Governo decide vacinar apenas grávidas com comorbidades usando Coronavac e Pfizer. Oxford/AstraZeneca está vetada

Diretriz do Ministério da Saúde foi anunciada após caso de gestante que morreu de trombose após receber dose da Oxford/AstraZeneca. Ligação entre imunizante e reação ainda está sendo investigada

Do El País

PAOLO AGUILAR / (EPA) EFE

O Ministério da Saúde anunciou nesta terça-feira que a vacinação contra covid-19 em gestantes será restrita, temporariamente, apenas a grávidas com comorbidades e somente com os imunizantes Coronavac e Pfizer. A vacinação com o fármaco Oxford/AstraZeneca está proibido após “evento adverso grave”. A pasta investiga o óbito de uma gestante no Rio de Janeiro por trombose, após ela receber o imunizante de tecnologia britânica e o segundo mais utilizado no país. Gestantes sem complicações de saúde e puérperas saem, por ora, do grupo prioritário de vacinação. A decisão foi comunicada em coletiva de imprensa pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e por Francielle Francinato, coordenadora do Programa Nacional de Imunização, que salientaram que esse “evento adverso grave” é “muito raro” e que “o Ministério da Saúde tem total confiança na segurança e eficácia dos três imunizantes usados no país”. O anúncio da pasta veio depois que a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou, na noite de terça-feira, a suspensão imediata do uso da vacina da AstraZeneca em gestantes em geral, que haviam sido incluídas como grupo prioritário na vacinação no mês passado.

Na manhã desta terça, os Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro já haviam suspendido a vacinação contra a covid-19 em grávidas com comorbidades com todas as vacinas disponíveis no Brasil. Os Estados não explicaram porque não estão seguindo a imunização com as outras vacinas disponíveis no país, mas a prefeitura da capital paulista, onde a vacinação começaria nesta terça-feira, afirmou que não há doses de Coronavac ou da vacina da Pfizer previstas para o público. Ainda não há previsão de quando as gestantes poderão ser vacinadas. Nesta terça-feira, grávidas com comorbidades que procuraram os postos de saúde em São Paulo foram surpreendidas pela informação e deixaram os locais de vacinação frustradas.

A Prefeitura de São Paulo informou que a suspensão será mantida até que ocorra uma nova orientação do Programa Nacional de Imunização, do Ministério da Saúde sobre a vacina da AstraZeneca, o que só ocorreu na noite de hoje. Ainda de acordo com o órgão, a suspensão não afeta a vacinação das puérperas (mulheres no período pós-parto, até 45 dias após o nascimento dos bebês) com comorbidades, que também se inicia nesta terça. Na capital do Rio, no entanto, a vacinação deste grupo também foi suspensa. O PNI segue as orientações da Anvisa, que afirmou que a bula do imunizante deve ser seguida. No caso da AstraZeneca, neste momento, grávidas não estão incluídas na bula. A Anvisa orienta ainda que gestantes só tomem a vacina com recomendação médica.

A decisão da Anvisa gerou impactos em outros Estados e municípios. Segundo o portal G1, no Acre, a capital Rio Branco teve que suspender a vacinação do grupo já que não possui outros imunizantes, além da AstraZeneca, disponíveis. Em Maceió, no Alagoas, a vacinação do grupo está sendo feito exclusivamente com a vacina da Pfizer, assim como em Manaus (Amazonas). Em Goiás, Rio Grande do Sul e Sergipe, a AstraZeneca também já havia sido suspensa e as gestantes estavam sendo orientadas a procurar postos que ainda possuem a vacina da Pfizer. No Mato Grosso do Sul as gestantes estão sendo vacinadas com a Pfizer. Na Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, o imunizante da AstraZeneca foi suspenso e há falta do outras vacinas contra a covid-19 para o grupo de gestantes.

Gestantes frustradas

Com expectativa de finalmente ser vacinada, Alessandra Birolli, de 33 anos, e 29 semanas de gestação, chegou cedo, por volta das 7h da manhã, a um posto de saúde do bairro de Pinheiros, na Zona Leste da capital, trazendo os documentos que confirmavam sua comorbidade ―qualquer condição de saúde, como diabetes, por exemplo, que torne o grupo ainda mais vulnerável a desenvolver uma versão mais grave da doença. Ao ser informada que só havia no local a vacina da AstraZeneca, ela resolveu se dividir com o marido e procurar algum lugar que aplicasse outros imunizantes contra a covid-19. As tentativas, no entanto, foram frustradas. Por volta das 8h, uma enfermeira de outro centro de Saúde no bairro de Pinheiros informou que as gestantes podiam voltar para a casa, porque não poderiam ser imunizadas até uma nova decisão do poder público. “Mais uma frustração. Aqui em São Paulo o secretário já tinha comunicado numa outra vez que todas as gestantes estariam liberadas e não passou essa ordem para os postos… Ele falou isso na TV, mas na publicação colocou que eram só as gestantes pertencentes aos grupos prioritários. Sem saber disso, eu já tinha ido a postos de saúde há 2, 3 semanas atrás tentando sem sucesso. Mais uma vez fiquei frustrada, desanimada, cansada”, afirmou Birolli à reportagem do EL PAÍS.

Lei que determina afastamento de gestante na pandemia é sancionada

Funcionárias deverão permanecer em teletrabalho

Da Época Negócios

Grávida, gravidez, gestação (Foto: Pixabay)
(Foto: Pixabay)

O presidente Jair Bolsonaro sancionou nesta quarta-feira (12) a lei que que garante à empregada gestante o afastamento do trabalho presencial durante o período da pandemia de covid-19, sem prejuízo do recebimento do salário.

