de Saúde

A Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos vem a público manifestar profunda indignação e repúdio à exoneração da Equipe da Área Técnica Saúde da Mulher do Ministério da Saúde e a exclusão de um conteúdo (NT16/2020-COSMU/MS) que visava informar, às pessoas que engravidam sob violência, sobre seu direito a decidir por um aborto legal. Sabe-se que apenas 55% dos hospitais que deveriam oferecer o serviço de aborto legal o estão fazendo.  As agressões e arbitrariedades contra a saúde da população nessa pandemia demonstram a absoluta insensibilidade do governo pela vida das brasileiras e dos brasileiros. A destruição da Área Técnica da Saúde da Mulher é o último ato a provar que o governo não tem o menor respeito pela saúde da mulher e os direitos sexuais e reprodutivos.

Nesse episódio, há dois aspectos a destacar. Primeiro o desmonte de uma área fundamental, historicamente construída pelos movimentos de mulheres e pelas profissionais de saúde dedicadas à defesa da saúde integral das mulheres, dos seus direitos sexuais e reprodutivos; a outra faceta é a mais cruel, pois se trata de deixar ao abandono milhares de mulheres e meninas que, cotidianamente, enfrentam violadores dentro da própria casa.

As gestações indesejadas constituem uma enorme parcela entre as mulheres que procuram ajuda no exercício de um direito assegurado desde 1940. Nas décadas de 1990 e 2000 estes direitos foram objetivados através de legislações e programas. A Lei da Violência Sexual 12.845 de 2013 tornou obrigatório o atendimento integral de pessoas em situação de violência sexual. Não se trata, portanto, de uma reivindicação, mas de um direito assegurado em lei.

O governo expõe o total desconhecimento de compromissos internacionais do Estado brasileiro, da legislação nacional, das atividades próprias de gestão, ou sequer o interesse de saber as ações que cabem a cada instância do governo. Desta forma, somos brindadas diariamente com um cardápio de atos e “desrealizações” despidas de qualquer racionalidade. O foco é o ódio, a raiva e a incompetência. Poderíamos listar intermináveis aberrações direcionadas às mais diversas áreas do governo e da sociedade.

A Covid-19 mata uma pessoa por minuto no Brasil. Enquanto isso o Ministério da Saúde vem tendo esvaziada sua autoridade técnica para proceder numa situação de tal gravidade. E o peso dessa tragédia cai agora com maior intensidade sobre as pessoas que sofrem estupros e engravidam. É um absurdo que em tempos de pandemia, quando todo o mundo debate as evidências do aumento dessa violência sexual, alerta que a ONU fez já no final de março, não se reconheça a situação de extrema vulnerabilidade desse segmento.

Sabemos que a casa pode ser o pior lugar para as mulheres no que tange à violência, como lugar da opressão e do medo. O confinamento agudiza esta violência, tanto pela impossibilidade de pedir socorro e de denunciar, como pela presença do agressor.

O Governo Bolsonaro é assentado no machismo, na misoginia, na homofobia, no racismo e na manutenção e estímulo à cruel iniquidade e opressão cultural acentuada pela desigualdade de nossa sociedade de classes.

É o governo do ódio, da truculência, do desrespeito e da intolerância. Essa tendência é concretizada em práticas perniciosas e lesivas à sociedade. A mais evidente é o incessante desmonte do Estado com perseguição e humilhação dos servidores públicos e eliminação dos postos de trabalho. No entanto, o traço mais marcante é a ausência total de um plano de governo, de qualquer trabalho que possa lembrar que temos governo. Pretende -se o fim das políticas sociais, da cultura, da ciência, do saber e da soberania nacional.

Sabemos que não há diálogo com esse governo. Resta-nos, portanto, denunciar à sociedade e levar às demais autoridades da República a violação dos direitos humanos das mulheres. E exigir medidas para que nós não sejamos abandonadas durante a pandemia.

Queremos deixar registrado que nós mulheres não desistiremos de lutar pelos nossos direitos e autonomia de nossos corpos. Nada irá nos impedir de viver e buscar a liberdade e a felicidade. Por isso aqui definimos a tarefa inadiável e imprescindível: deter o terrorismo governamental e impedir que nosso país seja devastado por esse tipo de governo.

SAÚDE É DIREITO DE TODAS E TODOS, E DEVER DO ESTADO!

NOSSO CORPO NOS PERTENCE! RESPEITO AO ESTADO LAICO!

Rede Feminista de Saúde, junho de 2020.

Publicada originalmente no Facebook da União Brasileira de Mulheres

Nota de repúdio à revogação de nota técnica e Exoneração dos Coordenadores de Saúde da Mulher, Saúde do Homem / ciclos de vida, do Ministério da Saúde

A União Brasileira de Mulheres vem à público repudiar recente ato do governo brasileiro que atenta contra o acesso das mulheres à saúde integral e atenta contra os direitos humanos.

Ao exonerar os/as coordenadores/as de saúde da mulher, saúde do homem / ciclos de vida, servidores de carreira do Ministério da Saúde e suas equipes responsáveis pela emissão da nota técnica sobre atendimento à saúde da mulher durante a pandemia, o governo mais uma vez mente e reafirma o caráter misógino e autoritário de suas intenções, atentando concretamente contra a vida das mulheres.

