Quatro razões pelas quais o passaporte sorológico não é justo nem eficaz

Sociedades médicas, a OMS e especialistas em bioética rejeitam propostas para a criação de qualquer espécie de cartão que identifique pessoas que tiveram a doença

Do El País

Viajantes com máscaras protetoras aguardam seu voo no aeroporto de Barcelona.
Viajantes com máscaras protetoras aguardam seu voo no aeroporto de Barcelona. ENRIC FONTCUBERTA / EFE

Quando começou o confinamento em massa no mundo devido ao novo coronavírus, alguns especialistas e determinados Governos especularam com a ideia de estabelecer um passaporte sorológico, um documento que permitisse saber quem estava imunizado contra a covid-19 para que não tivesse de continuar submetido à quarentena e ajudasse a reativar a economia. A ideia, no entanto, foi descartada quando, com o passar do tempo, persistiam as incógnitas sobre a resposta imunológica ao SARS-CoV-2: não está claro quanto dura, se os anticorpos são um sinal adequado de sua presença ou se é possível se reinfectar depois de ter se curado da doença.

Pouco a pouco foram sendo acrescentadas mais restrições a essa medida, jurídicas e éticas, e tanto os especialistas quanto várias sociedades científicas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e alguns países que consideraram a opção, como Alemanha e Reino Unido, a rejeitaram. A presidenta da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, desenterrou a ideia na terça-feira. Propôs um projeto-piloto de uma cartilha covid-19 para a criação de uma espécie de cartão de saúde, que identifique pessoas que já tiveram a doença. “Com este cartão será muito mais fácil ter acesso a academias, museus e espaços fechados”, argumentou. É difícil encontrar algum especialista em saúde pública, imunologia ou bioética que não rejeite completamente a medida.

A revista Nature publicou em maio um artigo com 10 razões para recusar o passaporte imunológico. Depois de consultar vários especialistas que concordam com esses argumentos, eles podem ser agrupados em quatro.

Desconhecimento da imunidade

“A respeito da imunidade gerada pelo coronavírus, tudo ainda está por saber”, reconheceu a este jornal Marcos López Hoyos, presidente da Sociedade Espanhola de Imunologia (SEI), no início de julho. Não está claro se todos os que passam pela doença geram anticorpos, se sua presença indica imunidade ou sua ausência indica a falta dela. Além disso, como lembra Ildefonso Hernández, porta-voz da Sociedade Espanhola de Saúde Pública (Sespas), na pesquisa sobre soroprevalência realizada pelo Instituto de Saúde Carlos III, 14% das pessoas que geraram defesas as perderam após dois meses. “É mais um argumento para não tomar medidas com base nos anticorpos que as pessoas tiverem”, diz. Também não se sabe se existe a possibilidade de reinfecção. Houve casos de pessoas que, depois de dar negativo em um teste de PCR, voltaram a dar positivo. Não está claro se isso foi uma reinfecção ou tem mais a ver com o fato de não terem eliminado o vírus e o teste ter falhado. Em resumo: atualmente é impossível saber se uma pessoa está protegida contra o coronavírus. Esse argumento é, por si só, suficiente para que os especialistas consultados rejeitem algo semelhante a uma cartilha covid-19. Mas há outros.

Testes com erros e insuficientes

Mesmo partindo da hipótese de que todo aquele que tem anticorpos contra o coronavírus está protegido (e quem não os tem, não), os testes para medi-los não são totalmente confiáveis. Dão tanto falsos negativos quanto, o que é mais perigoso, falsos positivos, que podem fazer uma pessoa acreditar que está imune quando na realidade continua sendo suscetível a contrair a doença. “As consequências podem ser bastante graves”, diz Pedro Gullón, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia. “E com que critérios seriam feitos? A cada 15 dias para todos os madrilenhos? Ou só para quem puder pagar por eles em um laboratório particular? Isso seria duplamente discriminatório”, reflete o epidemiologista.