O projeto de lei sobre o assunto, de autoria da deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC), foi aprovado pelo Congresso Nacional no dia 15 de abril.

Conforme o texto, a funcionária gestante deverá permanecer afastada de atividades de trabalho presencial, sem redução no salário, durante o período de emergência de saúde pública decretado pelo Ministério da Saúde em função da covid-19, sem data para terminar.

A proposta não prevê punição ou multa para empresas que descumprirem a norma. Nesse caso, porém, elas podem ser acionadas na Justiça com ações trabalhistas.

Mortes de grávidas e de mães de recém-nascidos por Covid dobram e estão acima da média da população em geral, aponta levantamento


Imagem de arquivo mostra mulher grávida com máscara e luva em Waltham, Massachusetts, nos EUA  — Foto: Charles Krupa/AP
Imagem de arquivo mostra mulher grávida com máscara e luva em Waltham, Massachusetts, nos EUA — Foto: Charles Krupa/AP

O número de mortes de gestantes e de mães de recém-nascidos (puérperas) por Covid-19 mais do que dobrou em 2021 em relação à média semanal de 2020, apontam dados do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 (OOBr Covid-19).

Segundo o levantamento, no ano passado foram registradas 453 mortes (10,5 óbitos na média semanal). Em 2021, até 7 de abril, foram 289 mortes (22,2 óbitos na média semanal).

As pesquisadoras do OOBr Covid-19 apontam que, enquanto na população em geral houve um aumento de 61,6% na taxa de morte semanal em 2021 na comparação com 2020, entre as gestantes e puérperas o aumento foi de 145,4%.

Apesar do aumento superior à media da população, as mortes de grávidas representam 0,23% das mortes ocorridas no ano, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

A falta de acesso a tratamentos adequados para o coronavírus é apontado como uma das principais causas do crescimento de mortes entre estes grupos. Os dados do OOBr Covid-19 mostram que uma em cada cinco gestantes e puérperas internadas com coronavírus não tiveram acesso a unidades de terapia intensiva (UTIs) e cerca de 34% não foram intubadas.

O painel usa dados do SIVEP-Gripe. Segundo a atualização realizada em 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes. Existem também outros 9.784 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), com 250 óbitos. Na avaliação dos pesquisadores, esses casos também podem ser de Covid.

Segundo a médica obstetra Rossana Pulcinelli Francisco, professora do departamento de ginecologia e obstetrícia da Universidade de São Paulo (USP) e uma das criadoras do painel, a Covid-19 está mostrando uma fragilidade que já existia no sistema de saúde brasileiro.

“A morte materna no Brasil já era elevada. Quando essa fragilidade aumenta, que foi o que aconteceu em 2021 – com as variantes mais transmissíveis, uma sobrecarga maior no sistema de saúde – o que a gente percebe é uma piora no atendimento às gestantes e puérperas”, explica a médica obstetra.

Para ela, é preciso trabalhar em duas frentes para tentar diminuir as mortes: prevenção e tratamento.

“A gestante precisa ser isolada para não pegar Covid-19, precisa ter acesso aos dados para entender os riscos. Se ela tiver algum sintoma, ela precisa procurar o serviço de saúde, ser testada. Além disso, os hospitais precisam ser capacitados para atuar no cuidado dessas mulheres, com equipes de intensivistas e obstetras. A Covid-19 é uma das doenças que tornam a gestação de alto risco”, alerta Rossana Francisco.

No ano passado, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) já havia alertado que grávidas corriam mais risco de desenvolver formas graves da Covid.

Aumenta o número de grávidas com Covid-19 nos hospitais do Rio Grande do Sul
Aumenta o número de grávidas com Covid-19 nos hospitais do Rio Grande do Sul

Adiamento da gravidez

O secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Parente, pediu, nesta sexta-feira (16), que as mulheres adiem a gravidez até haver uma melhora da pandemia, se for possível.

“Caso possível, postergar um pouco a gravidez, para um melhor momento, em que você possa ter a sua gravidez de forma mais tranquila […] É óbvio que a gente não pode falar isso para alguém que tem 42, 43 anos, mas para uma mulher jovem, que pode escolher um pouco ali o seu momento de gravidez, o mais indicado agora é você esperar um pouquinho até a situação ficar um pouco mais calma”, disse o secretário, que é médico e tem doutorado em ginecologia.

Parente justificou o pedido afirmando que a gravidez é, por definição, uma condição que favorece as tromboses – a formação de coágulos no sangue. A Covid-19 também favorece a ocorrência de tromboses, o que pode tornar a doença ainda mais perigosa na gravidez.

Além disso, portaria do Ministério da Saúde recomenda que mulheres grávidas que tenham doenças prévias (comorbidades) recebam a vacinação contra a Covid-19. A indicação é uma mudança em relação a diretrizes anteriores da pasta. As novas orientações foram publicadas em 15 de março.

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Pediatra analisa pedido do Ministério da Saúde de que mulheres adiem a gravidez

Covid: “Decisão de adiar gravidez é da mulher e do médico, não do governo”

Do Universa

Ministério da Saúde pede que, se possível, mulheres adiem a gravidez na pandemia - iStock
Ministério da Saúde pede que, se possível, mulheres adiem a gravidez na pandemia Imagem: iStock

 

Ao ouvir que o secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Parente, pediu que as mulheres adiem a gravidez até haver uma melhora da pandemia de covid-19, a antropóloga Débora Diniz não ficou surpresa. “É uma história que se repete quando as emergências sanitárias não são capazes de colocar a saúde reprodutiva no centro de qualquer resposta”, diz.