O documento em questão tratava de temas centrais para o atendimento à saúde sexual e saúde reprodutiva das mulheres, partindo das recomendações da Organização Mundial da Saúde que consideram as unidades que prestam esse tipo de serviço, bem como as/os profissionais que neles trabalham como essenciais, recomendando a manutenção de seu pleno funcionamento durante a pandemia.

A nota recomendava a orientação e o acesso a métodos contraceptivos, demonstrando preocupação com as tendências de aumento da taxa de mortalidade materna no país por falta de atendimento, alertando que as medidas visam reduzir a gravidez não planejada e a enfrentar a violência contra a mulher – no caso, a sexual – contribuindo para efetiva redução de danos deste tipo de violência. Preocupações sérias de qualquer profissional de saúde que efetivamente respeita a vida das mulheres.

A menção à interrupção da gravidez ocorre porque essa é a medida mais extrema em casos de violência sexual conforme autoriza a lei. No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. De cada dez estupros, oito ocorrem contra meninas e mulheres e dois contra meninos e homens. A maioria das mulheres violadas (50,9%) são negras, segundo o Anuário de Segurança Pública.

A interrupção é autorizada em casos de violência sexual, risco de morte à gestante ou má-formação do cérebro do bebê. A nota apenas ressalta com clareza a necessidade de: “reiterar a continuidade dos serviços de assistência aos casos de violência sexual e aborto legal”.

Não é possível tolerar a debilidade intelectual que provoca a distorção da realidade! O presidente Jair Bolsonaro trata a nota técnica como uma proposta de legalização do aborto, falseando totalmente seu conteúdo, faltando mais uma vez com a verdade e semeando desinformação. Chega ao ponto de desqualificar o documento ao classifica-lo como “minuta apócrifa de portaria”, ato que não é fruto de mero equívoco, mas de sua tentativa reiterada de fortalecer o tema da criminalização irrestrita do aborto, afrontando nossos direitos.

A UBM se solidariza com a equipe das áreas técnicas de saúde da mulher e saúde do homem que agiram com profissionalismo e respeito às evidências científicas em saúde e aos direitos assegurados no ordenamento brasileiro. É preciso conter o autoritarismo avassalador que mina as possibilidades de vencer a batalha pelas vidas em meio a uma pandemia sem precedentes anteriores.

Recomendar métodos contraceptivos e manutenção do funcionamento de serviços que garantam assistência às mulheres em caso de violência sexual previne abortos e evita que mais mulheres morram em um momento em que estamos perdendo tantas vidas. O papel do Poder Executivo é efetivar essas garantias, e não combate-las de forma vil e mentirosa.

Insistir na fragilização do Ministério da Saúde e de suas equipes, a despeito de seus esforços em defesa da saúde neste momento, quando as mesmas estão corretamente defendendo os direitos das mulheres, é uma atitude criminosa que afronta o Estado Democrático de Direito e vulnerabiliza toda a sociedade.

Chega de ataque aos nossos direitos!

Em defesa do SUS! Pela Vida das Mulheres!

União Brasileira de Mulheres – UBM

Hospital deve permitir acompanhante em todos os partos durante epidemia

Publicado originalmente no ConJur

A Lei 13.079/20, em seu artigo 3º, § 2º, inciso III, dispõe que a disciplina para os cuidados com a Covid-19 não deve se afastar dos postulados da dignidade da pessoa humana. Com esse entendimento, o juiz Bruno Machado Miano, da Vara da Fazenda Pública de Mogi das Cruzes (SP), obrigou a Santa Casa de Misericórdia a garantir a todas as gestantes o direito a um acompanhante antes, durante e depois do parto.

Hospital deve permitir acompanhante em todos os partos durante epidemia. Foto: Reprodução

O descumprimento da decisão ensejará multa de R$ 2 mil por recusa injustificada. A liminar foi concedida em ação civil coletiva impetrada pela Defensoria Pública, que alegou que o hospital restringiu a presença de acompanhantes nos partos em razão da epidemia da Covid-19. Para o juiz, a Santa Casa não pode inviabilizar o direito da mulher.

“A Lei 13.079/20 [que dispõe sobre as medidas para enfrentamento à Covid-19], podendo, não suspendeu a eficácia da Lei 11.108/05, que alterou a Lei do SUS (Lei 8080/90), ao estabelecer o direito ao acompanhante antes, durante e depois do parto”, afirmou. O magistrado destacou que o acompanhante continua garantido, desde que se submeta aos procedimentos da nota técnica da Secretaria de Atenção Primária à Saúde, referente às medidas de prevenção para os partos durante a epidemia.

Entre as precauções, está a de que o acompanhante deve ser assintomático e não integrar o grupo de risco para a Covid-19. “Após o parto, somente em condições específicas (instabilidade clínica da mulher ou condições específicas do recém-nascido)”, concluiu Miano. Cabe recurso da decisão.