Problemas legais e discriminação

Josefa Cantero Martínez, professora de Direito Administrativo e presidenta da Sespas em Castilla-La Mancha, acredita que um certificado desse tipo tem um encaixe legal complicado que pode até se chocar com os preceitos constitucionais. “Estabelecer regimes jurídicos diferentes em virtude de um dado de saúde tem problemas de discriminação, de proteção de dados, se choca com a liberdade de circulação e com o direito à privacidade, porque você teria de se identificar para ir ao cinema ou à academia, apresentar sua cartilha e dar a conhecer ao funcionário que você passou pela doença”, argumenta. Itziar de Lecuona, doutora em direito e especialista em bioética, concorda: “É uma medida estigmatizante e discriminatória que rotula as pessoas de acordo com seu estado de saúde; não respeita os direitos fundamentais à privacidade e é contra as leis europeias de proteção de dados”. A especialista vê o agravante que a digitalização desses dados poderia abrir a porta para combiná-los com outras informações da pessoa e que fossem levados em conta para outros fins que não os inicialmente propostos.

Incentivo para contrair a doença

“Se o acesso a certas liberdades sociais e econômicas for dado apenas às pessoas que se recuperaram da covid-19, os passaportes de imunidade poderiam incentivar as pessoas saudáveis e não imunes a procurar infecções intencionalmente, colocando-se a si mesmas e a outras pessoas em risco”, dizem as especialistas em bioética Natalie Kofler e Françoise Baylis em um artigo publicado pela Nature. “Estamos vendo que alguns jovens têm pouca percepção do risco representado pelo coronavírus. Se passar pela doença lhes permite, por exemplo, sair à noite, estaríamos incentivando as festas covid”, acrescenta Gullón. Hernández também acredita que é possível entrar em um terreno perigoso no âmbito trabalhista se as empresas começarem a solicitar esse passaporte para a contratação: “Um idoso certamente não se arriscaria, mas uma pessoa com idade entre 20 e 30 anos, tendo em vista os problemas que haverá para encontrar trabalho, é provável que procurasse passar pela doença”.

Uma rede para amparar os que batalham contra o coronavírus

Psicólogos atendem gratuitamente profissionais de saúde da linha de frente. “Atendi uma fonoaudióloga que viu o chefe morrer, ela sentia uma impotência muito grande”

Do El País

Profissional da saúde em uma unidade de pronto atendimento de Fortaleza.
Profissional da saúde em uma unidade de pronto atendimento de Fortaleza. MATEUS DANTAS

A psicóloga Ana Lúcia Castelo, de 62 anos, está surpresa com a rapidez com que profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus apresentaram sintomas de estresse pós-traumático. Já tem 12 anos que ela atua em programas de ajuda humanitária num contexto de grandes traumas ―os mais recentes deles foram o desastre de Brumadinho e o atentado de Suzano― e há meses ela atende voluntariamente a médicos, enfermeiros e técnicos que todos os dias enfrentam a face mais dura da pandemia enquanto se desdobram para salvar o máximo de vidas. Desde então, ouve relatos de crises de choro, dificuldade para dormir e sentimento de impotência quando equipamentos e vagas de terapia intensiva ficaram escassos. Até o som de respiradores e monitores ―um bip repetitivo dentro dos hospitais e na cabeça de quem vivencia a doença diariamente― viraram gatilho para esses profissionais que tiveram de tomar, durante a crise, difíceis escolhas sobre quem deveria receber antes o cuidado que precisa. “Não são pessoas que têm estruturas psicológicas frágeis, mas o teor da vivência foi muito forte”, ela diz.

Ana Lúcia faz parte de um programa que ajudou a desenhar após ela mesma ter seu lado psicológico abalado ao ter a covid-19. Levou a ideia ao grupo de psicólogos especializados em trauma do qual faz parte (a Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR) e, junto com seus colegas, desenvolveu um programa voluntário para atender gratuitamente profissionais que enfrentam situações tão difíceis enquanto a epidemia segue latente. “Naquele momento, eu já fiquei pensando que eles iriam em breve desenvolver sintomas psicológicos muito difíceis, mas não imaginava que passariam a desenvolver quadros de estresse pós-traumático tão rapidamente”, conta Ana Lúcia, que nos primeiros atendimentos, há meses, já identificava os sintomas.