A pesquisadora de questões de gênero e autora de duas edições da Pesquisa Nacional de Aborto (2010 e 2016) lembra que essa recomendação para a mulher não engravidar também foi feita durante outra epidemia, em 2015: a do zika vírus, que provoca microcefalia em fetos.

Segundo reportagem da Folha desta quarta (14), a média semanal de mortes maternas por covid-19 em 2021 já é mais do que o dobro da média de 2020. Passou de 10,4 óbitos (449 mortes em 43 semanas de pandemia em 2020) para 22,2 nas primeiras semanas deste ano, com 289 mortes. Embora estudos mostrem que a gestação e o pós-parto aumentam o risco de complicações e morte por covid-19, no Brasil o alto número de óbitos maternos associados à doença é atribuído, principalmente, à falta de assistência adequada, segundo especialistas.

“Medida eficaz mesmo para garantir a segurança das mulheres é dar a elas acesso incondicional à informação e aos métodos de planejamento familiar, diz Diniz. ‘E reconhecer que a mulher grávida pode ou não adoecer de covid. Mas temos no negacionismo dos políticos de saúde no Brasil uma ‘desimaginação’ de que o corpo que pode adoecer é um corpo grávido.”

A recomendação do secretário Parente foi feita na mesma semana em que as deputadas federais Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e Talíria Petrone (PSOL-RJ) protocolaram, na Câmara, um projeto de lei que pede a inclusão de grávidas e puérperas no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização contra a covid-19.

Melania Amorim, da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras, diz que o Ministério da Saúde se pronunciou tardiamente sobre a mortalidade de gestantes na pandemia. Mas, para ela, é preciso sim que se faça esse planejamento materno levando em consideração que o sistema de saúde do país está voltado para a covid-19.

“O governo pedir para adiar a maternidade não pode ser uma medida isolada. As mulheres devem ter o direito de saber os riscos que correm e ter sua autonomia respeitada”, diz a ginecologista. ‘Como escreveu Simone de Beauvoir, basta uma crise para que os direitos das mulheres sejam questionados. E veio a crise e mais uma vez nossos direitos são colocados em cheque.”

Ela afirma, no entanto, que é preciso mesmo fazer esse planejamento materno levando em consideração que o sistema de saúde do país está voltado para a covid-19. “Não sou dona do útero de ninguém, mas não é uma época boa para isso [engravidar]. Entendo que nem para todas é possível adiar, mas é uma decisão que deve ser tomada considerando todos os riscos. Só não pode falar: ‘Se vire e não engravide, até porque, com a pandemia, ocorreu uma diminuição na oferta de métodos contraceptivos.”

Decisão deve ser tomada junto a ginecologista

Para o presidente da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), o médico Agnaldo Lopes, a decisão de adiar ou não uma gravidez planejada deve ser tomada pela mulher junto a seu ginecologista, levando em consideração fatores de risco como hipertensão, doença cardiovascular e diabetes. E então, diz, elas mesmas devem avaliar os riscos e benefícios de adiar a gravidez. Outros fatores, segundo o ginecologista, também precisam ser levados em conta.

“E quando uma mulher de 42 anos tem que adiar a gravidez? A gente não sabe como vai ser o futuro. Mas é importante frisar que a mulher tem que estar no centro da tomada dessa decisão junto ao obstetra.”

Lopes também diz que não dá para afirmar que esse aumento no número de mortes de mulheres grávidas na pandemia se dá principalmente por causa da covid-19. “A gente não sabe necessariamente se é por causa da covid-19, mas sabemos que grande parte delas não teve assistência. E metade delas não foi para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Então, é difícil interpretar os dados”, afirma.

Taxa de morte materna pela COVID-19 dobra; governo orienta adiar gravidez

Especialistas apontam que grande parte das mortes maternas pela COVID é decorrente de falhas na assistência a grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz

O secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Medeiros, afirmou ontem que a pasta recomenda às mulheres que, se possível, adiem a gravidez enquanto durar o pico da pandemia. As taxas de morte materna pela covid-19 no Brasil dobraram este ano na comparação com 2020. Em média, foram 108 mortes mensais em 2021, ante 54 no ano passado. Desde o início da pandemia, foram 979 mortes de grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz. O governo recomenda que grávidas de grupos prioritários se vacinem, após avaliação médica.