Pesquisa inédita da UFC revela níveis elevados de estresse e risco de depressão em gestantes no distanciamento

Publicado originalmente no Portal da UFC – Universidade Federal do Ceará

Imagem: Mais de mil mulheres grávidas em isolamento social participaram da pesquisa (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)

Pesquisa inédita da Universidade Federal do Ceará revelou níveis elevados de estresse e risco de depressão em mulheres grávidas de Fortaleza, no período de distanciamento social decorrente da COVID-19. Coordenado pela Profª Márcia Machado, da Faculdade de Medicina da UFC, o estudo mostrou que cerca de 43% das gestantes demonstram medo, ansiedade e transtornos do comportamento, índice considerado alto, se comparado com a média de 25% detectada em pesquisas realizadas em outros períodos, a exemplo da Pesquisa de Saúde Materno-Infantil no Ceará/UFC (PESMIC).

O estudo “Gravidez durante a COVID-19 em Fortaleza, Ceará: percepção materna sobre saúde, expectativas, medo e os cuidados prestados ao filho”, realizado de forma on-line durante o período de distanciamento, contou com a participação de 1.041 mulheres, abrangendo todas as regionais administrativas da Capital. A pesquisa utilizou como parâmetros duas escalas sobre saúde mental (SRQ e “Fear of COVID-19”).

As gestantes responderam aos questionários enviados pelo WhatsApp e outras redes sociais, com apoio de lideranças comunitárias e de serviços do Estado e do Município. Resultados preliminares apontam que 84,3% sentem desconforto ao pensar na COVID-19; 74,6% sentem-se assustadas ao pensar no coronavírus; 18,7% não conseguem dormir; 75,3% sentem-se nervosas ao assistir a notícias na televisão; 49,8% têm chorado mais do que o costume; e 57,9% têm se sentido triste ultimamente.

Das 1.041 mulheres, 335 afirmaram ter filhos de 1 a 5 anos completos. Perguntadas sobre como agiram com os filhos nos 15 dias anteriores ao preenchimento do questionário, 18,8% disseram ter batido no filho; 70,6% ter gritado; 20,1% ter puxado a orelha, dado tapa ou batido na mão. Para a Profª Márcia Machado, os dados são reveladores do nível de estresse no período de isolamento, se comparados com outros estudos que costumam avaliar a saúde mental de grávidas em períodos “normais”.

Imagem: A Profª Márcia Machado, da Faculdade de Medicina, é a coordenadora da pesquisa (Foto: Viktor Braga/UFC)

A pesquisadora chama a atenção para o fato de a maioria das respondentes ser casada (ou viver em união estável) e ter pelo menos o ensino médio concluído: “Se essa população que tem níveis de escolaridade maior e vive com um companheiro apresentou nível elevado de estresse, podemos imaginar como estão as mulheres que vivem em situação de extrema pobreza“, reflete a Profª Márcia.

Transtornos psicológicos ou psiquiátricos na gravidez podem trazer consequências para a saúde da mulher e do bebê. Segundo a pesquisadora, há relação entre esses fatores e a maior incidência de partos prematuros ou de crianças nascidas com baixo peso, por exemplo.

Além disso, o nível de estresse pode acarretar maiores níveis de agressividade com filhos e parceiros, o que também prejudica o desenvolvimento infantil. Márcia aponta, portanto, para a necessidade da criação de protocolos especiais de atenção básica que garantam o acompanhamento de mulheres durante a gravidez e no pós-parto, neste período de pandemia.

Os dados completos da pesquisa deverão, em breve, ser publicados em periódicos nacionais e internacionais. Segundo a Profª Márcia, não há estudos semelhantes concluídos sobre essa situação específica de mulheres grávidas durante o distanciamento social. A proposta é ampliar essa pesquisa e acompanhar aquelas mulheres e seus bebês após o parto, por um período de três anos.

A pesquisa foi financiada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e contou com a participação de estudantes de pós-graduação da UFC (Camila Machado de Aquino, Jordan Prazeres Freitas, Francisco Ariclene Oliveira, Edgar Sampaio); de professores dos departamentos de Saúde Pública e de Saúde Materno-Infantil da UFC (Luciano Lima Correia, Hermano Lima Rocha, Herlânio Costa Carvalho); da presidente da Associação de Ginecologistas e Obstetras do Ceará, Liduina de Albuquerque Rocha de Sousa; da professora da Universidade de Ribeirão Preto Elisa Altafim; e da professora da Harvard T.H Chan School of Public Health, Marcia C. Castro.

PALESTRA NOS EU2019 – A Profª Marcia Machado, coordenadora da pesquisa, será a mediadora da palestra magna dos Encontros Universitários 2019, nesta quarta-feira (20), às 10h. A palestra “Pandemia e a saúde coletiva” será realizada pela Profª Marcia C Castro, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, membra do Programa de Estudos Brasileiros no Centro David Rockefeller para Estudos Latino-Americanos e membra do comitê de direção do Centro de Análises Geográficas.

OS EU2019 ocorrerão em formato virtual. O link para a transmissão ao vivo da palestra magna será disponibilizado em breve.

Fonte: Profª Márcia Machado, do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da UFC – e-mail: marciamachadoufc@gmail.com