Em maio, ela se viu acometida pela covid-19 e precisou passar um dia inteiro em um hospital de São Paulo para fazer exames. Naquele momento, o Brasil tinha cerca de 20.000 casos confirmados ―hoje, beira os 2,5 milhões de infectados―, mas já lhe chamava a atenção o cansaço aparente de médicos, enfermeiros e técnicos que lhe atenderam. “Fui muito bem tratada e senti a empatia de cada um deles, mas fiquei sinceramente sensibilizada porque pareciam angustiados. Atendiam um paciente atrás do outro, era uma coisa caótica”, conta. Ana Lúcia não precisou ficar internada, mas a experiência daquele dia e a angústia que sentiu durante sua própria experiência com a covid-19 a fizeram pensar muito em como poderia ajudá-los, especialmente por morar com três médicos: o marido, a filha e o sobrinho.

“Eu fui contaminada quando ainda estava no começo. Vi o quanto os médicos estavam desesperados por lidarem com uma doença tão nova, tão difícil e que ainda tem muitas interrogações”, diz. A impressão inicial se somou à sua própria experiência com a doença que lhe causou pneumonia e lhe fez acordar algumas vezes de madrugada com medo de morrer. “Acho que foi uma das doenças mais sérias que já tive. Fiz 25 anos de terapia e, quando tive a covid-19, voltei a fazer. A estrutura fica abalada. A pessoa tem medo de morrer, fica fragilizada”, conta. Ana Lúcia se recuperou e, assim que se sentiu forte, concentrou esforços para tentar ajudar quem está cuidando dos pacientes a se estabilizarem psicologicamente.

Ana Lúcia Castelo, da Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR.
Ana Lúcia Castelo, da Rede Solidária da Associação Brasileira de EMDR. ARQUIVO PESSOAL

“Foi a única forma que eu encontrei para reduzir a carga. Atendi uma médica e uma enfermeira com o quadro de estresse pós-traumático pelas vivência que tiveram diante da morte, das incertezas. São pessoas que precisaram escolher quem iriam colocar no respirador porque não havia instrumentos necessários para todas as pessoas. Eles estavam num sofrimento muito grande”, conta. O grupo de Ana Lúcia usa um método chamado EMDR, criado a partir da experiência com soldados de guerra e que consiste em processar experiências traumáticas em ao menos oito sessões. E é por isso que ela desfia narrativas que tem escutado diariamente de quem está na linha de frente, sempre respeitando a ética e sem identificar ninguém nem dar detalhes ou mesmo citar as cidades dos profissionais. Ao longo das semanas de trabalho voluntário, a sobrecarga do sistema de saúde em alguns locais amenizou, mas as histórias vividas ainda marcam os profissionais da linha de frente.

A que mais chamou a atenção da psicóloga foi a de um médico de 42 anos, que trabalha em uma Unidade de Terapia Intensiva (onde são tratados os casos mais graves da doença) e começou a apresentar sintomas de trauma nos dez primeiros dias atuando no combate à covid-19, bem no início da crise sanitária. Ana Lúcia explica que, em geral, pacientes começam a apresentá-los entre 30 e 40 dias após o trauma. “Lá pelo oitavo dia, ele começou a ter sintomas de estresse pós-traumático. Ele ouvia o bip do monitor, o som do respirador, e ficava nervoso, angustiado. Saía, ia paro o repouso, voltava. Até que procurou ajuda”, conta a psicóloga.

O médico não conseguia dormir mesmo após exaustivos plantões e não conseguia se desconectar mesmo quando estava em casa. “Isso causa um impacto maior porque a pessoa não descansa nunca. Ele tinha pesadelos com pessoas morrendo e também flashbacks de situações difíceis”, narra Ana Lúcia. O médico contou três situações em que precisou decidir quem ele colocaria no respirador. Em uma delas, escolheu uma senhora e foi para o repouso chorar. Uma pessoa mais jovem que havia ficado na lista de espera acabou falecendo.