Ministério da Saúde recomenda adiar gravidez devido a pico da COVID-19

“Neste momento do pico epidêmico, pela situação que está acontecendo em alguns locais, deve ser avaliado – como aconteceu com o zika vírus em 2016 -, caso possível, postergar um pouco a gravidez para um melhor momento, com uma gravidez mais tranquila”, disse Medeiros, que atribuiu a piora à nova variante do vírus. “É óbvio que a gente não pode falar isso para alguém que tem 42 ou 43 anos, mas para uma mulher jovem, que pode escolher seu momento de engravidar, o mais indicado agora é esperar um pouquinho até a situação ficar um pouco mais calma”, completou.
Segundo Medeiros, apesar da falta de estudos, “a visão clínica de especialistas mostra que a variante nova tem ação mais agressiva” nas grávidas. “Antes estava mais ligada ao final da gravidez e puerpério e hoje já vemos evolução mais grave no 2º trimestre e quiçá, por vezes, até no 1º trimestre.” Especialistas apontam que grande parte das mortes maternas pela covid é decorrente de falhas na assistência a grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz.
Dados sobre mortes de gestantes e puérperas revelam que um quarto das que morreram este ano não recebeu atendimento em UTI, segundo levantamento do Estadão. Conforme o Sivep-Gripe, banco de dados do ministério, a proporção de grávidas que morreram no início da gestação não se alterou ante o ano passado. A maior parte dos óbitos ocorreu no último trimestre de gestação.
Exemplos de mortes maternas identificadas pelo Estadão incluem mulheres testadas com exames de baixa qualidade e que demoraram a ter atenção médica para covid. Algumas deram à luz intubadas; outras nem conheceram os bebês.
Foi o caso da cantora Roci Mendonça, de 39 anos. Grávida, deu à luz em Manaus, não resistiu às complicações da covid e morreu em 9 de janeiro. “Se tivesse sido tratada rápido, estaria aqui”, diz o marido, o coreógrafo Raony Silva, de 28 anos. “É complicado o SUS em Manaus, é muita gente.” A mulher fez testes rápidos, que deram resultado negativo, e foi mandada para casa antes de ter a confirmação da doença por meio de um exame PCR, considerado padrão para detectar a infecção.
Ela deu à luz em 31 de dezembro em uma cesariana. Silva conta que a mulher só conheceu a criança por fotos. Dias após o parto, Roci piorou e morreu. Também infectado, Silva tentava se recuperar da covid em casa. “Tive de aprender em uma semana a cuidar, pegar, dar banho, fazer dormir, tudo”, conta. Max tem três meses.
O governo destinou R$ 247 milhões a ações de apoio para grávidas e puérperas. A ideia é reforçar redes de atenção, dar condições para que as gestantes façam teste no fim da gravidez e, se preciso, possam fazer isolamento e evitar a infecção.

Cautela

“É prudente acompanhar o número de casos, aumento do contágio e gravidade de internações por covid, antes de tomar a decisão de engravidar”, diz a ginecologista e coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo, Silvana Maria Quintana, que destaca ser uma decisão exclusiva da família. Segundo ela, “mulheres com idade avançada, que fazem algum tipo de tratamento e não podem esperar, podem optar pela gestação com acompanhamento médico”.
Silvana ainda reforça a importância do pré-natal. “Temos visto casos de gestantes com medo de sair, deixando de fazer pré-natal e tendo complicações durante a gestação como descontrole da pressão. Deve-se manter o acompanhamento médico em dia, até para evitar situações que levem a agravamento do quadro da mãe, caso venha a contrair covid.”
O ministério recomenda que grávidas com comorbidades como diabete, hipertensão e obesidade recebam a vacina, segundo portaria de 15 de março. As recomendações permitem a vacinação de grávidas, lactantes e puérperas com comorbidades, mas consideram que a decisão deve ser tomada por elas após avaliação de risco e benefícios com auxílio médico. Grávidas sem doenças prévias podem tomar a vacina se fizerem parte de outros grupos prioritários do Plano Nacional de Vacinação. São grupos prioritários, por exemplo, profissionais da saúde, professores e agentes de segurança, com ou sem comorbidades. Ainda não há data prevista para grávidas sem comorbidades de categorias profissionais não prioritárias. (Colaborou Jefferson Perleberg, especial para o Estadão)

Projeto de deputadas inclui grávidas na vacinação contra a Covid

As deputadas federais do PSol Sâmia Bomfim e Talíria Petrone protocolaram um projeto de lei para que grávidas e puérperas façam parte do PNI


Mulher grávida
Filipe Cardoso/Especial para o Metrópoles

As deputadas federais Sâmia Bomfim (PSol-SP) e Talíria Petrone (PSol-RJ) protocolaram, na Câmara dos Deputados, um projeto de lei para incluir grávidas e puérperas no grupo prioritário do Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19. A proposta foi apresentada na tarde desta quarta-feira (14/4).

Sâmia e Talíria argumentam que o Brasil ocupa o primeiro lugar em mortalidade de mulheres gestantes e puérperas por Covid-19 no mundo.

“Um estudo do International Journal of Gynecology and Obstetrics intitulado The Tragedy of COVID-19 in Brazil, aponta para a gravíssima realidade na qual o país se encontra, cuja razão de mortalidade de pessoas gestantes e puérperas por Covid-19 é, sozinha, equivalente a 77% de todas estas mortes no mundo, em todos os demais países somados”, citaram.



Veja o projeto de lei:

Plenário aprova o teletrabalho obrigatório para mulheres grávidas durante pandemia

Da Agência Senado

O Senado aprovou o afastamento de mulheres gestantesas do trabalho presencial durante a pandemia. Pelo projeto, elas ficarão à disposição dos empregadores para a realização de suas tarefas de maneira remota com o mesmo salário. A relatora, senadora Nilda Gondim (MDB-PB), defendeu o isolamento como maneira de proteger a gestante e o bebê. Já a senadora Daniella Ribeiro (PP-PB) citou a aprovação recente da inclusão das grávidas e das mulheres pós-parto na lista prioritária de vacinação. O projeto segue para a sanção presidencial.