A psicóloga conta que é comum ouvir dos profissionais de saúde que estão inseguros, angustiados e já não têm vontade de ir trabalhar porque estão deprimidos e impactados. “As pessoas precisam ir trabalhar. Alguns apresentam uma visão negativa de si próprio, como se não fossem conseguir realizar seu trabalho. Gera uma dúvida sobre o que eu sei, como se estivesse desaprendendo tudo”, diz Ana Lúcia. Ela conta que principalmente médicos e enfermeiros que estão trabalhando em UTIs têm relatado medo de que os pacientes morram em suas mãos, medo de contraírem a doença e uma profunda empatia com as famílias que perdem seus entes queridos. Mais de 90.000 pessoas já faleceram por conta da covid-19 no Brasil.

“Atendi uma fonoaudióloga que viu o chefe morrer, então ela sentia uma impotência muito grande porque não tinha conseguido salvar o chefe. Isso foi muito comum no dia a dia dos médicos. Tudo isso com uma doença desconhecida no início. Isso gerou uma aflição muito grande”, acrescenta. Ana Lúcia afirma que a Rede Solidária da Associação Brasileira dispõe de 164 psicólogos que se prontificaram a atuar e que atende cerca de 40 profissionais da saúde, de maneira que há como receber mais pacientes. “Temos 180 profissionais que se cadastraram, disponíveis para atendimento. Cerca de 60 pessoas pediram ajuda, mas muitos deles interrompem por várias razões: adoeceram por covid-19 antes ou durante o tratamento, estão tão depressivos que desistem antes de começar, alguns marcam com o psicólogo, mas não comparecem na sessão”, explica Sueli Costa, que também participa do projeto. “Precisamos divulgar isso para ajudar mais gente”, reforça Ana Lúcia. O profissional interessado deve fazer um cadastro e responder a um questionário inicial de avaliação. A partir daí, faz gratuitamente oito sessões online, que podem ser prorrogadas em caso de necessidade. Se houver indicação, os psicólogos também orientam os pacientes a procurarem um psiquiatra.

A saúde mental dos profissionais de saúde é um problema levantado durante a pandemia em vários países. O Brasil faz parte de uma pesquisa com mais 25 países para avaliar os impactos da covid-19 na saúde mental da população em geral e, em especial, dos profissionais de saúde. Questionários estão sendo aplicados online para medir esses impactos.

Podcast crianças e infância na pandemia

O podcast Anthropológicas UFPE/UFPB apresenta mais um programa da “série dentro da série Anthropológicas”, discutindo o cuidado em meio à pandemia, numa parceria do DAM-UFPE com o PPGA-UFPB. Neste episódio, Elaine Müller (UFPE/UFPB), Hugo Menezes (PPGA/UFPE), Rosamaria Carneiro (UnB/UFPB) e Christina Gladys Nogueira (doutoranda UFPB) conversam com Flávia Pires sobre as crianças e infâncias na pandemia.
Flávia Pires é professora dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia e em Sociologia da UFPB, líder do grupo de pesquisa CRIAS – Crianças, Cultura e Sociedade. É mãe de duas meninas de 4 e 7 anos, e uma das pesquisadoras mais importantes do campo da Antropologia da Criança no Brasil.
Trabalharam na produção desse programa: Elaine Müller, Hugo Menezes, Francisco Sá Barreto, e Luísa Nóbrega.
Projeto gráfico da série: Maria Julia Rêgo
Tema musical da vinheta: Marconi Notaro – Anthropológica No.2
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Disproportionate impact of COVID-19 among pregnant and postpartum Black Women in Brazil through structural racism lens 

Artigo mostra as diferenças étnico raciais de mortalidade materna durante a pandemia de COVID-19 no Brasil. Publicado originalmente no Oxford Academic. Acesse.

Disproportionate impact of COVID-19 among pregnant and postpartum Black Women in Brazil through structural racism lens 

Clinical Infectious Diseases, ciaa1066, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa1066
Published: 28 July 2020

Declaração da SBPT sobre o tratamento da COVID-19

Publicado originalmente no site da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Acesse.

 

Brasília, 22 de julho de 2020.