 

Estudo aponta benefícios de manter a amamentação durante a COVID-19

Agência FAPESP* – Uma revisão da literatura científica feita por pesquisadoras do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e publicada na revista Physiological Reports sugere ser benéfico manter a amamentação durante a COVID-19. Os mais de cem estudos analisados indicam que o leite materno, além de transferir anticorpos para o bebê, também fornece moléculas bioativas com ação antimicrobiana, como caseínas, lactoferrinas, proteínas do soro do leite e triptofano.

O trabalho foi coordenado pela professora Patrícia Gama, que estuda os efeitos do desmame precoce no trato gastrointestinal há mais de 30 anos, e contou com apoio da FAPESP por meio de três projetos (18/07409-5, 20/02888-2 e 18/07782-8).

Muitos trabalhos já mostraram que os componentes do leite conferem proteção ao intestino, estimulando o sistema imune. Também há evidências de que essas moléculas protegem o recém-nascido contra infecções virais. “Crianças que são desmamadas precocemente apresentam maior incidência de infecção por rotavírus, causador da gastroenterite, por exemplo”, afirma Aline Vasques da Costa, uma das autoras da revisão. O grupo analisou trabalhos sobre os componentes do leite materno individualmente, inflamações intestinais e os efeitos gastrointestinais na COVID-19, pneumonia e outras doenças virais.

O objetivo era investigar por que as crianças são menos acometidas pelo SARS-CoV-2 e se a amamentação poderia ter um papel protetor contra o vírus. Foi verificado que as moléculas presentes no leite previnem infecções virais que causam distúrbios gastrointestinais. A lactoferrina, por exemplo, já foi testada e demonstrou potencial antiviral contra o SARS-CoV-1, responsável pela epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) em 2003, conforme explica a pesquisadora Carolina Purcell Goes.

Outras pesquisas mostraram que mães que se recuperaram da COVID-19 e estavam em fase de amamentação apresentavam anticorpos do tipo imunoglobulina A (IgA) no leite. “A literatura mostra que os níveis de IgA são mantidos até sete meses após o início da amamentação”, relata Gama.

A conclusão das cientistas é que, ao serem transferidos para o bebê, esses anticorpos poderiam prevenir a infecção por SARS-CoV-2 ou ao menos reduzir a severidade dos sintomas. Além disso, os demais componentes ampliariam essa proteção.

“Quando nós estudamos os elementos do leite separadamente, vimos que todos têm um papel importante no quadro de inflamação intestinal. E, juntas, essas moléculas tornam o leite materno um alimento muito importante na proteção das crianças”, destaca a professora.

O artigo Breastfeeding importance and its therapeutic potential against SARS -Cov-2 está disponível em https://physoc.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.14814/phy2.14744.

Outro estudo publicado recentemente no The Journal of the American Medical Association (JAMA) revela que o leite produzido por lactantes vacinadas contra a COVID-19 pode ser uma fonte de anticorpos para os bebês. A pesquisa envolveu 84 mulheres de Israel, com idade média de 34 anos, que receberam duas doses da vacina desenvolvida pela Pfizer/BioNTech.

Os autores, contudo, apontam que o estudo tem limitações. Não foi feito nenhum ensaio funcional que permita concluir definitivamente que bebês estão protegidos contra a COVID-19 por terem recebido anticorpos via leite materno.

* Com informações da Assessoria de Comunicação do ICB-USP.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Crianças com fome: mais um lado cruel da pandemia

Falta de renda para comprar alimentos, dependência de escassas doações e ausência de merenda escolar têm sido a realidade de muitas famílias brasileiras

Do Lunetas

silhueta de uma criança segurando um prato vazio de comida
iStock/arte Lunetas

Se dependesse dos sonhos da professora e musicista Laudy Gomes, 38, ela estaria engajada em compor novas canções. Mas não teve tempo de esperar por aplausos: assumir o posto emergencial na cozinha durante a pandemia foi um chamado do coração. Há meses, ela tem sido responsável por preparar as duas refeições diárias de dezenas de crianças em situação de fome, que vivem na ocupação Nova Guaporé 2, na Zona Oeste de Curitiba (PR).

Assim como ela, as famílias vizinhas fogem dos altos aluguéis da cidade e levantam tábuas para construir suas próprias casas. Com dificuldades de acesso ao auxílio emergencial, muitas delas não conseguem garantir o básico aos filhos, como a comida.

A situação se agravou após o cancelamento das aulas presenciais como uma das medidas de segurança para conter a disseminação da covid-19, desde março do ano passado. Com escolas fechadas, as crianças ficaram sem a merenda prevista pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar, que, para muitas, era a única refeição do dia. Houve poucas cidades e algumas iniciativas independentes de organizações e pessoas, como Laudy, que tentaram manter o programa ou distribuir alimentos e cestas básicas para as famílias.

“Elas estão sem aulas, pois não temos internet na comunidade. Com a falta das merendas, a maioria das crianças depende de doações de alimentos”

Laudy é mãe solo da Eduarda, 4, e sua história se confunde com a de milhares de mães no Brasil que, afetadas diretamente, escolheram ainda ser linha de frente no combate aos efeitos da covid-19. Todos os dias, quando o relógio marca nove horas da manhã, as crianças se reúnem no parquinho improvisado, em frente à sua casa, enquanto acordes do violão anunciam a hora do café.

Fome e pandemia: mulher de pele negra está com um lenço branco na cabeça, vestido florido, em frente a uma porta de uma casa feita de tábuas, em uma favela
Foto: Rafael Bertelli Laudy Gomes, mãe solo e moradora na ocupação Nova Guaporé 2, em Curitiba (PR). Apesar das dificuldades, ela tem sido responsável por preparar as duas refeições diárias de dezenas de crianças

Resultados do “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia de Covid-19 no Brasil”, publicados esta semana, mostram que 55,2% dos brasileiros têm algum grau de insegurança alimentar (o que inclui, por exemplo, a privação de alimentos ou pessoas que tiveram de pular refeições por falta de comida) e 19,1 milhões passam fome (insegurança alimentar grave).

Segundo a pesquisa, a fome também tem gênero e raça: em 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres, os habitantes estavam passando fome, contra 7,7% quando a pessoa de referência era homem. Das residências habitadas por pessoas pretas e pardas, a fome está presente em 10,7%. Entre pessoas de cor/raça branca, esse percentual é de 7,5%. 

Fome e segurança alimentar na pandemia

Além das questões sanitárias, as dimensões econômicas e sociais da pandemia podem custar caro para a infância, compreendida como etapa crucial do desenvolvimento humano. De acordo com dados publicados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a pandemia pode aumentar a pobreza domiciliar em até 22%, fator significativo para a mortalidade de crianças de até cinco anos

O estudo “Impactos primários e secundários da Covid-19 em crianças e adolescentes”, publicado pelo Unicef, em agosto de 2020, mostra como a queda da renda familiar e o isolamento social têm afetado a segurança alimentar e nutricional no país. Quase metade da população (49%) relatou mudanças nos hábitos alimentares, desde março do ano passado. Entre as famílias que residem com crianças, a porcentagem foi de 58%. 

Se por um lado temos um aumento significativo da obesidade infantil, pois as crianças deixaram de comer comida saudável, por outro, temos crianças que dependiam da merenda passando fome”, aponta o presidente do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Tadeu Fernando Fernandes.

Bolo, bolacha, achocolatados, macarrão instantâneo, refrigerante e enlatados fazem parte do cardápio atual descrito por brasileiros nas entrevistas do Unicef. A pesquisa confirma que o aumento no consumo de produtos industrializados cresceu 31% entre famílias com crianças e adolescentes, contra 18% em famílias sem crianças. 

Sem dinheiro, sem merenda, sem comida

As mortes decorrentes da covid-19 se aproximam da casa dos três milhões. Mas ainda não é possível saber quantas pessoas realmente serão atingidas pelos efeitos da pandemia, sendo a fome uma das consequências mais evidentes.

Nas favelas, quase 70% da população não tem dinheiro para comprar comida e mais de 80% das famílias, assim como a de Laudy e de seus vizinhos, dependem de doações para se alimentar. Os dados são do último levantamento realizado pelo Data Favela, em parceria com o Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), entre 9 e 11 de fevereiro de 2021.

A pesquisa “A favela e a fome” entrevistou 2.087 pessoas maiores de 16 anos, em 76 comunidades de todo o país. Os resultados também mostram que 93% das famílias não possuem poupança e 71% delas estão vivendo com menos da metade da renda que tinham antes da pandemia. Com isso, a média de refeições diárias passou a ser menos de duas (1,9).

Talvez os professores da rede pública de ensino tenham sido um dos primeiros profissionais a perceberam a urgência da fome. Enquanto o país debatia a aplicação do ensino remoto nas escolas, o contato direito com os alunos deixou claro que muitas famílias, já no início da pandemia, sequer tinham dinheiro para comprar gás. 

Antes da chegada do vale alimentação ou da própria distribuição de auxílio via Cadastro Único (CadÚnico), em São Paulo, professores já faziam vaquinha para arrecadar cestas básicas, mobilização que ocorreu na Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, Zona Oeste de São Paulo. “Deixávamos encomendado nos supermercados ou na escola e as famílias iam buscar”, afirma a professora do Ensino Fundamental I, Sandra Araujo.

Violação do direito à alimentação chega à ONU

Apesar de ser um direito previsto em lei, em muitas situações, a garantia da alimentação escolar passou a ser cumprida por meio de processos judiciais. Em outubro de 2020, representantes de organizações e instituições brasileiras denunciaram casos relativos à violação desse direito ao relator especial da ONU, Michael Fakhri.

Um dos temas principais foi a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Tofolli, em desobrigar o Estado do Rio de Janeiro a distribuir merendas escolares durante a pandemia. Municípios que não deram informações ou se negaram a oferecer kit merenda ou planejar ações para assegurar esse atendimento aos alunos também foram mencionados.

Com o cancelamento do auxílio emergencial no final do ano passado pelo Governo Federal, que foi retomado apenas neste mês de abril com um alcance e valor muito menor (R$ 150), especialistas apontam que a situação deve se agravar ainda mais.

Desigualdade social: a pandemia dentro da pandemia

Diante da calamidade instalada pelo novo coronavírus no Brasil, uma pergunta fica latente: como um país que chegou a ser exemplo mundial no combate à fome pode voltar a ser um local de morte infantil por desnutrição? 

Para a nutricionista, doutora em Ciência Sociais pela Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN) e presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Islandia Bezerra, a pandemia atua em cima da fissura das desigualdades. Segunda ela, negar as evidências científicas coloca a sociedade brasileira em vulnerabilidade ainda mais intensa.