Em vista do momento histórico vivido e de acontecimentos recentes envolvendo a classe médica brasileira, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) acha adequado compartilhar com seus associados, organizações médicas e a sociedade brasileira em geral, as suas convicções:

    1. A relação médico paciente é o alicerce da prática médica e a adesão a qualquer tratamento depende de acordo e colaboração tácita entre as partes.
    2. O médico tem a liberdade de prescrever o que achar adequado ao paciente, sempre comunicando os potenciais benefícios e riscos de uma intervenção terapêutica. Por outro lado, o paciente, baseando-se nas explicações fornecidas, crenças pessoais e leituras complementares, também possui a liberdade de aceitar ou não qualquer forma de tratamento indicado.
    3. A prática médica deve ser sempre baseada em dados científicos que respaldem condutas diagnósticas e terapêuticas a serem empregadas. Contudo, nas situações em que evidências científicas não são disponíveis, cabe ao facultativo utilizar seus conhecimentos, experiência prévia e bom senso para conduzir a situação clínica da maneira que lhe parecer mais adequada.
    4. Respeitando os aspectos citados, não podemos subestimar o fato de não existirem na literatura evidências clínicas suficientes para indicação das drogas cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina ou ivermectina, na profilaxia ou tratamento etiológico de casos de COVID-19 de qualquer gravidade.
    5. Rigorosamente falando, no caso particular da cloroquina e hidroxicloroquina, os dados disponíveis não apenas apontam para falta de efetividade da referida droga, como também sugerem riscos de efeitos adversos em pacientes predispostos.
    6. Teorias especulativas que atribuem a descrença mundial nos últimos agentes a interesses econômicos de grandes corporações farmacêuticas não procedem, já que o estudo RECOVERY, que não identificou utilidade da hidroxicloroquina em pacientes internados com COVID-19, mostrou igualmente que a dexametasona, medicação antiga e barata, tem efeitos benéficos nessa situação. Vale salientar que, a partir do referido estudo, a dexametasona foi prontamente incorporada ao arsenal terapêutico anti-COVID-19 de todos os médicos, sem discussões.
    7. Diante do exposto, a SBPT não endossa o uso de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina ou azitromicina como agentes profiláticos ou terapêuticos contra o coronavírus.
    8. Caso seja feita a opção pela introdução off label de alguma dessas drogas, em função da pandemia agora vivida, é fundamental que tanto o médico, como também paciente e familiares estejam plenamente cientes desses fatos e assinem um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE).
    9. Não podemos deixar de alertar que, num cenário econômico comprometido, compete aos administradores públicos gerir recursos escassos com sabedoria. Nesse contexto, o investimento em terapias não comprovadas para tratamento da COVID-19 pode contribuir para escassez de suprimentos essenciais, tais como sedativos, antibióticos e equipamentos de proteção individual.
    10. Viver em uma democracia envolve falar o que pensamos, bem como respeitar o que é dito pelos demais, ainda que suas ideias possam não nos agradar. Nesse cenário, a SBPT presta total solidariedade à co-irmã Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), diante de ataques infundados e ameaças que alguns dos seus diretores têm recebido em função de posicionamento recente.
    11. Vivemos um momento crítico, no qual a união da classe médica é essencial para redução dos números cruéis dessa pandemia. É condenável que o conhecimento científico seja usado com objetivos políticos, seja pelo lado A, B, ou C.

Diretoria da SBPT 2019-2020.    

Clique aqui para baixar esta declaração em PDF.

Protocolo contra covid em hospital de SP pode separar mãe e bebê após parto

 

Do Universa

Acupuntura, aromaterapia e uma mudança de médico já perto das 34 semanas. A gestação da pequena Estella foi pensada em detalhes para que ela chegasse ao mundo do jeito mais humanizado possível -mesmo que essa aventura ocorresse durante uma pandemia da qual só deverá ouvir falar, um dia, pelos familiares ou pelos livros de história. Não era para menos: Carol Braga, a mãe de Estella, queria que seu último parto fosse assim, ela que já é mãe de três filhos de 1, 3 e 17 anos. Ainda que tudo corresse como o desejado até o fim, Estella resolveu iluminar a vida dos pais mais cedo: em vez das tradicionais 40 semanas, deixou o útero materno com 37 semanas e seis dias de vida.

– Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/07/25/protocolo-contra-covid-em-maternidade-separa-mae-e-bebe-logo-apos-o-parto.htm?cmpid=copiaecola

Nota Oficial de Alerta às mortes maternas associadas à COVID-19 – FEBRASGO

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO entidade médica que atua no âmbito científico e profissional, congregando e representando os 17 mil ginecologistas e obstetras brasileiros, promovendo educação permanente através de informações confiáveis baseadas em evidências e diretrizes, e valorizando a saúde da mulher, vem a público manifestar preocupação com relação ao número de mortes maternas decorrentes do COVID-19.
Na última semana, uma publicação no International Journal of Gynecology and Obstetrics, utilizando os dados do SIVEP-Gripe, reportou a ocorrência de 124 óbitos maternos no Brasil entre janeiro e 18 de junho de 2020. Esse número de mortes maternas deverá representar um incremento de pelo menos 7% na já elevada razão de mortalidade materna do Brasil no corrente ano. Adicionalmente, esse número de morte materna é 3,5 vezes maior que a soma do número de mortes maternas por COVID-19 reportado em outros países até o momento, o que deve observado com muito cuidado pelas autoridades sanitárias nacionais. O referido artigo aponta ainda potenciais demoras na assistência a essas mulheres, já que 22% dos casos fatais não foram internados em UTI e 14% não receberam nenhum tipo de suporte ventilatório.
Nesse sentido, reforçamos a necessidade de considerar os serviços de atenção ao pré-natal e parto como serviços essenciais e ininterruptos no território brasileiro em todos os níveis de assistência à saúde, e que gestantes e puérperas, por serem grupos de risco para morte por COVID-19, devem ter acesso facilitado a cuidados intensivos e à internação em leitos de UTI.
Referência  bibliográfica
  1. Takemoto MLS, Menezes MD, Andreucci CB, Nakamura-Pereira M, Amorim MMR, Katz L, Knobel R. The tragedy of COVID-19 in Brazil. Internationcal Journal of Gynecology Obstetrics, July, 2020.

Grávidas brasileiras são as que mais morrem por causa da Covid-19

A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores de diversas universidades do país que revela, ainda, o Rio de Janeiro como o estado onde há mais mortes maternas. Entre os problemas estão a falta de diagnóstico precoce e o suporte de saúde durante a pandemia de coronavírus.

Da CBN (acesse para ouvir a matéria de áudio)

O Rio de Janeiro é o estado onde mais grávidas morreram por Covid-19 desde o início da pandemia de coronavírus no Brasil. Apesar disso, as regiões Norte e Nordeste aparecem primeiro no ranking de mortes maternas. O Brasil registra o pior índice de grávidas que perderam a vida em decorrência da covid-19 no mundo.

Os dados são do estudo ‘A tragédia da Covid-19 no Brasil: 124 mortes maternas e ainda contando’, publicado na International Journal of Gynecology and Obstetrics, no último dia 10 de julho. A pesquisa foi realizada por especialistas das Universidades Federais de Campina Grande, São Carlos e Santa Catarina, além de pesquisadores do IMIP e da Unesp.

De 26 de fevereiro até 18 de junho, 124 grávidas ou mulheres no pós-parto morreram no Brasil. O número é 3,4 vezes maior do que o total relatado no mundo. A taxa de mortalidade atual é de quase 13% na população obstétrica brasileira. Os pesquisadores compararam os dados do Ministério da Saúde com a literatura internacional disponível, que tem informações de países como México, Estados Unidos, Reino Unido, Irã e China.

A obstetra Carla Andreucci, professora da UFSCar, é uma das pesquisadoras do estudo. Ela explica que não é possível fazer uma conclusão completa sobre os motivos que levam a essa alta taxa de mortalidade, mas diz que fica evidente a dificuldade da grávida em acessar o sistema de saúde durante a pandemia:

“São dados bem preliminares ainda, mas o que a gente começa a evidenciar é o colapso do sistema de saúde que para as grávidas parece ter um impacto ainda maior. Quer dizer, existe uma demora para ela chegar à assistência, e quando ela chega à assistência, existe uma demora para que essa assistência seja o que ela precisa. Então, se a grávida não está recebendo suporte ventilatório invasivo ou se ela não foi admitida na UTI e morreu, ela provavelmente não teve a assistência que ela precisaria ter. Então isso reflete o colapso do sistema de saúde”.