“A pandemia está abrindo ainda mais a ferida da desigualdade social”

O Brasil havia saído do Mapa da Fome das Organizações das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, pela primeira vez em 2014, quando o índice de pessoas em situação de fome era de 4,2%. A crise econômica agravada nos últimos dois anos e a pandemia fizeram a fome retomar aos patamares de 2004. Hoje 10,3 milhões de pessoas voltaram a passar fome no Brasil, de acordo com a primeira parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, divulgada em setembro de 2020.

Um artigo publicado em setembro de 2020 pela The Lancet, uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo, destacou um novo termo para o debate sobre a crise causada pela covid-19. O texto assinado pelo editor-chefe, Richard Horton, defende que o mundo não está diante de uma pandemia, mas de uma “sindemia”. 

“O termo, cunhado nos anos de 1990, reaparece para explicar, por exemplo, os fenômenos da obesidade, da desnutrição e das mudanças climáticas, intrinsecamente relacionados ao sistema de produção de alimentos”, explica Islandia.

No caso da covid-19, isso quer dizer que o vírus não atua sozinho, mas interage com fatores biológicos e sociais: ele é agravado por outras doenças, mas tem a desigualdade social como motor da proliferação. Portanto, não se trata apenas de uma nova palavra no léxico de debate sobre o coronavírus, mas de uma ideia-chave para o combate aos seus efeitos. 

“As estratégias de enfrentamento à pandemia não estão partindo do Estado brasileiro, mas de iniciativas da sociedade organizada. Apesar de serem um apoio, não têm capacidade de massificação e capilarização”, atenta Islandia.

‘Mães de favela’

Hoje, aproximadamente 13,6 milhões de pessoas vivem em favelas no Brasil, sendo que mais de 5,2 milhões são mães, segundo estimativa do Instituto Locomotiva. Com metade dos lares brasileiros chefiados por mulheres, como aponta o último senso do IBGE de 2020, elas passam a ser também as mais afetadas pelo cenário atual.

Em resposta a essa realidade, o projeto “Mães de Favela”, criado pela Central Única das Favelas (Cufa), em abril de 2020, arrecadou mais de 180 milhões de reais, se tornando o maior projeto mundial de atuação nessas comunidades. Segundo a Cufa, mais de 1,4 milhão de famílias já foram beneficiadas.

Média semanal de mortes maternas por Covid em 2021 já é mais do que dobro de 2020

Segundo a última atualização, no dia 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes - Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress
Segundo a última atualização, no dia 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes – Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress

O número de mortes maternas por Covid-19 mais do que dobrou nas 13 primeiras semanas de 2021 em relação à média semanal do ano passado. Passou de 10,4 óbitos (449 mortes em 43 semanas de pandemia de 2020) para 22,2 nas primeiras semanas deste ano, com 289 mortes.

Embora estudos mostrem que a gestação e o pós-parto aumentam o risco de complicações e morte por Covid-19, no Brasil o alto número de óbitos maternos associados à doença é atribuído, principalmente, à falta de assistência adequada.

Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) internadas com Covid não tiveram acesso à UTI e 33,3% não foram intubadas, último recurso terapêutico para os casos graves da Covid-19.

Os dados obtidos pela Folha vêm do OOBr Covid-19, um observatório obstétrico recém-lançado que agrupa informações de várias bases públicas, como os sistemas de nascidos vivos e de mortalidade materna, e o Sivep Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe). A atualização é semanal.

O painel é elaborado por pesquisadores da USP e da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e está dentro de um projeto maior que analisa dados materno-infantis no país e que conta com financiamento da Fundação Gates e de bolsas de pesquisa do CNPq e da Fapes (fundação de amparo à pesquisa do ES).

Segundo a última atualização, no dia 7 de abril, desde o início da pandemia foram 9.479 casos de internações por Covid entre gestantes e puérperas, com 738 mortes.

Existem outros 9.784 de registros de SRAG (síndrome respiratória aguda grave) não especificados nesse grupo, com 250 óbitos. Para os pesquisadores, é grande a possibilidade desses casos serem também Covid.

O que explica liderança do Brasil em ranking de mortes maternas?

Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) internadas com Covid não tiveram acesso à UTI e 33,3% não foram intubadas, último recurso terapêutico para os casos graves da Covid-19 - Foto: Jonathan Wiggs/The Boston Globe via Getty Images
Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) internadas com Covid não tiveram acesso à UTI – Foto: Jonathan Wiggs/The Boston Globe via Getty Images

Segundo a médica obstetra Rossana Pulcinelli Francisco, professora do departamento de ginecologia e obstetrícia da USP-SP e uma das criadoras do painel, os dados deixam evidentes as disparidades regionais envolvidas na falta de uma assistência materna adequada, cenário já apontado em outros estudos que colocaram o Brasil como líder mundial de mortes maternas por Covid.

No Pará, quase a metade (46%) das gestantes e puérperas mortas não puderam contar com terapia intensiva. Já no Rio Grande do Sul, 4% dos óbitos foram nessas circunstâncias.

No estado de São Paulo, 18% das gestantes e puérperas morreram fora da UTI e 38% não foram intubadas. Na capital paulista, 3% não chegaram à UTI e 24% não foram intubadas.

“Nos casos graves, uma boa assistência significa a mulher ter chegado à UTI. E como a maior complicação da Covid é a respiratória, ela precisa ter chance de ser intubada. Se ela morre antes disso, é porque não recebeu toda a assistência que deveria”, explica Rossana Francisco.

Segundo a médica, além da falta de leitos da UTI, o fato de as gestantes infectadas terem que percorrer longas distâncias para conseguir alguma assistência também pode contribuir para um pior desfecho.

De acordo com Lucas Lacerda, estudante de graduação de estatística da Ufes e que também integra o grupo que mantém o painel obstétrico, gestantes e puérperas com Covid residem em 2.520 municípios brasileiros e foram atendidas em 977 hospitais. Ainda estão sendo organizados os dados sobre o percentual de mulheres que se deslocaram para conseguir a internação.

A morte de uma menina de 13 anos, que estava com 31 semanas de gestação e que morreu em Medicilândia (PA) por complicações da Covid-19, exemplifica o gargalo.

Vítima de estupro, a criança vivia em Uruará (1.048 km de Belém) e foi atendida primeiro no hospital do município. Em seguida, foi levada para Medicilândia, a duas horas de carro.

Com quadro grave de Covid-19 e precisando de UTI, foi transferida para o Hospital Regional Público da Transamazônica, em Altamira. Mais uma hora e meia de estrada.

No meio do caminho, o quadro de saúde da menina piorou e a ambulância voltou para Medicilândia. Ela não resistiu e morreu na unidade.

Segundo Rossana Francisco, também é preciso analisar o tipo de UTI que tem atendido essas gestantes e puérperas com Covid-19. Além dos intensivistas, o serviço precisa ter médicos obstetras, neonatologistas e equipe multidisciplinar.

“Quando a gente tem uma gestante, os parâmetros de ventilação são diferentes, a quantidade de líquidos a ser ingerido [balanço hídrico] também tem que ser monitorada de uma outra forma”, explica.

A médica lembra que já existem evidências de que qualquer cirurgia feita em um paciente com Covid aumenta a mortalidade e, durante a pandemia, muitas gestações estão sendo interrompidas precocemente.

“A gente viu muitos serviços indicando o parto porque a paciente estava com Covid. Isso também piora a morbidade e mortalidade.”

As mortes maternas por Covid devem se somar às outras que acontecem anualmente por outras causas, como hipertensão e hemorragia. Em 2019, foram 1.575 óbitos durante a gestação ou no pós parto. Em 2018, foram 1.658 mortes.

Mas, para a médica Agatha Rodrigues, também responsável pelo observatório obstétrico e professora do departamento de estatística da Ufes, essa soma é até conservadora levando em conta que, durante a pandemia, muitas gestantes ficaram sem assistência adequada e isso pode estar se refletindo em mortes ainda não computadas.

A ideia do observatório, segundo ela, é justamente tentar mapear isso a partir de informações oficiais. “Sem dados, parece que não tem problema. Não conseguimos analisar o impacto da pandemia na saúde materno infantil e das políticas públicas.”

Rossana Francisco ressalta que o Brasil tem tido muitas dificuldades em reduzir as taxas de mortalidade materna, e uma das razões é fragilidade e as deficiências na atenção à saúde das mulheres durante o pré natal, parto e puerpério.

“A pandemia de Covid-19 deixou ainda mais claro essas deficiências, especialmente a desigualdade que temos entre os diferentes estados.”

Para ela, há uma necessidade urgente de reestruturação da rede de atenção materna, especialmente na identificação de hospitais que possam ser capacitados para atuar no cuidado dessas mulheres.

No campo da prevenção, a médica diz que é muito importante que a gestante possa ter o direito garantido ao isolamento social para se proteger da infecção.

Rede de médicas pede urgência de vacinação de gestantes

Especialistas pedem prioridade na vacinação das gestantes e puérperas com e sem comorbidades e mais atenção às medidas protetivas para garantir o isolamento dessas mulheres - Foto: AP Photo/Ramon Espinosa
Especialistas pedem prioridade na vacinação das gestantes e puérperas com e sem comorbidades e mais atenção às medidas protetivas para garantir o isolamento dessas mulheres – Foto: AP Photo/Ramon Espinosa

Um manifesto recente da Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras alerta para os riscos que gestantes e puérperas enfrentam na pandemia de Covid-19.

Além da dificuldade de acesso aos leitos de UTI, o documento aponta para a desorganização dos serviços de assistência pré-natal, com suspensão de consultas, problemas de acesso ao atendimento adequado da Covid-19, falta de testes diagnósticos e de outros insumos terapêuticos.

Estudos mostram que dentre os fatores associados ao óbito materno por Covid estão o período do puerpério, a mulher ter cor preta, viver em área periurbana, não ter acesso ao Programa de Saúde da Família e morar a mais de 100 km do hospital de referência.

Segundo o manifesto, embora o Ministério da Saúde tenha publicado em setembro um manual de recomendações para a assistência às gestantes e puérperas durante a pandemia, não houve modificações importantes da estrutura, dos exames e do fluxo de atendimento, e as mortes continuaram acontecendo.

O documento também chama a atenção para as subnotificações. “Muitas mortes são registradas como SRAG de causa indeterminada porque não chegaram a ser testadas ou porque não havia testes disponíveis. Além disso, muitos óbitos fetais e neonatais também se associam aos óbitos maternos e precisam ser mais bem estudados.”

A rede pede prioridade na vacinação das gestantes e puérperas com e sem comorbidades e mais atenção às medidas protetivas para garantir o isolamento dessas mulheres.

O projeto de lei 3932/2020 que prevê o afastamento do trabalho presencial das gestantes, podendo suas atividades ser exercidas remotamente, foi aprovado pela Câmara dos Deputados mas continua parado no Senado.