De acordo com o levantamento, 14,6% das mulheres grávidas com Covid-19 não receberam nenhum suporte ventilatório, 22,6% não foram admitidas em UTI e apenas 64% receberam ventilação mecânica. Os problemas principais são a demora no diagnóstico, ou seja, a falta de testagem, e também o acesso aos cuidados após a confirmação da doença. Além da estrutura de saúde, os pesquisadores acreditam que o número de grávidas mortas durante a pandemia no Brasil se difere de outros países por causa das condições da população mais vulnerável socialmente, com deficiências crônicas de acesso ao cuidado intensivo.

Mesmo sem a informação constar neste estudo, a médica Carla Andreucci revela que há uma relação entre as mortes e condições étnico-sociais: grávidas pretas e com renda menor são as que mais morrem no país.

Para a pesquisadora, o potencial de cura da mulher grávida infectada pelo coronavírus é potencialmente maior do que outras pessoas do grupo de risco. “Muitas dessas pesquisadoras envolvidas neste projeto são da linha de frente (do combate ao coronavírus). O relato delas é de que elas (as grávidas) melhoram muito bem, as grávidas, elas têm potencial de cura muito alto. Que o problema parece ser a demora no diagnóstico e a falta de acesso aos recursos que ela precisa ter”, afirma Andreucci.

O levantamento destaca, ainda, que é preciso melhorar o atendimento pré-natal, identificar rapidamente a doença e garantir o acesso ao tratamento depois do diagnóstico.

Saúde das Mulheres em contexto de pandemia: plenária virtual do CNS reunirá controle social dos estados e municípios

A atividade terá transmissão ao vivo, nesta quarta (15/07), às 14h, com participação online de representantes das Comissões Intersetoriais de Saúde da Mulher nos estados e municípios

A pandemia do novo coronavírus tem grande impacto na saúde e no bem-estar de muitos grupos vulnerabilizados. As mulheres estão entre as mais afetadas. Isso porque elas são mais expostas ao risco de contaminação e às vulnerabilidades sociais como desemprego, violência, falta de acesso aos serviços de saúde e aumento da pobreza. Com esse foco, a Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher (Cismu), do Conselho Nacional de Saúde (CNS), realizará nesta quarta-feira (15/07), às 14h, a Plenária pela Vida das Mulheres. A atividade terá transmissão ao vivo pela página do facebook da União Brasileira de Mulheres (UBM).

A plenária terá a o desafio de identificar caminhos que garantam às mulheres o acesso seguro aos serviços de saúde, às políticas sociais e à uma vida sem violência para superar a pandemia. Para isso, contará com a participação da médica sanitarista, diretora-médica do Programa Mundial Aids Healthcare Foundation e consultora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Adele Benzaquem; da médica e professora sênior do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP), Elisabeth Meloni Vieira; e da representante do Movimento Mulheres Negras Decidem e Agenda Jovem na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fabiana Pinto.

 

A atividade será conduzida pela conselheira nacional de Saúde, Vanja dos Santos  que é representante da UBM e coordenadora da Cismu do CNS. Também contará com a participação do presidente do CNS, Fernando Pigatto, de conselheiras nacionais de Saúde, inclusive suplentes, mesa diretora, integrantes da Cismu, coordenadoras(es) das comissões do CNS e coordenadoras(res) das Cismu dos conselhos estaduais e municipais.

 

Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher (Cismu)

A Cismu acompanha as políticas de saúde sob a perspectiva da atenção às mulheres. Atua na garantia às mulheres do respeito aos direitos humanos, direitos sexuais, direitos reprodutivos e sua autonomia como cidadãs na execução dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). A comissão luta pela implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher a partir das deliberações da 2ª Conferência de Saúde das Mulheres (2ªCNSMu), realizada em agosto de 2018. A Cismu é composta por conselheiros e conselheiras nacionais de saúde e representantes de entidades que atuam na temática relativas à mulher.

Mais informações

O quê? Plenária pela Vida das Mulheres

Quando? quarta-feira (15/07), das 14h às 16h

Onde? página do facebook da UBM

Como? acessar os canais no dia e horário marcado

Ascom CNS

Foto:  Martin/istock